OPINIÃO

56, via Costeira

Vez ou outra alguém sente um negocinho no peito. É um calorzinho, um sei lá que(zinho). A semântica é quem dá conta dos diminutivos, porque sente-se essa tal coisinha em grandes proporções. Não é corriqueiro, mas, quando vem, é arrebatador. No meio de tantas vozes, se faz silêncio. No meio da rua, no restaurante, na sala de espera, no 56-Via Costeira, em qualquer lugar tem sempre alguém sentindo um negocinho no peito.

E como sempre tem gente indo e vindo, tem algo começando e terminando a todo momento. A gente tá sempre gastando o mundo. É por isso que às vezes ele simplesmente para. E numa dessas, larga alguém no asfalto. Não são nem 8 da manhã e já tem gente morrendo. Tem um sapato na pista quente, tem um rastro de alguém, um resto de vida. O mundo para um pouco quando morre alguém. No entanto, a rota segue. Os turistas pisam na areia fofa da praia, as moças espiam o mar pela janela do ônibus. Cenário quase infinito de alguém que se finda assim, no asfalto quente.

Até a música para, o abraço solta, o beijo separa, a boca soluça e o olho rega tudo. E ainda é preciso bater o ponto, dar bom dia, preencher planilhas. Mas em algum lugar da cidade uma carga horária não é cumprida. Cumpre-se apenas o que requer a vida. E esta não amansa. Nos faz abaixar a cabeça. Por vezes nos tira o rumo. Tem tanta gente indo e vindo que nem lembramos que já já chega nossa hora de ir também, de bater o ponto por aqui.

Mas, embora o mundo tenha suas paradas, existe uma rota a ser seguida. E em qualquer lugar tem sempre um calorzinho crescendo dentro de alguém. Parece coisa pequena, mas é o que vem colando as feridas. Sim, essas que se abrem de tanto cismarmos com o tempo, com a vida. É esse negocinho no peito que reata o abraço, que pede o beijo, que abre o sorriso, que bota a música e ainda ensaia a dança.

E vamos deixando de nos desfazer, de destruir as redondezas. Porque paramos, sentimos, contemplamos. Encurtamos as distâncias. Colamos as peças de um mundo que insiste em quebrar. E de uma gente que cisma em seguir. Preenchendo o tempo com espantos, bons e ruins. Salgando a pressa com água do mar, pra ver se o tempo dura mais e a vida, quem sabe, seja mais do que pagar conta e morrer.

56, Via Costeira. Sentido Zona Sul da cidade. De tudo se ouve. Um coração batendo ao som de sua música preferida. Um batuque em volta dessa quentura no peito. Um bafo de esperança. Vou chegar.

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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