TRABALHO

76% das mulheres já sofreram violência no trabalho, mostra pesquisa

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Patrícia Galvão revelou que 76% das mulheres já foram vítimas de violência no ambiente de trabalho. O levantamento, elaborado com o apoio da Laudes Foundation, foi publicado na segunda-feira (7) e aponta que quatro em cada dez foram alvo de xingamentos, insinuações sexuais ou receberam convites de colegas homens para sair.

Gritos e xingamentos; discriminação por causa da aparência física, raça, idade ou orientação sexual; controle excessivo e críticas constantes; agressão física; elogios constrangedores; assédio e estupro são algumas das situações de violência, constrangimento e assédio vividas pelas brasileiras no trabalho.

Setenta e três por cento delas contaram que tiveram seu trabalho supervisionado excessivamente. Uma parcela significativa também vivencia situações de depreciação das funções que exercem, tendo suas observações desconsideradas (37%), ganhando um salário menor do que colegas homens com o mesmo cargo (34%), recebendo críticas constantes sobre o esforço com que exercem as atividades (29%).

O assédio sexual é mais associado a cantadas e abordagens com intenção sexual, mas há também relatos de estupro. Das entrevistadas, 72% sofreram agressões sexuais; enquanto 71% foram humilhadas na frente de colegas; 69%, tratadas aos gritos, de maneira raivosa, grosseira ou bruta; 68% ouviram piadinhas sobre aparência física; e 59% foi xingada pelo chefe ou superior. Além disso, 4% foram vítimas de agressões físicas no ambiente de trabalho.

Em depoimento que aparece na pesquisa, uma mulher acredita que não lhe restam outras oportunidades por causa de sua aparência: “Fui xingada várias vezes com predicativos de burra, débil mental, pouco profissional, amadora, estagiária de 15 anos que não sabe nada, mas como tinha que pagar aluguel não disse nem ‘a’ e nem ‘b’, porque com a minha idade, gordinha e mulher, não tenho muitas oportunidades de emprego”.

A pesquisa “Percepções sobre a violência e o assédio contra mulheres no trabalho” também perguntou sobre o que as mulheres sentem e como reagem após a violência. Tristeza, ofensa, humilhação e raiva são os sentimentos mais comuns. Apenas 16% disseram não ter se importado.

Em 28% dos casos relatados, a vítima soube que o agressor sofreu alguma consequência. Em 39%, a vítima não soube o que houve com o agressor e em 36% nada aconteceu e ele não foi punido.

Já com relação à vítima, a maior parte tratou o caso no âmbito individual: confrontando pessoalmente o agressor ou evitando contato, contando apenas para amigos e familiares ou pedindo demissão; 11% não formalizaram a denúncia por terem sido assediadas pelo superior e 10% por terem visto o mesmo ocorrer outras vezes, sem solução. Três em cada 10 consideraram que o episódio não havia sido grave o suficiente para ser levado adiante.

Os depoimentos coletados pelo Instituto Patrícia Galvão mostram que muitas mulheres são obrigadas a se submeter a violências por necessidade financeiras. “Nunca sofri assédio sexual. Mas já fui humilhada como pessoa e como profissional, mas preferi ficar no trabalho devido à situação no nosso país, uma vez que a economia não anda bem. Mesmo assim, minha saúde ficou prejudicada e as pessoas me viam triste, mas lutei e luto até hoje pela educação dos meus filhos. E faria tudo de novo, sofreria em um emprego pra dar o melhor para o meu filho. É assim que penso”, relatou uma das entrevistadas.

Um quarto das mulheres que foram assediadas passou a desconfiar das pessoas com quem trabalham e/ou não tiveram mais vontade de ir trabalhar; 21% saíram da empresa.

No Jornalismo

A violência praticada pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido) a jornalistas mulheres destaca a categoria nesse cenário de violações no trabalho. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) analisou o ambiente vivido pelas mulheres jornalistas no Brasil. Entre ofensas misóginas e machistas, descredibilização do trabalho e exposição de informações pessoais, as jornalistas brasileiras foram atacadas 20 vezes entre janeiro de 2019 e fevereiro de 2020.

No ano de 2019, foram 17 casos, dos quais 13 foram perpetrados por figuras como deputados federais e estaduais, ministros e o próprio presidente.

A Pesquisa Mulheres no Jornalismo Brasileiro, realizada em 2017 também pela Abraji, mostrou um cenário em que 84% das jornalistas relataram já ter sofrido algum tipo de violência psicológica, como insultos verbais; humilhação em público; abuso de poder ou autoridade; intimidação verbal escrita ou física; tentativa de danos a sua reputação; ameaça de perder o emprego em caso de gravidez; ameaças pela internet; ou insultos pela internet.

Setenta e três por cento das jornalistas que responderam a pesquisa afirmaram já ter escutado comentários ou piadas de natureza sexual sobre mulheres no seu ambiente de trabalho.

Com apoio do Google News Lab (hoje Google News Initiative), o estudo revelou também que mais da metade das entrevistadas afirmaram ter tido sua competência questionada ou ter visto uma colega ter a competência questionada pelo fato de ser mulher.

Dados do Censo de 2010 indicam que as mulheres representam 58% dos jornalistas de 20 a 29 anos e são 64% dos estudantes dos cursos de jornalismo.

A mestranda pelo Programa de pós-Graduação em Estudos da Mídia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPgEM/UFRN) Jadeanny Arruda pesquisa, com orientação da doutora Socorro Veloso, sobre violência de gênero contra jornalistas em Natal por meio de histórias de vida.

Jadeanny confirma as estatísticas e, segundo ela, o cenário é pior da porta das redações para fora. Repórteres são ainda mais assediadas durante as coberturas jornalísticas.

“Dentro das redações, as jornalistas falam muito sobre não se sentirem confortáveis com as roupas (elas pensam e repensam o que usar por causa dos comentários de colegas de trabalho); falam muito que ouvem ‘piadas’ machistas, homofóbicas, racistas e também da descrença com relação a elas fazerem determinadas pautas. É muito no campo da violência simbólica. A maioria tem essa percepção de que passam por violência”, conta a pesquisadora, completando que as profissionais não se sentem protegidas ou acolhimento para falar de suas queixas no trabalho.

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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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