CULTURA

Artistas relatam dramas com perda de renda devido ao coronavírus

Por Kamila Tuênia e Rafael Duarte 

Após a classificação do novo Coronavírus como pandemia e o crescimento do número de casos da doença no Brasil, escolas paralisaram, universidades entraram em regime não presencial e alguns serviços suspenderam ou reduziram seus expedientes de atividades.

Quando se trata de eventos culturais, o adiamento ou cancelamento de shows, apresentações e festas reflete no bolso dos artistas, que tem nessas ocasiões sua única fonte de renda, essa que já é tão desvalorizada.

Em Natal, diversas programações foram canceladas e sem data de remarcação, como é o caso da Quinta Que te Quero Samba, evento gratuito e semanal que acontece na Cidade Alta. O grupo Batuque de um Povo, responsável pela organização do evento considerado patrimônio imaterial de Natal, declarou que suspenderá as rodas de samba até que os órgãos de saúde entendam que a situação esteja controlada e segura.

Ainda que tenha outro emprego além da arte, o músico do grupo Vinícius Assunção classifica a situação como “desesperadora”:

– Tenho sim (outro emprego). Mas estou perdendo aí (com o coronavírus) quase metade da minha renda. Fiz empréstimo pra quitar dívidas e começar a pagar daqui a 4 meses. Pra mim vai dar. Mas pense em outro amigo, por exemplo. Ser músico é única profissão dele. E as contas de cartão estão vindo aí. Isso é muito sério!”, desabafa.

A cantora potiguar Dodora Cardoso afirmou que está de repouso em casa, já que faz parte do grupo de risco referente à faixa etária, mas lamenta o cancelamento de shows. “Não acho ruim ficar em casa, mas a gente precisa trabalhar, né? A gente precisa faturar e fazer a batalha, por isso, sinto muito pelos shows cancelados”, comentou a cantora.

Cantora Dodora Cardoso tem mais de 60 anos de idade e está no grupo de risco do coronavírus (foto: Rogério Vital)

O ator do grupo de teatro Facetas, Mutretas e outras histórias, Rodrigo Bico, afirmou já ter contabilizado um prejuízo que passa dos R$ 2 mil graças aos trabalhos cancelados diante da crise de saúde pública atual. “Os efeitos do Coronavírus vão muito além do efeito direto da pandemia, mas teremos aí um colapso financeiro, psicológico e emocional. Tá batendo aquele desespero de não saber como pagarei minhas contas nos próximos meses”, desabafou o artista.

A cantora Khrystal também teve shows cancelados, entre eles um que aconteceria neste sábado (21) junto ao cantor Isaque Galvão, na Casa Galvão. Khrystal afirmou ter contato diário com seus pais, que já tem 80 anos, além de crianças na família, por isso preferiu se manter em casa.

A casa de festas Ateliê Bar, localizada na Ribeira, cancelou suas atividades até segunda ordem, em compromisso com o público e seus familiares. Os Lounges semanais que acontecem no Beco da Lama também estão suspensos até que a situação se estabilize.

“Perdi absolutamente todos os meus trabalhos”, desabafa cantora potiguar nos EUA

Liz Rosa mora há alguns em Nova Iorque (foto: Divulgação)

A cantora potiguar Liz Rosa mora em Nova Iorque e desabafou no final de semana sobre a situação dramática para a população e, também para os artistas:

Pra mim a situação está muito ruim financeiramente porque perdi absolutamente todos os meus trabalhos porque eu só ganho dinheiro com show ao vivo. Praticamente tudo foi cancelado, praticamente só Jazz clubs pequenos (continuam). Anteontem eu fiz um, tinha uma pessoa na plateia porque as pessoas estão com medo de sair de casa e desinformadas. E hoje farei outro e provavelmente só terá uma ou duas pessoas. E no final do mês a gente tem que pagar aluguel. Então na realidade esse vírus não vai matar tanta gente, a gente vai é ficar falido, principalmente classe média e pobre”, disse.

Carmin tem 13 apresentações canceladas e diretor da Casa da Ribeira alerta: “Se ficarmos 1 ou 2 meses fechados não reabriremos”.

Cena do premiado “A Invenção do Nordeste”, na Casa da Ribeira. (foto: Karen Lima)

Dramática também é a situação do Grupo Carmin de Teatro, a companhia mais premiada do país em 2019 com o espetáculo “A Invenção do Nordeste”. Ator e diretor, Henrique Fontes conta que o grupo teve 13 apresentações canceladas nos últimos dias, sendo 12 da temporada de Jacy, no Sesi, do Rio de Janeiro, e uma com “A Invenção do Nordeste”, no Sesc Jacarepaguá.

Ele cobra uma intervenção do Estado sob o risco dos artistas passarem fome:

– Não existe plano B para quem depende da venda de ingressos e da presença de público ao vivo para seguir trabalhando. Com a atual política pública de cultura que foca exclusivamente na promoção de eventos e não na manutenção de espaços de fruição e formação ou de artistas de trabalho continuado, quando entramos em situações de impedimento como essas, se o Estado não intervir, esses Espaços fecharão para sempre e os artistas passarão fome”, diz.

Situação idêntica vive a Casa da Ribeira, do qual Fontes é fundador e um dos diretores. Ele é taxativo ao afirmar que o espaço não reabrirá mais se for fechado durante dois meses.

 – Sobrevivemos basicamente da locação de pautas, e ultimamente, diante das dificuldades, realizando parcerias com artistas/grupos, dividindo o percentual de venda de ingressos da bilheteria, o que não supre nossas despesas com contas fixas, variáveis, manutenção do espaço e equipamentos. Desta forma, não temos reservas financeiras para enfrentar o momento atual quando somos obrigados a atender as recomendações de fechamento, ao contrário, temos arrastado, já por alguns anos, um acúmulo de dividas, que hoje chegam ao total de R$ 16.783,15, com fornecedores diversos. Vamos encaminhar um ofício para tentar sensibilizar parlamentares e os gestores públicos de cultura a entenderem que se ficarmos 1 ou 2 meses fechados não reabriremos

Governo não tem plano de emergência, mas está aberto ao diálogo com artistas; Prefeitura “estuda saídas”

Com o Estado mergulhado numa das maiores crises financeiras de sua história, o Governo não tem um plano emergencial para reduzir os efeitos do coronavírus no bolso dos artistas.

A Fundação José Augusto divulgou na terça-feira (17) um comunicado suspendendo as atividades em todos os equipamentos culturais da entidade. São eles: Instituto de Música Waldemar de Almeida – IMWA, a Escola de Dança do Teatro Alberto Maranhão – EDTAM, Centro Experimental de Teatro; visitação à Cidade da Criança; ensaios, apresentações e concertos dos corais Canto do Povo, Camerata de Vozes, Harmus e da Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Norte; apresentação de espetáculos nos Teatros: Cultura Popular Chico Daniel, Lauro Monte Filho (Mossoró), Adjuto Dias (Caicó); atendimento e eventos nas Casas de Cultura Popular; visitação aos Museus: Memorial Câmara Cascudo e de Arte Sacra.

O diretor administrativo da FJA Fábio Lima admite que o governo não tem um plano emergencial, mas diz que o órgão está aberto ao diálogo. Segundo ele, é necessário analisar caso a caso para reduzir ao máximo os dados para os artistas:

– É preciso analisar caso a caso. A cultura, mais uma vez, é sacrificada porque é uma atividade compartilhada com o público, aqui e nacionalmente. Há um debate em nível nacional de propor uma renda mínima de emergência para as pessoas que sobrevivem da atividade artística, mas ainda não avançou. Em nível local estamos nos dispondo a dialogar. Acho que podemos encontrar uma saída conjunta, cada projeto tem suas particularidades, vamos encontrar uma saída”, diz, com esperança.

Questionada sobre ações e um plano de emergência para os artistas da capital, a secretaria municipal de Cultura afirmou que “está estudando saídas”.

Governadora Fátima Bezerra (PT) reuniu empresários e sindicatos para pedir apoio e debater saída para a crise (foto: Demis Roussos)

A governadora Fátima Bezerra e a equipe do Governo do Estado receberam terça-feira (17) representantes das principais entidades empresariais e de trabalhadores do Rio Grande do Norte para discutir as medidas de combate ao novo coronavírus. Os artistas não foram convidados para o encontro.

O poder Executivo apresentou as ações decretadas, como a suspensão das aulas nas redes estadual, municipal e privada, entre outras ações.

Durante a reunião discutiu-se ainda a importância da parceria entre poder público e entidades para a divulgação da campanha educativa que será lançada. Fátima Bezerra pediu o apoio de todos:

“Estamos diante de uma situação extremamente desafiadora, onde o que fala mais alto é a saúde do povo. Também entendemos que são necessárias medidas no campo econômico, para não acontecer um impacto tão devastador nos empregos. Temos que ter muito equilíbrio, unidade e solidariedade”, apontou a chefe do Executivo.

O presidente da Federação da Câmara de Dirigentes Lojistas do RN (FCDL-RN), Afrânio Miranda, pontuou a necessidade, que foi acolhida pelo Governo, de reforçar a ideia de manter as compras, mesmo online, em lojas potiguares. “Precisamos ter união para equalizar a situação e dar prioridade para compra local vai ajudar no faturamento, que com certeza vai cair nesse período, e na manutenção dos empregos”, completou Miranda.

REPORTAGEM ATUALIZADA ÀS 16H15 A após envio de respostas pela secretaria municipal de Cultura de Natal

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