OPINIÃO

A agonia de um torcedor apaixonado

O desespero por uma vitória do seu time de coração.

Amanheceu no sábado dizendo para si mesmo: – vou ocupar meu dia, não quero saber de jogo, não vou sofrer de novo, meu coração pode ter um problema aí, vou morrer por causa de porra de futebol? Vou não! – garante.

Sai com as crianças, passeia, vai na casa da mãe, não toca no assunto futebol com os colegas de rua; vai ao supermercado, compra baganas para o filho mais novo, para os netos.

Nada que lembre futebol.

Passa a manhã desligado. A não ser quando voltava para casa, ao passar na esquina da rua, um colega de sofrimento o cumprimenta e pergunta: – vai pro estádio?

Mau-humorado dispara: – vou porra nenhuma, vou lá ter raiva de graça !?

Volta para casa. Almoça, brinca com os filhos, sai, olha o carro, passa uma água para tirar a poeira, ocupa o tempo ao máximo.

Tenta dar um cochilo, quem sabe só acorda depois do jogo, fato consumado, evitando sofrer.

Não consegue.

Vira para o lado. Se levanta. Pega um livro e começa a ler, na verdade, folheia, não consegue se concentrar.

O tempo passa. Se arrasta.

16h10.

– Eita, deve tá começando aquela quinzila – fala, tentando não ceder à pressão.

Não agüenta.

Liga a tevê.

O coração acelera, o jogo já está rolando, o Machadão está lindo, quase lotado.

– Essa torcida maravilhosa. Eu devia tá lá, puta merda, era pra eu tá lá com minha bandeira – pensou em voz alta.

Esticou-se no sofá.

O seu time de coração estava bem, atacava, chegava com perigo com o meia de ligação pela esquerda, o atacante pela direita e com ótimas jogadas de criatividade com o bom meia de ligação. A coisa estava andando.

-Esse cabeludo joga muito. Como é que esse cara estava no banco, minha gente? – se pergunta.

Se anima. Pensa até em abrir uma cerveja. Mas não. Prefere colocar um pouco de sorvete numa xícara de café.

Já, já sai um gol, é só questão de tempo.

O centroavante do seu time perde uma, outra boa bola passa perto do segundo atacante, o meia, seu jogador de predileção, em quem acredita e deposita fé é derrubado dentro da área:

– Pênalti! Pênalti, juiz filho da puta ladrão! – berra desesperado.

A mulher chega perto. Se aperreia.

– Hômi, se acalme, cuidado com seu coração. O doutor disse que você não deve ter emoções fortes…

O gol não sai. Sua frio com um contra-ataque perigoso do time adversário.

Não acredita. Gol deles. Três toques, e gol do atacante que ele disse que estava bichado, e que não ofendia um pinto. Chegou a afirmar da roda de amigos que aquele “doente” até sua vó marcava. O que vão zonar com a cara dele no serviço, na esquina da rua, nos bares que freqüenta.

Explode desesperado. Esmurra o sofá, berra, grita, xinga, cansa, quase chora, e resolve desligar a televisão.

-Chega! Chega! Chega! Vou lá mais sofrer por porra de futebol. Que se dane, se lasque pra lá. Que perca de cinco, seis a zero, pouco me importa – grita transtornado e tenta não pensar.

O filho mais velho insinua ligar a televisão do quarto. Vai lá, dar um esporro no coitado e o obriga a mudar de canal.

Não quer mais saber.

Pega um garrafão d´água e fica aguando as plantinhas da mureta de sua área. Olhando para o céu, para os pássaros que parecem cantar para espantar sua tristeza na castanhola em frente à sua casa.

Um beija-flor lindíssimo, verde-cintilante, fica a quase um metro dele, namorando com as florzinhas de suas plantas.

Sua dor ameniza. Suaviza tudo. Rega de novo as plantinhas, conversa com elas, feliz por vê-las crescer.

Por um instante deixa de pensar na derrota do seu desgraçado e ruim time de coração.

Na casa, ninguém fala em futebol. Um silêncio sepulcral combinado, justamente para que ele não volte a ver a partida.

O tempo não passa, se arrasta.

De vez em quando dá uma olhada no relógio da sala. Mesmo sem querer, pensa no jogo. O sangue fervilhando, a cabeça formigando, aquele doença triste que conhece tão bem, e que já fez desfazer amizades de muitos anos, brigar com os cunhados (quase sair às tapas) e chegar até a ir bater no pronto socorro do velho HWG.

– Está terminando o primeiro tempo – calcula, doido, doido para saber se o time reagiu, se aconteceu o milagre do gol de empate.

-Fez gol porra nenhuma, ruma de atacante chibata, parece que nem podem com a bola. Essa diretoria idiota, cretina, só contrata perna de pau – mastiga as palavras enquanto caminha para dentro e para fora.

Resolve voltar lá pra fora de novo, conversar com as plantinhas e esperar a volta do beija-flor verde-cintilante.

-Eu acho que esse beija-flor foi um sinal – fala pra si tentando encontrar um motivo e coragem para voltar à tevê.

De repente, escuta uma zoada e muita gente (algaravia, segundo Garrafinha). Corre lá pra dentro. – Acho que foi gol do seu time de coração – pensa, esperançoso.

O filho, no sofá, que observava seus movimentos, concorda: – só pode ter sido gol do nosso time.

Liga a tevê ligeiro, a imagem aparece, ainda dá pra ver o centroavante desviando de cabeça e empatando o jogo, no repeteco.

Enlouquece, grita, corre porta a fora, porta a dentro, parece um maluco. É um maluco.

– Gooooooool! Gooooool! – grita a plenos pulmões. -Valeu, meu timão de coração! Vamu lá, vamu vencer, essa vaga é nossa!

No mesmo instante, no entanto, basta o time adversário visitante ensaiar um ataque, desliga de novo a tevê.

Volta para a área, volta para suas plantinhas. Volta a olhar para castanhola do beija-flor verde-cintilante que deu sorte. Fica rezando para o passarinho aparecer de novo, é certeza de mais um gol.

Estava pensando na avezinha diminuta, e não passam dois minutos, nova algazarra. – Será? Será que foi outro gol do meu timão do coração? – sonha.

O filho, envolvido também no suspense da vaga para o futebol do RN, grita lá do quintal: – Pai! Pai! Deve ter sido outro gol do nosso time. Liga a tevê, liga!

Ele corre e repete o gesto. No espaço de tempo que a imagem leva para aparecer seu coração parece que vai explodir.

Lá está! – Foi gol nosso, minha Nossa Senhora da Apresentação, meu São Francisco de Assis, minha santa Rita de Cássia, gooooooooooooooool – berra, corre, enlouquece, abraça o netinho, pula, vibra, grita a plenos pulmões lavando a alma do sofrimento das últimas rodadas daquele brasileiro de tanto sofrimento e resultados ruins, e o quase certo rebaixamento para a divisão inferior.

O filho vem e fica na frente da tevê, achando que ele vai ver todo o jogo. Não vai. De novo ele desliga a tevê.

-Não filho, desliga, desliga, senão dá azar, quero ver não, vai, vai desliga!

O filho, chateado, vai para o quarto, acho que para assistir o restante da partida escondido dele.

Ele lá fora de novo. O tempo se arrasta. Nada de barulho no bar da outra rua.

-Acho que os filhos da puta de fora empataram – pensa negativo, lembrando do exemplo dos jogos passados, quando seu time, faltando quatro e até três minutos para terminar sofreu viradas no marcador daquelas de quase o matar.

Olha para o tempo. Já está quase escurecendo. Faz os cálculos: – o jogo começou as 16h10, com os atrasos, intervalo, já deve está bem perto de acabar – imagina.

Sente um aperto na garganta, no peito, mas não diz nada, se disser a esposa vai querer levá-lo para o hospital.

-Só saio daqui, antes do fim dessa partida, só se for morto. Vou esperar até o fim agora – diz para sim.

Continua lá fora, preso. Escurece geral. É chegada a hora.

Ele não agüenta e vai até o quarto onde os dois filhos conversam baixo. Entra de supetão: a tevê do quarto está ligada no jogo.

– Meu Deus! Faltam menos de dois minutos, o filha da puta do juiz deu seis minutos de acréscimo – reclama ainda ao ver.

2 a 1 é o placar, mas o time visitante, o infeliz do adversário está  no ataque, mas se agüenta, não consegue mais sair do canto, pregado diante da tevê, esperando, sofrendo tanto quanto estivesse acompanhado o jogo todo.

-Esse corno desse treinador tá encolhendo a equipe, tá chamando o adversário para cima, quer entregar a partida, seu burro!

Alguns perigos. Um palavrão do tamanho do mundo porque o jogador do seu time deu um passe errado, de graça no pé do meia deles.

-Segura essa bola no ataque, seu animal, perna de pau do caralho, no ataque! – berra de novo.

46, 47, 47:54, o cabeleira ( árbitro carioca) olha o relógio, mas ainda não termina.

-Acaba esse jogo fi de rapariga, acaba esse jogo, tá esperando o quê! – fala entredentes, desesperado, tremendo, suando frio.

Agora, agora, apito final.

Final, vitória  de 2 a 1. Parece mentira. O treinador, desacreditado, conseguiu segurar o seu time na segunda divisão, não caiu. Estava livre das gozações.

Sai gritando para dentro e pra fora. Berra, urra, pula, abraça, corre, abraça, pula, não cabe em si de alegria, fica rouco, tenta se dominar, a esposa o adverte de novo sobre o coração.

-De alegria eu posso morrer, nem ligo…

Felicidade de sábado. Dia completo.

No final, um arrependimento: -porcaria! Era pra mim estar lá no Machadão com minha bandeira. Que bobeira! Perdi a festa! – lamenta.

Lamenta, mas está feliz, pois o seu sofrido clube, que parecia condenado, voltou a vencer e não corre mais risco de descenso.

Seu coração está leve, acabou aquele frio incômodo na barriga, passaram as dores no pescoço, na cabeça. Se sente um menino.

– Valeu, meu timão do coraçãoooooooooooooooooo!

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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