OPINIÃO

A arapuca da identidade

Lembro bem da campanha para prefeito de Natal em 2008. Quase toda noite, no programa eleitoral gratuito, a candidata do PV, Micarla de Sousa, repetia: “Sou mãe, sou mulher”.

Essa assertiva, que liga a condição de gênero à maternidade, repetida obsessivamente dia a noite durante a campanha eleitoral daquele ano, não era um mero detalhe. Lembro que escrevi um artigo no finado diário vespertino “Jornal de Hoje”, falando sobre o assunto. A tal ação de marketing político da campanha de Mircala funcionava de modo muito claro, como uma ferramenta de mobilização do preconceito. O alvo era a orientação sexual da concorrente; a então deputada federal do PT Fátima Bezerra.

Ora, se Micarla era “mãe” logo “mulher”, Fátima, que não era mãe, seria o quê?

Usando esse recurso retórico, a campanha da candidata do PV explorou a questão da orientação sexual de Fátima sem atacar diretamente a oponente, trabalhando no modo subliminar, nas entrelinhas, no subtendido.

Obviamente não se deve explicar o resultado daquela eleição apenas por esse artefacto publicitário. A rejeição da população a um “acordão” envolvendo praticamente todas as forças políticas do estado ao redor da candidatura do PT, bem como o esvaziamento da liderança da então governadora Wilma de Faria na capital do estado, foram centrais no resultado do pleito.

O fato é que quando as urnas foram fechadas no dia 03 de Outubro daquele ano, Micarla de Sousa havia sido eleita prefeita de Natal ainda no primeiro turno, com pouco mais de 190.000 votos; 50,84% do total de votos válidos naquela eleição.

O resto da história o povo de Natal conhece bem.

O interessante é que, treze anos após os acontecimentos daquela campanha, a gente possa ver em rede nacional um governador lançar o balão de ensaio para sua candidatura a presidente utilizando como bandeira a sua própria orientação sexual.

Ao se declarar gay Eduardo Leite protagonizou um movimento político que, a despeito de corajoso, não tem nada de romântico ou inocente.

Após a declaração do político gaúcho, as comparações com a governadora do nosso Rio Grande (o do norte) foram inevitáveis, mas também bastante injustas.

Fátima Bezerra nunca escondeu sua orientação sexual, mas também nunca a utilizou como bandeira política de autopromoção, pagando o preço por isso em várias eleições (especialmente na capital do estado).

A geração de Fátima não compreendia, como a militância do século XXI parece compreender, que a orientação sexual pudesse ser uma bandeira política. Nossa governadora fez sua trajetória na vida pública atuando com outras categorias, muito mais caras a esquerda do século XX e simbioticamente ligadas às lutas sociais, às demandas das camadas populares e às bases sindicais.

Para a militância do século XX, influenciada ainda por um corpo teórico marxista e uma formação de base católica oriunda da teologia da libertação, a grande contradição a ser enfrentada era a contradição de classe e os aspectos da vida sexual tinham a dimensão das liberdades individuais, que o liberalismo clássico encapsulou na esfera da vida privada.

A esquerda liberal pós 68, turbinada pelas discussões teóricas que inauguraram a tal “pós-modernidade”, trocaram a pauta e colocaram, como contradição principal a ser enfrentada as questões de gênero, orientação sexual, raça, identificação étnica e por ai vai.

Por isso é que o risco calculado do governador do outro Rio Grande (o do sul) é uma arapuca cuidadosamente montada para dar um “nó tático” na esquerda nas eleições do ano que vem.

Daí a importância de ressaltar as distinções de trajetória e os caminhos políticos de Fátima Bezerra e Eduardo Leite. Se a sexualidade pode os unir, a prática política os põe em campos completamente divergentes.

Em um ensaio datado de Agosto de 1937, intitulado “Sobre a Contradição”, o camarada Mao Zedong argumentava que, na luta política revolucionária, a contradição principal (universal) não se sobrepõe à contradição particular (concreta). O universal reside justamente nesse particular, que se apresenta diante de nós como a contradição imediata a ser vencida a cada etapa do caminho político.

Se a gente pensar a partir dessas categorias (hegelianas em superfície, mas taoístas em profundidade) a contradição concreta que opõe a heteronormatividade às formas diversificadas de expressão de gênero, não deve ser lida como outra coisa a não ser a expressão, no particular, da contradição de classe, que estrutura universalmente, a partir dos modos de distribuição da riqueza, esse abismo brutal que rasga o modelo capitalista de ponta a ponta, separando ricos e pobres.

Quando a esquerda abandona essa articulação cai facilmente na arapuca liberal de tratar as demandas identitárias como dissociadas da sua base econômica e acaba esquecendo que há mais semelhanças entre a dona de casa evangélica que cria sozinha os filhos em uma favela e a sua vizinha transexual; do que entre essa mesma dona de casa e o bispo da sua igreja, que mora em uma cobertura de luxo em Miami.

Olhando pra 2022 precisamos ter em mente o que não se pode esquecer: na luta política, a gente só consegue perceber o que nos une, quando começa a enxergar o que nos separa.

 

 

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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