OPINIÃO

A arte também pergunta: presidente, por que a sua esposa, Michele, recebeu R$ 89 mil do Fabrício Queiroz?

O Armandinho, aquele menino das tirinhas que faz as perguntas que os adultos não ousam formular, ligou para o Presidente da República e questionou: “– Por que a sua esposa, Michele, recebeu 89 mil do Fabrício Queiroz?”. A pergunta que muitos fizeram nas redes sociais, em solidariedade ao repórter que a fez direto ao presidente tendo como resposta uma ameaça de “porrada”, foi respondida por um dos seguidores de Bolsonaro com outra pergunta: por que muitos artistas que receberam milhões em verbas para incentivo à cultura nunca pagaram?

Nunca imaginei uma linha de raciocínio que ligasse os R$ 89 mil do Queiroz a leis de incentivo à cultura. Também não consigo imaginar um mundo em que todos os artistas vivam de leis de incentivo. Na verdade, eu nunca imaginei que a guerra da intolerância nas redes sociais fosse chegar a tanto. O fato é que o “e você, que recebe dinheiro de lei de incentivo?” é a adaptação do “e o PT?” para o nicho artístico. Como se um questionamento pudesse ser respondido com algo que maculasse a reputação de todos os artistas.

Rebater um fato concreto – o Ministério Público do Rio de Janeiro vem investigando o esquema das rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e tem provas de que Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, depositou R$ 89 mil na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro – com uma pergunta retórica que pode aparentemente colocar o interlocutor em xeque é uma das técnicas das guerrilhas do ódio da extrema direita nas redes sociais.

Uma das artimanhas utilizadas pela estratégia do mentor Steve Bannon na comunicação digital é criar teorias da conspiração que se ajustem a preconceitos de alguns extratos sociais, criar notícias falsas com base nessas teorias, e infiltrá-las para que atinjam formadores de opinião que possam “espalhar” essas notícias falsas (vejam o documentário Privacidade Hackeada, que ilustra muito bem essa estratégia de manipulação).

E assim surgiram as fake news que dizem que Pabllo Vittar teve show financiado pela Lei Rouanet e que os artistas que se manifestaram pelo #EleNão “vêm há muito tempo mamando na Lei Rouanet” – palavras do próprio presidente Jair Bolsonaro ainda em campanha.

Mas será que essas pessoas sabem para que serve lei de incentivo? Entendem que não é dinheiro dado, mas uma forma de pagamento por trabalho feito, e que deve ser objeto de prestação de contas? E que leis de incentivo são formas de o estado contribuir para o financiamento de áreas prioritárias para o desenvolvimento de um país, como a cultura e a educação? Ou alguém questiona, principalmente neste momento, o papel do estado no financiamento do Sistema Único de Saúde?

Acho que não sabem, e não têm interesse em saber, na verdade. Apesar de essa guerra me deixar perplexa e cansada, acho bom perceber que a resposta da defensora do presidente, no perfil do Armandinho, admite que a pergunta que foi feita é difícil de ser respondida. Muito mais difícil que a pergunta que ela fez.

Na verdade, a pergunta dela é um exemplo do porquê as grandes nações têm leis de incentivo. Para que artistas continuem fazendo perguntas difíceis de responder, nos fazendo rir e chorar com a inventividade que nos tira, por momentos, do surreal que tem sido nosso cotidiano. Viva o Armandinho e viva a arte que questiona.

 

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