OPINIÃO

A balada do baixista asmático

São quase duas da manhã de um resto de sábado meio domingo, em um bar da Zona Sul. Mulheres dançam canções antigas, o garçom espia a luta de MMA na TV, um rapaz tenta papo com a moça de franja adolescente. Enquanto isso, o baixista está sem ar. Ele vai subir ao palco em alguns minutos, mas está completamente sufocado. Não é ansiedade ou insegurança é “só” uma crise asmática.

Os mais desavisados dirão que ele está aproveitando a vida de rock n’ roll. Que está sob efeito de alguma droga. Que é um desajustado. Mas ninguém conhece sua balada silenciosa contra os brônquios inflamados. Ninguém sabe, mas seu peito parece estar sendo pisoteado por um carro de bois.

E mesmo assim sobe ao palco. Senta-se na caixa de som, empunha o baixo precision e recebe olhares apreensivos do restante da banda, mas ele não precisa de compaixão. Fechará os olhos e tocará. Beatles, Queen, Oasis,… Red Hot Chili Peppers. Sim, temos um elemento aleatório na playlist de rock inglês. O que só não é mais aleatório do que esse aperto no peito.

Morrerá no palco. É certo. Irá sucumbir à falta de uma bombinha de ar. Trágico. Vítima da fúria de celulares e aplicativos de mensagens, sua queda será televisionada. Bom, pelo menos será ao som de boa música. Sim, haverá uma última canção. Bohemian Rhapsody. Nunca foi um homem ambicioso. Só queria fazer um cachê, descansar no domingo, mas de repente virou personagem de versos épicos — is this the real life? Is this just fantasy?

Bohemian Rhapsody não tem refrão. O riff de guitarra foi criado por Freddie Mercury… no piano. A parte da ópera demorou três semanas pra ser gravada. Por um momento, o asmático baixista refletiu sobre a genialidade de uma senhora música de mais de quatro décadas.

Nem percebeu quando lhe trouxeram uma bombinha de ar. Só percebeu quando voltou a respirar, quando fez as pazes com os pulmões. E tudo teve mais sentido. Estava num show de rock. Pediu logo uma cerveja. Precisava limpar a garganta. Precisava voltar a ser apenas um desregrado.

A vida de um músico proletário não permite arroubos de grandeza, nem delírios Queenianos. Embora os baixistas asmáticos também sonhem.

Enquanto ele achou que morreria a vida não tardou em acontecer a sua volta. Mulheres ainda dançam canções antigas; os garçons continuam espiando a TV, entre um serviço e outro; casais se formam, se agarram, se largam. Mas eis sua maior certeza: não existirá outra Bohemian Rhapsody. No palco de um bar da Zona Sul, às três da manhã de um resto de sábado meio domingo, teve total consciência. Guardaria segredo.

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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