OPINIÃO

A Besta Fera

Meu pai perdeu os pais pra seca. Explico. Muito pequeno, recém-nascido, com poucos meses de vida teve um surto de catapora na região, que deixou muita gente enferma, inclusive ele. Era por volta de 1929-30 quando uma seca braba, e a rudeza de seu genitor criou um conflito com seu avô, resultando na ida da família pras terras férteis do sul. Com medo do filho morrer na viagem, resolveram deixá-lo com uma tia que não tinha filhos. E por essa razão só veio a conhecer a mãe 55 anos depois, mas isso é outra história. Em resumo sua mãe era sua tia e o criou debaixo de ordem no tempo e no espaço. Quando ela dizia “vá…” ele corria e depois voltava pra ouvir o restante da encomenda. Era uma luta! Se ia não sabia, se sabia esquecia, se esquecia apanhava… E vivia nessa luta de diálogo entre o cérebro e a criação. Tinha que inventar, sempre, qualquer coisa.

Em 1937 ainda se escutava o rugido das onças que perambulavam pelas abas da serra e botava muito menino maluvido pra casa. As notícias do sul trazidas pelas cartas anunciavam a chegada do automóvel nos grandes centros urbanos. Aqui por esses lados não se sabia o que ia além das fronteiras dos pequenos povoados. Quando alguém se referia a um lugar com mais de 100 km de distância ouvia alguém dizer “aquilo é o fim do mundo, já é quase na fronteira com o estrangeiro. Isso é fantasia de Caixeiro-viajante!”.

Com 8 anos já trabalhava na labuta diária da vida camponesa e frequentava uma escolinha pra desasnar, onde conheceu minha mãe e outros colegas de travessuras. Um deles, Chico de Marcimino, seu primo e parceiro, carne e unha de capilossada, foram certo dia, cumprir uma ordem da mãe e tia, à beira do rio buscar uma ração pros animais e ouviram um ronco estranho vindo do pé da serra. Olharam-se com ar de quem viu alma e ficaram nas pontas dos pés pra aguçar a escuta. De repente o barulho aumentou e meu pai gritou:

– Corra Chico, qui é a besta fera!!

O jumento desembestou no rumo da casa e eles tomaram outro rumo se acoitando numa moita de mufumbo na beira do rio. Passado um certo tempo resolveram sair pra procurar o jegue e terminar a tarefa, pois a paga não agradaria nenhum dos dois. Na volta lá vem de novo a fera! Desta feita foi carreirão no rumo da serra esperando serem salvos pela onça. Mas que ironia do destino! Bem, lá ficaram entocados numa loca com medo de serem devorados pela onça e estrategicamente assistirem ao combate entre as duas feras. Os pais aflitos saíram em grupo gritando de alto a baixo, porque o jumento chegou sem nada em casa e os meninos haviam sumido.

Nisso, já quase noite, ouviram um grito abafado vindo da toca do urubu, esconderijo de fuga quando faziam traquinagem, e os encontraram suados, com fome, os olhos esbugalhados e o coração quase saindo pela boca. O avô, que chirimbava os meninos, saiu na frente.

– O que foi que aconteceu com vocês?

O Chico querendo se safar, apontou na direção do companheiro, e adiantou os argumentos de uma futura intriga.

– Foi Zé Leão qui mi butou pá correr i si socar aqui dento!

– Ora Papai Veio! Acabamos di vê a besta-fera, em carne i osso, vindo im procura di nós. Era igualzim aquela da istora qui vovó contou. A diferença é qui tinha 4 roda di carroça di boi, um fucim cumprido quinem porco, mas nos buracos da venta era os oio e já tinha ingulido 4 omi.

– Meninos aquilo era um carro com o prefeito, o delegado e o padre!

– Eu num disse Chico, qui era tudo gente qui já morreu!!

 

 

Artigo anteriorPróximo artigo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *