OPINIÃO

A campanha presidencial que não acabou

Estamos em agosto de 2019. Dez meses passaram da eleição para presidente, entre outros cargos, e estamos no oitavo mês de Governo Bolsonaro.

Um governo caótico, mal avaliado, com rejeição interNacional, forjado em ódio e ímpetos de desmonte do país, com ministros bizarros e que produz crises e horrores quase diariamente.

Contudo, um dos aspectos mais curiosos do Governo, principalmente da pessoa do presidente Jair Bolsonaro, é que ele não desceu do palanque eleitoral, continua em campanha, quase um ano depois da eleição.

Quase todas as falas – sempre infelizes e agressivas – de Bolsonaro parecem ter como objetivo agradar aquele eleitorado núcleo-duro de tendência fascista, os 20% que votavam nele na pré-campanha, antes do naufrágio do PSDB e do antipetismo ganhar ainda mais corpo, impulsionado pela mídia e pela agora suspeita Lava Jato.

Era de se esperar que passada a campanha e começado o governo, o “mito” se não mudasse muito seu jeito tosco-truculento, ao menos, descesse do palanque. Não aconteceu. Ele ainda está fazendo campanha, não fala como presidente, mas, sim como candidato. Mesmo sua frase imbecil desta terça (“A imprensa não entende que eu, o Johnny Bravo, Jair Bolnonaro, ganhou a eleição, porra!”) que fala da vitória, remete è eleição, O cérebro dele (ops) e por extensão dos bolsofilhos não saiu da campanha.

Mas… parte da militância progressista também continua na campanha. E mantém um eterno palanque nas redes sociais.

Claro que os muitos absurdos do (des)Governo Bolsonaro podem e devem ser fartamente criticados e denunciados. Mas, está mais do que na hora da militância voltar suas energia para o presidente e seus ministros e não mais para os eleitores de Bolsonaro.

Isso já foi dito aqui tantas vezes neste espaço que vou pecar pela repetição: Muitos que votaram no “mito” se sentiram enganados, se chocaram com o alcance da incapacidade dele e se arrependeram.

Não cabe mais questionar porque cada um dos 50 e poucos milhões decidiu votar em Bolsonaro naquele domingo, sangrento domingo. Dentre esse vasto eleitorado, temos de fascistas a ex-eleitores de Lula, de misóginos à gente desconfiada com o PT, de apoiadores de tortura a tiazinhas que só queriam um candidato que prometesse mais segurança. Passou a hora de julgar esse pessoal. Eles votaram em Bolsonaro e pronto. Vida que segue.

Cabe aos progressistas também descer do palanque e lembrar que 1) Se for o objetivo tirar Bolsonaro do poder, terá que existir a participação do povo nas ruas, e isso só será possível com a adesão dos arrependidos (como aconteceu com Collor) 2) Vem uma eleição municipal em 2020 e eleger prefeitos de capitais de postura progressista é fundamental para confrontar o “mito” ou, quem sabe, Mourão. Mas, para eleger esses prefeitos, é necessário que se faça campanha real, dialogando, mostrando contradições, sem o dedo na cara inquisitorial e rancoroso que não chama votos, mas os tira.

Enfim, que os bolsonaristas continuem em campanha. Só têm a perder com isso. Mas, se a Esquerda não sair dessa armadilha de manter o palanque montado e a fiscalização do voto alheio, vai paradoxalmente tornar menos complicada a vida do bolsonarismo. Política é uma paixão, eu sei, mas o fazer político, a militância, não pede só rompantes de redes social. Pede cérebro e diálogo também.

 

 

Clique para ajudar a Agência Saiba Mais Clique para ajudar a Agência Saiba Mais
Artigo anteriorPróximo artigo