DEMOCRACIA, Principal

A cara e a cor de quem foi ao #elenão em Natal

As mulheres convocaram por meio das redes e a sociedade atendeu – com diferentes bandeiras e gritos de guerra. Machismo, homofobia e racismo do candidato à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) levaram milhares de pessoas a protestarem em pelo menos 62 cidades de todo o Brasil. Não foi diferente com a família de Joana Medeiros, que unida passou a tarde do sábado (29) no ato #elenão realizado no cruzamento das avenidas Bernardo Vieira e Salgado Filho, em Natal. Pai, mãe, filhos e avó se somaram aos mais de 10 mil que estiveram por lá.

Joana teme pelo futuro dos filhos gêmeos, Iago e Ingrid, hoje com 21 anos de idade, ambos LGBTI+. “Eu estaria aqui de qualquer forma. Mas o fato de os meus filhos serem LBGT são um agravante. Esse candidato representa as pessoas homofóbicas. Se ele ganhasse, esse tipo de pessoa estaria representada no maior poder. É muito triste”, demonstra preocupação, afirmando que Bolsonaro está conseguindo incitar “o que há de pior nas pessoas”.

Conversando com Iago, descobre-se que, na verdade, ele é Bia. Ela está na fase inicial da transição de gênero e é autônoma junto com a mãe, que confecciona peças em biscuit e outros materiais. “Ainda estou menino, mas sou trans”, revela.

Bia vê o candidato do PSL como uma lupa que amplia tudo que lhe ameaça, todo o preconceito que pode lhe causar mal e que estrutura uma sociedade desigual.

“Não só a comunidade LGBT é pressionada, mas todas as minorias sociais, pobres, negros”, alerta, confessando que imagina a dificuldade de alguém transgênero conseguir emprego. “Se eu não for o que eles querem, eu não vou ter nem uma renda adequada”, lamenta a jovem, que disse ter passado por maus momentos na escola, durante o Ensino Médio, com um professor.

Estudante da rede pública, ela denunciou o professor à direção da escola por bullying e nada aconteceu. “Ele mudou a opinião de pessoas a meu respeito. Como formador de opinião, acho que ele devia ter sido punido”, conta, ao lembrar que colegas passaram a adotar comportamento preconceituoso a partir de atitudes do professor, que assim como o candidato mais rejeitado dessa campanha eleitoral, era apoiador da volta da ditadura militar. Ingrid chegou a gravar ofensas ao irmão, mas as provas não foram levadas em consideração.

Filhos LGBT+, pais e avó de luta. Foto: Isabela Santos

“A gente já passou por um momento histórico parecido, o nazismo. Não é exagero comparar. As declarações fascistas dele é que são exageradas. Afinal, Bolsonaro e Hitler dizem que as minorias devem ser extintas”, lembra a garota.

O pai, Paulo Eduardo, diz que a ascensão dessas ideias são um recuo de no mínimo 30 anos na história. “É um retardo de tudo que a gente conquistou em termos de evolução humana”, opina, com medo da volta do “entre sem bater” nas portas dos jornais.

Paulo faz referência a um episódio de censura da República Velha, quando o jornalista Apparício Fernando, que se autodenominava Barão de Itararé, após ser sequestrado e torturado, afixou essa frase à entrada de seu escritório.

“Eu temo por meus filhos, mas também por mulheres e negros”, esclarece.

Eleitores de diversos candidatos a presidente compareceram ao ato em Natal. Foto: Isabela Santos

“Ele representa a anulação da existência de pessoas como eu”

A pedagoga Cleuma Cardoso também teme pelos negros. Inclusive, por ela própria. “Ainda não vi nenhuma proposta real a não ser o estímulo à violência. Ele faz tanto isso que aconteceu contra ele mesmo”, diz, lembrando que a notoriedade dessa candidatura legitima discursos preconceituosos.

De acordo com Cleuma, ele representa uma parcela da população que não pode ou não tem coragem de proferir os preconceitos disseminados pelo candidato. “Eu nem imagino um eventual governo dele”.

A aposentada Maria José também não quer ouvir falar na possibilidade de Bolsonaro presidente – “Deus me livre”.

“Suas ideias não correspondem aos fatos”, Maria José cita Cazuza ao justificar a repulsa pelo político que, na sua opinião, prega intolerância, fascismo e misoginia. “É um beócio, um energúmeno”, dispara.

Diógenes Fagner é professor de Sociologia da rede pública e se soma ao #elenão.

O professor de Sociologia Diógenes Fagner é mais compreensivo e diz entender os que são influenciados pela ideia que está disposto a combater. Ele nasceu negro em uma comunidade carente no interior do estado e garante que a política atual de Segurança resulta em ainda mais violência e repressão.

“Entendo porque muita gente por medo, por estar muito inseguro diante da situação do país, vota no Bolsonaro. Mas o projeto dele representa mais do mesmo. Defender apenas mais punição e mais violência vai fazer com que a violência se reproduza ainda mais”, explica, reafirmando o #elenão com inquestionável justificativa: “ele representa a anulação da existência de pessoas como eu”.

Mulher, nordestina, artista e professora não deve votar no PSL, na opinião de Janine Maribondo. Foto: Isabela Santos

Quem concorda é a professora de Artes Janine Maribondo, que trabalha em uma ONG no Passo da Pátria, uma das regiões mais violentas da capital potiguar.

“Armar a população certamente aumentaria os confrontos entre os próprios civis e também entre civis e a nossa polícia. Lá no Passo, eles entram atirando em quem encontram. Imagina arma na mão de quem não tem preparo”, questiona, ressaltando que o combate a essa candidatura é também por ser mulher, nordestina, artista e professora.

A médica Samantha Vasconcelos diz que já foi visto em vários países que a liberação do armamento aumenta o índice de violência e prevê que ele prejudicaria ainda mais a situação da saúde pública no Brasil. “Dentre os candidatos é o mais despreparado. Não tem nenhuma proposta bem estruturada e ainda foi favorável ao congelamento de investimentos na Saúde e na Educação. Não há nenhum fato favorável para votar nele”, resume.

Samantha foi ao ato porque além de disseminar preconceitos, Bolsonaro é o mais despreparado. Foto: Meysa Medeiros
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Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

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