OPINIÃO

A censura voltou (ou talvez nunca tenha ido embora)

O Grupo Clowns de Shakespeare foi censurado na semana passada logo antes de uma segunda apresentação na Caixa Cultural, em Recife. No fim de semana, cidadãos, artistas e movimentos sociais se organizaram e foram às ruas protestar contra a decisão. E talvez essa seja a principal novidade nessa história. Mesmo vedada (proibida) na Constituição Federal, a censura sempre dá um jeitinho mais ou menos sutil de se manter ativa, tentando calar vozes, não só de artistas, de jornalistas, cidadãos marginalizados e, principalmente, movimentos sociais.

Foi com o AI-5, em 1968, que a censura sentou na cadeira do estado oficialmente pela última vez. Os censores ocupavam assentos nas redações de jornais e revistas, proibiam palavras, frases, músicas e até discos inteiros, cortavam cenas e falas de filmes, fechavam teatros e calavam atores e atrizes. Tudo oficialmente, com documento e tudo o mais, como já havia acontecido muitas e muitas vezes ao longo do século 20 na Republica das Bananas do Brasil que talvez nunca tenhamos deixado de ser.

Da República Velha, eram censurados monarquistas e críticos da sociedade – como o Barão de Itararé. Getúlio Vargas jogou todo o peso do Estado Novo em cima dos críticos Criou veículos oficiais e até interviu na direção do Estadão. Peças de teatro e músicos também eram censurados. Depois da ditadura militar, vem a re-abertura, a constituição, o artigo 5º para garantir a liberdade de expressão e o artigo 220º para proibir qualquer tipo de censura, seja ela política, ideológica ou artística.

Das muitas caras da censura, a faceta econômica nunca tirou férias. Quem tem mais, manda, quem tem só juízo, obedece. Artistas passa(va)m o pires entre os financiadores da Lei Rouanet. Os mais críticos, contestadores, invariavelmente, saíam de mãos abanando e bico fechado. No noticiário, também não têm vez quem contesta a “verdade” das elites. Na cobertura da Reforma da Previdência, restaram calados todos os que contestaram os cálculos do governo para justificar o massacre de direitos promovidos pela proposta em tramitação no senado. Foi assim também em junho de 2013, quando só dava destaque aos oposicionistas do governo petista. Ou o próprio Movimento Sem Terra, que virtualmente nunca é ouvido pela grande imprensa latifundiária brasileira.

Essa faceta econômica garante muito pouco trabalho para assessores de imprensa ou relações públicas de grandes empresas e garante a presença quase sempre positiva no noticiário. Aqui no Estado, por exemplo, quantas reportagens peitaram a Guararapes? Ou o Aeroporto Aluísio Alves? A indústria do turismo? Os gigantes da construção civil?

Algumas vezes, a censura é tão esperta que vai morar dentro da cabeça do artista, do cidadão ou do jornalista. O medo de perder o financiamento, o emprego ou o respeito do público muitas vezes exerce a auto-censura, talvez a mais cruel de todas as facetas dessa criatura pavorosa. É preciso ter muita coragem e renovar diariamente os compromissos com o público e os direitos de cidadania para expulsar esse fantasma das nossas cabeças. É para poucos, ultimamente.

No governo Bolsonaro, a censura anda toda faceira, ora se fantasiando de moralista, ora se fazendo de vítima, ou mesmo vestindo o traje de legalista. No caso do Clowns, a Caixa alegou uma suposta quebra de contrato. Tudo na forma da lei. Mas já usou argumentos moralistas disfarçados de “não gostei” para censurar publicidade, e também já se aproveitou da desinformação e fake news para censurar e desacreditar dados técnicos e científicos.

Ficamos parados por bastante tempo diante das ameaças e das ações de censura. Chegou a hora de levantar a voz e se movimentar para impedir que a censura volte ao seu assento estatal e desabe mais uma vez sobre todos nós. Foi o que fizeram os apoiadores do Clowns de Shakespeare em Recife. É o que vêm fazendo os militantes pela Liberdade de Expressão desde 2016 na campanha Calar Jamais!

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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