OPINIÃO

A charge de Aroeira e a censura ao humor

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O mundo dá voltas, capota, inclusive, mas às vezes parece não sair do lugar. É o que penso ao me deparar, outra vez, com algum episódio de censura ao humor, como ocorreu, recentemente, por ocasião da publicação da charge de Aroeira. Nessa referida charge, uma figura representava o presidente pichando a Cruz Vermelha e dando-lhe, assim, traços da suástica nazista.

Conforme foi amplamente noticiado, “o ministro da Justiça e Segurança Pública, André Luiz Mendonça, anunciou, nesta terça-feira (16), que solicitou à PF (Polícia Federal) e à Procuradoria-Geral da República a abertura de um inquérito para investigar uma charge produzida pelo cartunista Renato Aroeira. Mendonça defende que a charge, publicada no blog do jornalista Ricardo Noblat, infringe a Lei de Segurança Nacional (ver https://bhaz.com.br/2020/06/16/charge-aroeira-bolsonaro-nazismo/#gref).

Faz-nos rir, né, Sr. Ministro… Sabemos muito bem quem infringe e atenta contra a segurança da nação ao incitar fúria e ódio e ao sugerir invasões e coações a hospitais e trabalhadores da saúde… Mas não é sobre isso que vou falar e sim sobre essa já clássica relação entre humor x censura.

O que faz uma atitude humorística? Independentemente de nosso julgamento sobre “ser ou não ser engraçado” (e isso decorre muito do cabedal intelectual de cada leitor), um texto de humor põe em embate dois tipos de discursos, raciocínios, visões de mundo. Uma piada ou um meme necessariamente vão explorar esse choque entre determinados esquemas (o oficial x o marginal etc.) e colocam assim em cena uma polêmica, um debate. É essa incongruência que gera um efeito de surpresa e que faz rir.

O que faz uma atitude nazifascista? Ela tenta negar o debate e silenciar a polêmica. Ela quer tudo uniforme, igual e sem graça. Ela não tolera uma diferença e uma diversidade. Para isso, faz uso de recursos como a religiosidade, o discurso moralizador ou o autoritarismo para negar qualquer colorido diferencial.

Mas, ao contrário do que entusiastas do espírito nazifascista desejavam, a proibição da charge e o processo de seu autor Aroeira geraram o efeito contrário: em um caso emblemático do que Mikhail Bakhtin denominou dialogismo, em tão pouco tempo, a charge de Aroeira foi não só partilhada como também reinventada e continuada, num movimento contagiante de chargistas e desenhistas do país inteiro que, nesse gesto simbólico, deram as mãos contra a censura e a favor da liberdade de expressão.

O artista potiguar Erre foi um dos muitos que aderiram ao movimento da charge continuada com #somostodosaroeira #chargistascontracensura

A charge (do francês “carga”) tem, na sua constituição sócio-histórica de gênero discursivo de humor, a peculiaridade de ilustrar esses embates ideológicos, fazendo uso do exagero e do rebaixamento. Em mídias impressas jornalísticas, por exemplo, costuma ser publicada ao lado das colunas de artigos de opinião, justamente por se pretender como tomada de posição acerca de algum fato. Assim, acontecimentos como a perseguição a Aroeira não são nenhuma novidade: lembremos, por exemplo, quando o ilustrador potiguar Amâncio foi despedido de um jornal local logo depois de publicar uma charge em que a personagem era a governadora da época.

Esse episódio é interessante também para ilustrar a discussão sobre o que é fato e o que é opinião, que por sua vez ainda se desdobra na diferenciação entre fake news e ofensa. A esse respeito, assim se pronunciou o próprio chargista Renato Aroeira, em magistral poder de síntese:

“Nesse caso em que ele me acusa de calúnia, dá vontade de citar Picasso, quando um oficial nazista pergunta para ele, apontando para Guernica: “o sr. fez isso?” E Picasso respondeu: “Não, vocês fizeram”. A mesma coisa agora. Se ele (Bolsonaro) me pergunta se o estou chamando de nazista, respondo: ‘Não, você próprio se chamou de nazista. Eu só desenhei. É a minha defesa”… (ver https://noticias.uol.com.br/colunas/chico-alves/2020/06/16/aroeira-sobre-charge-de-bolsonaro-e-suastica-deram-mais-visibilidade.htm)

Por fim, lembremos que em governos anteriores, incluindo-se os do PT, os chargistas também tomavam posição e, por meio de seu humor, punham em discussão as ações dos mandatários. É isso o que se espera de uma sociedade democrática: o direito ao debate e ao diálogo.

Em tempo: A edição desta semana da revista CartaCapital (24 de junho de 2020, ano XXV, n. 1111) traz a ótima reportagem “Rir para não chorar”, com humoristas e especialistas do humor no cenário brasileiro atual, discutindo o que é fazer humor nos dias de hoje, para o que aborda também o caso de Aroeira. Fica a dica.

E sigamos no riso contra a censura.

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