OPINIÃO

A cidade cala

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Já andei muito por aí. Bati meio Brasil e uns pedacinhos do mundo afora. Gosto de desvendar as cidades para além dos pontos turísticos e mais além das selfies mais concorridas. Antes de embarcar, me jogo na internet, estudo mapas, aprendo histórias, escavo notícias e agendas culturais. A ideia é chegar com informações suficientes para ir além da rota dos turistas empacotados, a meio caminho da intimidade dos nativos. Ao desembarcar, as descobertas continuam. As conversas com os nativos, cartazes, folhetos, placas de sinalização, grafittis. As cidades costumam ser bastante tagarelas.

O problema é quando tem muito barulho por nada ou quase nada.

Natal anda meio assim. Fala demais e não tem muito a dizer aos visitantes, nem mesmo aos seus próprios cidadãos. No domingo à noite, em plena Avenida Bernardo Vieira, os cartazes do shopping center berravam aos quatro ventos os chamados para o consumo – eles fazem isso o ano inteiro, agora, é a vez de chamar os filhos para as compras para o Dia das Mães. Um quarteirão adiante a prefeitura balbucia meias (ou menos ainda) palavras aos poucos condutores que passavam pela via por um de seus telões de led adquiridos para a Copa de 2014, instalados depois das Olimpíadas de 2016 e que, mesmo depois da Copa da Rússia, em 2018, nunca serviram ao propósito original de orientar motoristas. Agora, parte da tela parece quebrada, apagada, calada definitivamente.

No ponto de ônibus, tudo é silêncio e escuridão. Nenhuma informação sobre onde estou, nem mesmo nenhum sinal de para onde posso ir a partir dali. Se me esforçar um pouco, poderei ouvir os ecos de um cartaz antigo e meio rasgado que me conta que posso conseguir empréstimo, mesmo com o nome sujo na praça. Na minha frente, um ônibus aparece gritando de onde vem, sem me contar para onde vai (por sorte eu sou nativo e sei que não vai me levar onde quero ir). Alguns veículos apressados gritam boa noite e seguem viagem sem esperar para me contar seu destino (pro meu azar, sou nativo e posso suspeitar que me levaria exatamente para onde desejava ir).

Nativo e privilegiado que sou, resolvo buscar outras vozes da cidade pelo smartphone. Abro o aplicativo que mostra as linhas de ônibus da cidade, mas ele não anda muito animado naquele domingo à noite e se limita a dizer que não pode me ajudar.

Na página oficial da Prefeitura de Natal, uma babel de links quebrados, sistemas desativados ou inoperantes, informações desatualizadas e uma emissora de rádio que começa automaticamente e sem aviso prévio. Não tem versão para celular, nem muito menos acessibilidade para pessoas com deficiências. Não dá para consultar linhas de ônibus e dá muito trabalho para encontrar o endereço do posto de saúde mais próximo de casa. Tem até um guia para os turistas, tão deselegante que me admira que alguém ainda queira nos visitar depois de encontrar essa página. Nem mesmo os sistemas de tributação, que garantem a entrada de recursos nos cofres públicos municipais funcionam regularmente.

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Não há resposta simples para explicar as razões de, em pleno 2019, encontrarmos um cenário tão deplorável na comunicação da Prefeitura de Natal. Sim, tudo isso é problema de comunicação (e também de planejamento, e de falta de recursos, e de falta de inteligência na gestão, etc, etc, etc). Tradicionalmente, as oligarquias políticas ocupam os cargos de comunicação com jornalistas mais próximos das suas articulações. Já passou muita gente experiente por ali. É por ali também que se definem as campanhas publicitárias e o pagamento das agências (e otras cositas más). Por vezes, as equipes são bastante eficientes em enviar releases à imprensa e até em fazer lacração nas redes sociais. Mas poucas vezes o cidadão é bem informado sobre o que se passa ao seu redor com o dinheiro dos seus impostos.

Nem só de curtidas e compartilhamentos vive a comunicação. É preciso colocá-la em uma posição estratégica na gestão pública e ir além da assessoria de imprensa.

Ou a cidade seguirá calada na correria do dia a dia.

 

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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