OPINIÃO

A cidade sem teatros (II)

Na semana passada, a peça Eles não usam tênis Naique passou por Natal como um furacão. Nas quatro apresentações, espectadores se estapearam por ingressos, distribuídos gratuitamente uma hora antes do espetáculo, mas em número insuficiente para a procura. Somente no domingo, uma fila de espera de 90 pessoas aguardava pelo ingresso de um desistente à porta da Casa da Ribeira. Foi um sucesso.

A disputa me fez lembrar um texto que escrevi em julho do ano passado, em que enumerei algumas das dificuldades pelas quais passam os teatros públicos da cidade. Nele, apontava o panorama de termos um teatro público suportando a demanda que deveria ir para três: o Teatro de Cultura Popular (único aberto), o Teatro Alberto Maranhão (fechado há quatro anos) e o Teatro Sandoval Wanderley (fechado há dez anos).

Os dois primeiros, estaduais, mudaram de gestão há poucos meses, com a eleição de Fátima Bezerra. O último, municipal, estava condenado até dezembro do ano passado, quando o prefeito Álvaro Dias anunciou a pretensão de reformá-lo – Carlos Eduardo, prefeito anterior, havia anunciado uma permuta com a iniciativa privada, que faria um shopping no local, em troca da construção de um teatro em outra região.

Diante da visita do prefeito ao Sandoval Wanderley no último dia 22 de maio, após a qual garantiu, em entrevista à Tribuna do Norte, a recuperação e abertura do teatro à população, as expectativas se voltaram aos dois teatros estaduais. O Teatro de Cultura Popular, nos últimos meses, tem estado com a casa cheia, após o lançamento do Edital Pauta Livre. Mas os motivos que levaram o teatro a ser interditado em 2015 após vistoria da Defesa Civil e da Vigilância Sanitária parecem não ter sido sanados.

Em resposta a questionamento que fiz à Fundação José Augusto, que administra os teatros estaduais, o diretor do Teatro Alberto Maranhão, Ronaldo Costa, informou que a nova gestão da fundação criou uma coordenadoria para os Teatros do Estado do RN, com o objetivo de tentar implementar uma política cultural para o funcionamento destes equipamentos de forma organizada e concatenada. Além disso, deve desenvolver políticas públicas para a linguagem teatral, sendo o principal articulador com a classe.

As ações até agora desenvolvidas pela coordenadoria, segundo relato do titular, são introdutórias: além de medidas de regularização dos teatros públicos de Mossoró e Caicó (que completam os quatro administrados pela fundação), e do lançamento do edital de ocupação do TCP, foi criada uma Câmara Setorial de Teatro, uma Comissão de Fiscalização das obras de restauração do Teatro Alberto Maranhão junto a essa câmara e foram comprados equipamentos de som e ar-condicionado para o TCP Chico Daniel.

Talvez a mais significativa conduta tenha sido, no entanto, a própria criação da coordenadoria, e a nomeação de um iluminador, profissional atuante, para o cargo. As questões estruturais dos equipamentos são a ponta do iceberg de um problema muito mais profundo: sem políticas de formação de plateia e de fomento para a criação, teremos estrutura para receber espetáculos externos, como o concorrido Eles não usam tênis Naique, mas faltarão novos públicos para a cultura potiguar e artistas que possam viver de seu trabalho.

A Prefeitura tem dado demonstrações de que pretende avançar no apoio a eventos culturais, com os grafites no Beco da Lama, a reforma da Praça Gentil Ferreira e o investimento no Carnaval de Natal. Mas o limite para que a coisa descambe para a gentrificação urbana é muito tênue. E, até agora, quase nada foi feito fora do eixo dos grandes eventos (Carnaval-São João-Natal).

Há que se esperar, portanto, a concretização das promessas de campanha da governadora, que delimitou duas diretrizes para a gestão na cultura: apoio às iniciativas de inclusão social, por meio de atividades culturais, e fortalecimento da política cultural e das iniciativas de inclusão social. Fiscalizemos.

 

 

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