OPINIÃO

A cidade sem teatros

As agruras dos trabalhadores das artes cênicas, da música, das artes plásticas, da literatura e do cinema para concretizar suas produções no Rio Grande do Norte são conhecidas. Um Estado que vive de esporádicos editais para a produção artística, lançados sem planejamento e quando sobra dinheiro, além de se refestelar na dinâmica dos grandes eventos (Carnaval-São João-Natal), não garante manutenção e livre criação para artista algum.

Não bastasse o nosso Estado se eximir de dar apoio permanente ao desenvolvimento de projetos a longo prazo, como bolsas, residências e financiamento para exposições, a escassez de equipamentos para mostras, apresentação de espetáculos e exibição de filmes é mais que nunca surpreendente. A capital, Natal, não tem um cinema de rua. No espaço público de exposições que é referência na cidade, o Palácio da Cultura, as paredes descamam e não há design de iluminação para receber as obras.

Mas o fato que mais espanta na vida cultural da cidade é saber que Natal só conta com um teatro público. Caindo aos pedaços. O Teatro de Cultura Popular (TCP), vinculado à Fundação José Augusto e inaugurado em 2005, apesar de ter sido temporariamente interditado em 2015 após vistoria da Defesa Civil e da Vigilância Sanitária, continua firme no propósito de receber artistas locais, com valores de pautas acessíveis e boa vontade de sua diretoria. (O teatro, no entanto, sofreu em maio deste ano outro revés: parte do teto do hall desabou, gerando interdição abrupta, com a interrupção de uma mostra de filmes do Cineclube Natal.)

O TCP aguenta sozinho as demandas de peças, espetáculos e shows musicais que poderiam ir para outros dois teatros públicos atualmente fechados por falta de manutenção. O primeiro é o Teatro Alberto Maranhão, o mais antigo da cidade, com portas lacradas desde junho de 2015, após o Corpo de Bombeiros avaliar que o espaço não poderia mais receber espectadores em função de falhas na segurança, na prevenção contra incêndios, contenção de pânico e problemas na estrutura do prédio. Não era pouca coisa. Somente em março deste ano foi anunciada a ordem de serviço para início da reforma. Alguém já viu algum pedreiro por ali?

O segundo teatro público que Natal tem, mas não tem, está fincado num dos territórios mais democráticos da cidade, o Alecrim. O Teatro Sandoval Wanderley foi fechado em 2009, após anos de abandono, por determinação do Corpo de Bombeiros e do Ministério Público do Estado. Recentemente, a Prefeitura anunciou que o terreno que abrange o teatro foi comprado por um grupo empresarial que já anunciou a construção de um shopping no local. A mudança do teatro para outro endereço é questão que, foi dito à época, dependia de tratativas com o Ministério da Cultura.

Enquanto isso, a cena alternativa tenta remediar a falta de dinheiro para ter espaços de ensaio – e para bancar pautas inacessíveis – abrindo espaços próprios, que denunciam, entretanto, a precariedade com que a cultura é tratada no Estado. Enquanto isso, a casa de espetáculos mais profícua da cidade, privada, está localizada em um shopping center e cobra, como contrapartida pela pauta, valores superiores a R$ 20 mil. Está frequentemente ocupada por espetáculos de música e humor de artistas nacionais.

E enquanto isso, o Teatro Municipal de Parnamirim entra em cena, recebendo festivais, como o Tanz Festival Internacional de Dança, cursos e shows – como o da banda paraibana Cabruêra, no último final de semana – que em outros tempos enchiam as fileiras dos teatros de Natal.

Quando olho para o cenário de equipamentos culturais na cidade, e a forma como estão sendo mantidos e fechados, dou-me conta do quão privatizada é a cultura no Rio Grande do Norte, com cinemas multiplex, shows em estádio de futebol a ingressos salgados e um mega teatro dentro de um centro de compras, que excluem, pelo próprios valores que cobram, tanto os artistas locais quanto a população de baixa renda. Até quando excluiremos essa população do acesso à cultura, limitando-as ao bar da esquina e à televisão?

O acesso à produção cultural local liberta e abre um mundo de possibilidades a quem vive e quer produzir aqui. Esse público consome, atualmente, cultura que a televisão e a internet fornecem, sem experiência sensorial. Sem palco, sem voz, sem figurino ao vivo. Ao observar essas circunstâncias, imagino que em algumas décadas estaremos como em Wall-E, a animação norte americana. No filme, a Terra tornou-se tão inóspita que é inabitável para humanos. Os que sobraram, estão em satélites, idiotizados e gordos, deitados em camas de onde tudo vêem e de tudo comem, sem se mover. Têm entretenimento à vontade, mas não conseguem questionar as ordens que recebem. É o mundo de Wall-E que nos aguarda?

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