OPINIÃO

A conta do Diesel

Vai dar bilhão. Com mais de uma semana de greve de caminhoneiros (ou lockout de transportadoras como querem alguns) e o governo nocauteado, agarrando-se nas cordas pra não cair, os custos da maior crise logística que o país já passou já derrubam um ou dois pontos percentuais do PIB desse trimestre, segundo estimativas mais otimistas.

O que sobra do apurado dessa crise é a perplexidade diante de um governo zumbi, que se mantém como um morto vivo em uma nação fraturada pelas suas próprias fantasias ideológicas, e a conta do Diesel, que parece que vai ser paga por todos os brasileiros. Mesmo assim, é preciso dar a césar o que é de césar e não jogar nas costas dos caminhoneiros todo ônus dessa crise.

Com a maioria de seus quadros formados por trabalhadores autônomos, atuando em condições extremamente precarizadas, assumindo todos os custos das viagens, realizando jornadas exaustivas, passando em média 20 dias por mês longe da família, submetidos a insegurança das estradas e aos riscos da violência generalizada que assola o país, a categoria ao qual o caminhoneiro brasileiro pertence é hoje o símbolo mais forte do chamado “emprecariado”: uma espécie de proletário precarizado que é convencido diariamente pelo lenga lenga ideológico de que é um “empreendedor”.

Sem nenhum tipo de acesso aos direitos trabalhistas, assumindo os riscos do seu negócio, o caminhoneiro é a primeira grande vítima da flutuação de preços produzida pela política de repasse automático da atual gestão da Petrobras.

Entre faixas que pedem a Intervenção militar e gritos de fora Temer, essa categoria conseguiu produzir o caos no país e mostrar o desatino da política de repasse automático de preços implementada por Pedro Parente que fez nos últimos 11 meses com que o valor do Diesel subisse 56% na bomba.

Vendida como a salvação da petroleira brasileira, essa política atende muito bem aos interesses dos sócios minoritários da empresa, os fundos financeiros que controlam a menor parte das ações da Petrobras, mas que mantem o Estado brasileiro, que é o sócio majoritário, refém de seus interesses. E esses interesses passam, é claro, pela venda das refinarias brasileiras, que só podem se apresentar apetitosas a possíveis investidores estrangeiros caso se garanta a transmissão do preço internacional do petróleo para a bomba e se afaste qualquer possibilidade de manutenção da política desastrada de controle implementada no governo Dilma.

Como se só existissem essas duas possibilidades (a política de Parente ou a política de controle adotada no governo Dilma) venderam para população bestializada por doses diárias de Jornal Nacional a ideia de que agora a petroleira brasileira estaria sendo gerida com rigor técnico e expertise profissional e que o impacto das flutuações internacionais do preço do barril de petróleo e do câmbio, transmitido de modo instantâneo para a bomba do posto de gasolina, seria algo natural, um tributo pago ao Deus-mercado por suas bênçãos financeiras, idêntico ao impacto do preço do trigo na composição do pãozinho da padaria.

Usando, como sempre fazem, os EUA como modelo idealizado, as hostes de comentaristas econômicos nos telejornais diários escondem o fato de que a moeda brasileira é fraca e volátil; e que os EUA, com uma capacidade de refino muitíssimo superior a brasileira, conta com mais de 500 milhões de barris de reserva estratégica, que permite ao governo controlar o valor dos combustíveis no caso de flutuações súbitas de preços, movidas por fatores externos ou causas naturais como furacões.

Com a cabeça nas planilhas de Excel, os tecnocratas da economia ortodoxa aqui em Pindorama não entendem que do outro lado de seus modelinhos teóricos existem pessoas de carne e osso que sofrem diariamente as consequências de suas decisões econômicas.

Daí, quando o caldo entorna e a desgraça está feita esses mesmos tecnocratas que relocam bilhões pra cá e pra lá em seus joguinhos matemáticos, procuram sempre novas razões para justificar seus fracassos.

Agora, que as ações da Petrobras acumulam recuo de 29%, com perdas de 100 Bilhões no valor de Mercado e os custos de se manter a flutuação automática do preço de um insumo universal como é a gasolina e o Diesel batem forte no bolso de cada brasileiro, a mesma imprensa que vendeu a ilusão de que o dream team de Meirelles, com ajuda da fadinha da confiança que solta o pó de pirlimpimpim na cabecinha do empresário e faz ele tirar o dinheiro do banco para investir na economia real iria nos salvar da estagnação e do desemprego repete a velha cantilena: “a culpa é do PT”.

Fico imaginando se daqui a cem anos, quando o Brasil for uma terra arrasada por um inevitável apocalipse zumbi, com pessoas comendo carne humana para sobreviver em meio a um cenário distópico do tipo Mad Max, alguém ainda vai continuar a encher a nossa paciência com essa conversa de “a culpa é do PT”.

No final disso tudo, com as perplexidades cotidianas diante de tanta baboseira ideológica no atacado e no varejo, fica a dolorosa lição de que no capitalismo tupiniquim, tudo continua como d´antes no quartel de Abrantes: manda quem pode e obedece quem tem prejuízo.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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