OPINIÃO

A Copa do meu coração

Em 1998, a vida pra mim é só um flash. Ligo a TV de tubo e as imagens brigam entre a tela quadriculada de preto e branco para aparecer. A voz do Galvão denuncia: é Copa do Mundo. E só. Quando mudo de canal já é 2002. Na TV, tomadas aéreas de um aeroporto, nenhum jogo, mas ainda o Galvão. Bem, parece que algo grandioso aconteceu. As memórias caminham mais um pouco. Estamos em 2006. São muitas imagens e em todas elas um careca bonitão parece ser protagonista.

Descubro nomes que até então soavam apenas como trava-língua: Zinedine Zidane, Thiery Henry, Marco Materazzi. O futebol esticou a mão e se apresentou nesses dias para mim. Foram 12 anos de indiferença e passividade futebolística findadas ali. Quatro anos depois seria outra história. Ou até antes. Um tanto de ansiedade já nasce no sorteio dos grupos. Tem uma Copa acontecendo em cada coração de quem gosta de futebol, um torneio que não obedece a lógica vigente, mas sim aos anseios de um torcedor.

Por isso devo confessar: quando troco de canal e a TV de tubo mostra imagens de 2010, lembro de largar a gente reunida na sala e chorar baixinho no quintal de casa. A derrota para a Holanda foi minha primeira frustração em uma Copa do Mundo. Tanto que, entre uma lágrima e outra, lembro de espiar o barulho em busca de um grito de gol. Alternava resignação e esperança. Só mesmo na Copa do meu coração de torcedora a seleção do Dunga tinha chance.

Não chorei nem cinco minutos, mas ainda assim não era algo de que me orgulhasse. Minhas lágrimas não resistiriam aos olhares curiosos e perplexos que diziam “Como assim você tá chorando por causa de futebol?!”. Na TV das minhas memórias, ainda mudo de canal nessa parte. Mas, sim, pai, mãe, irmãos, confesso: naquele dia, eu saí pra chorar. Entendam, é difícil para quem não tem uma Copa acontecendo dentro de si compreender o que se passa nesses dias.

Ainda existe alegria. E ela cresce e se encanta pelos mais diversos motivos. O futebol dos grandes craques parece distante demais de nós. Mas os grandes jogadores também já foram moleques correndo atrás de bola na rua, pintando a calçada para a Copa do Mundo e sonhando um dia estar lá. Poucos conseguem, é bem verdade. Mas é preciso preservar e lutar pela alegria, até mesmo a alegria das crianças crescidas.

Eu também ainda quero entender a Copa do Mundo do meu coração. É preciso dar passos calculados, mas às vezes joga-se tudo para o subjetivo e o inexplicável toma forma, simplesmente porque acredita-se. Chora-se até de alegria, chora-se, acima de tudo, de emoção. Ah, que bom que ela chegou, que bom que ainda há emoção e uma Copa do Mundo dentro de mim.

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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