ENTREVISTA

A cor das relações: Pesquisa mostra marcas da dominação histórica na dimensão afetiva de mulheres negras em Natal

Seis mulheres negras, periféricas e no início da maturidade, com idades entre 50 e 65 anos, abriram suas casas e intimidades para a pesquisadora Amanda Raquel da Silva, que escreveu a dissertação “A cor das relações: corpo, idade e afetividade na experiência de mulheres negras em um bairro de Natal/RN”.

O trabalho, defendido em 2019 no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS-UFRN) sob a orientação da professora Ângela Facundo, recebeu menção honrosa no 2º Prêmio AMAR da Associação Internacional de Estudos de Afetos e Religiões (AMAR).

Os relatos mostram como as mulheres entrevistadas expressam seus afetos, priorizando sempre os filhos, mesmo já sendo adultos, e relações sólidas com parceiros que demonstrem cuidado. As conversas tocam também em temas como violência, abuso, traição, aborto e saúde sexual.

A dissertação destaca que a maioria dos estudos sobre raça no Brasil reconhece os efeitos contemporâneos do sistema colonial sobre a vida de negros em matéria socioeconômica e política. Desta vez, a ideia é mostrar como a população de mulheres negras carregam as marcas da história de dominação na dimensão afetiva.

O mestrado de Amanda, que tem 28 anos, lhe ensinou mais do que teoria social. Ela diz que ficou impressionada com a resiliência daquelas senhoras. Agora a cientista social, doutoranda do PPGAS, pesquisa sobre o uso de preservativos por mulheres na terceira idade, porque lhe chamou atenção os numerosos casos de infecções sexualmente transmissíveis nessa faixa etária.

Confira entrevista:

Agência Saiba Mais: O que mais te motivou a escolher esse tema?

Amanda Raquel: Trabalho na função de agente comunitário de saúde, pela Prefeitura de Natal, e nesse cargo fazemos visitas nas casas do bairro em que a Unidade de Saúde se encontra. Com o tempo fui construindo maior proximidade com as mulheres que geralmente me atendiam, na sua maioria na faixa da terceira idade e negras, já que atuei num bairro considerado periférico e essa é a maioria da população. Buscava dar informações sobre saúde concernentes ao posto de saúde, mas como fui presente as mulheres foram se abrindo mais comigo, me vendo como alguém mais próxima e outros assuntos foram surgindo nas conversas durante as visitas. Daí pensei no tema.

Qual o bairro da pesquisa?

Fica na Zona Norte, mas o nome do bairro precisei trocar para a pesquisa, porque tiveram informações bastante particulares. Coloquei o nome fictício de Comunidade Paraíso. Mudei os nomes das participantes também.

O que você identificou? Eram mães solo? Que tipo de relacionamentos elas tinham?

Foram seis mulheres. Tinha viúvas, divorciadas e outras em relacionamento estável. Em suas trajetórias, tiveram experiências como mãe solo, mas não todas. Algumas tiveram que abandonar filhos por questões não só financeiras, mas das circunstâncias da vida mesmo. Alguns maridos exigiram isso quando casaram com as que já tinham filhos. Mas também tiveram os (maridos) que assumiram.

Atualmente o que é mais significante para todas são a família e os filhos. A dinâmica de cuidados não mudou. A preocupação não foi embora com a idade deles, todos adultos. Ainda os ajudam financeiramente, por exemplo. Mas a vida toda mudou muito com certa independência financeira que veio com a aposentadoria, já que algumas eram totalmente dependentes financeiras dos maridos. Também mudou com a idade a forma de ver a afetividade. Não existe mais aquela busca de ter um companheiro de modo afetivo-sexual como prioridade, mas pessoas que consigam ter cuidados com elas, como auxiliar na casa, se preocupar com a saúde etc.

O que mais se fala sobre a afetividade da mulher negra é relacionado à solidão, por uma série de questões. Você apresenta outra faceta das relações dessas mulheres. Concorda que são mais sozinhas?

Inicialmente eu quis abordar o tema assim, falando dessa solidão… Se for pensar por esse viés de casamento, sim, concordo. Os dados mostram que são as mulheres negras as que menos casam. Mas, a partir do campo eu tento rever essa solidão, já que elas me mostram que outras redes são possíveis.

Exploração: “meninas com 11 anos que já trabalhavam como babás e empregadas domésticas e precisavam ficar nos empregos de forma integral”

Você fala que à população negra foi negada a liberdade da expressão de suas emoções. Pode explicar melhor como percebeu isso nessas seis mulheres ou citar fatos que demonstrem isso?

Historicamente sabemos disso. A questão está ligada principalmente ao período da escravidão. A cobrança em se mostrar forte, resistente, pronta para tudo é algo muito cobrado para as mulheres negras e vi isso na pesquisa, quando a maioria precisou sair de casa cedo, para trabalhar e se manter. Casos de meninas com 11 anos que já trabalhavam como babás e empregadas domésticas e precisavam ficar nos empregos de forma integral, sem ter acesso a participar da dinâmica familiar ou nem tendo mais essa, devido muitos casos de perda dos pais ainda muito novas. Algo comum quando falamos de famílias negras, infelizmente. Várias não puderam estar presentes na convivência com os filhos, porque precisavam trabalhar para suprir suas necessidades, mas se orgulham de sempre terem priorizado eles para que não passassem pelo mesmo que elas.

Aborto: “No caminho mesmo já começou o processo. Quando chegou em casa, o “resto” caiu na privada”.

Alguma delas relatou aborto ou tocou no tema?

Sim, só uma. E foi de modo bem fluido ao falar quantos filhos tinha. Respondeu: “doze mais um aborto, mas esse acho que não conta, né?” Ela já tinha filhos e contou que foi necessário. Disse que tomou um copão de algo que uma amiga sempre tinha em casa e foi embora a pé. No caminho mesmo já começou o processo. Quando chegou em casa, o “resto” caiu na privada. O que achei interessante no campo é que ouvi muitas histórias extremamente pesadas, como essa, e outras de violências, abusos etc. Mas todas falam com ar de bastante resiliência e até sorrindo às vezes. Postura de quem passou por aquilo, mas agora está bem, contando a história e me aconselhando. Elas me deram MUITOS conselhos pra vida. Talvez por me verem como uma jovem que, também negra, estava ali pra ouvi-las.

Dá pra contar algum desses casos de violência ou abuso?

Sim. Teve um caso de um marido extremamente infiel e ciumento. Sua esposa sempre foi muito bonita e possui um cabelo longo desde a infância, porque a família fez promessa pra ela nunca cortar. Um dia ele chegou em casa bêbado e disse que ela mantinha aquele cabelo para chamar atenção e seduzir seus amigos. Com raiva, puxou um facão, puxou o cabelo dela e cortou ali mesmo, numa puxada só. Ela disse que sentiu o frio na espinha, com medo que tivesse sido no seu pescoço. Outra contou que passou por abuso na adolescência, na casa do pai de sua melhor amiga, que ela considerava um pai pra ela de tão próximos. Ela, até hoje, tem um certo nojo dos órgãos sexuais dela própria e dos homens. E nojo também de algumas “formas” de sexo.

Dá pra eleger qual história te impressionou mais, foi mais marcante?

Tiveram vários casos de doenças sexualmente transmissíveis com essas mulheres, mesmo casadas há anos, o que obviamente significa que passaram por diversos casos de infidelidade dos companheiros. Em uma parte da dissertação eu dou mais foco a isso, justamente por ter aparecido tanto. Em uma dessas, após quase 30 anos de casada, a mulher não aguenta mais a recorrência das doenças. Até então ela só tinha tido o seu marido como parceiro sexual. Foi quando o confrontou, mostrando a situação em que estava. Ele tentou colocar a culpa nela, dizendo que ela sentava nos banheiros e que viajava para o interior e o traía.

Felizmente, ela rebateu que não ia mais passar por aquilo e que com ele nunca mais se deitaria. Apesar de ser dependente financeira, fala que podia virar empregada dele, mas na mesma cama não dormiria nunca mais.

Achei essa marcante pelo tempo de relacionamento e como ela o considerava tudo na sua vida, mas consegue mudar sua postura por causa de algo importante, que é a saúde sexual. Apesar do emocional já abalado há muitos anos, quando se fala sobre saúde sexual o peso aumenta pra elas. Após esse episódio em pouco tempo ela descobriu que ele a estava traindo com uma vizinha. Ela tinha avisado que ele podia continuar a vida dele, mas que ela não soubesse. Só que ele foi logo pra esquina de casa, daí o divórcio veio menos de um ano depois.

Relacionamento: “afetividade não se resume a relacionamentos afetivos, mas são os cuidados, o zelo, a atenção que podemos dar e receber”

Qual foi a maior lição que você aprendeu com elas?

Acho que essa resiliência… E que afetividade não se resume a relacionamentos afetivos, mas são os cuidados, o zelo, a atenção que podemos dar e receber. Achei que ia ouvir histórias fofinhas e felizes, mas a realidade não é formada assim, né? Todas passaram por coisas boas e ruins e continuam. Mas relatar sorrindo me surpreendeu mesmo. A forma como encaram a vida nessa fase, em que o ato de uma filha lavar uma louça quando visitam ou até mesmo uma visita como a minha são gestos significativos de afeto. Isso me ensinou pra caramba.

Agora no doutorado, continuou nessa temática?

A partir do tema que falei sobre as DST’s, estou pesquisando sobre o uso de preservativos por mulheres na terceira idade. Eu me surpreendi com o aumento dos índices de IST’s nessa faixa etária e busquei abordar o tema, mas agora não estou mais centrada na questão racial. Só gênero e etária.

 

 

 

 

Artigo anteriorPróximo artigo
Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *