CIDADANIA

A coragem, o amor próprio e a visibilidade de Thaís Godeiro

A funcionária pública Thaís Godeiro, 25, iniciou a transição de gênero em 2008, quando o tema da transexualidade era um tabu ainda mais forte do que hoje, 11 anos depois. Natural de Patu (RN), distante 320 quilômetros de Natal, veio morar na capital sabendo que era diferente, mas ainda sem a percepção de como se enquadrava nessa diferença. Esse reconhecimento, segundo ela, veio aos poucos, com o tempo:

– Você começa a se descobrir diferente de tudo que é comum a sua convivência e muitas vezes você não tem com quem conversar. No tempo que comecei minha transição, 11 anos atrás, o tema de transexualidade era pouco abordado, eu vim de uma cidade pequena do interior do RN, nem sabia o que era isso, eu sabia que era diferente, mas não sabia em que me enquadrava nessa diferença. Só vim saber algum tempo depois, quando vim morar em Natal e passei a ter contato com uma sociedade mais “evoluída””, relata.

Para Thaís, o Dia da Visibilidade Trans, celebrado em 29 de janeiro, é uma data como outra qualquer. Mais importante, segundo ela, seriam as políticas públicas voltadas para um dos segmentos mais violentados pela sociedade:

– Honestamente eu vejo como uma data apenas simbólica e que em nada acrescenta. Acho que mais importante e mais válido que ter uma data simbólica seria termos políticas públicas que garantam dignidade para nossa população que desde sempre é desassistida”, diz.

Thaís Godeiro é servidora do Governo do RN desde o início de 2018 e trabalha na Ouvidoria da Controladoria geral do Estado, no prédio ao lado da governadoria. Pela função, atua em contato direto com a população do Rio Grande do Norte. Ela sabe que é uma exceção no funcionalismo. E conta que, apesar de certa rejeição de alguns colegas no início, foi abraçada desde que chegou ao setor:

– Eu tive muita sorte por ter vindo para a Control, desde o começo sempre fui acolhida e bem tratada por quase todos do órgão. Há sempre algumas pessoas que tem uma certa rejeição, mas isso vem mudando com a convivência e com o dia a dia. Trabalho dentro da Ouvidoria, então é um serviço no qual eu lido quase que diretamente com a população. Gosto muito do meu trabalho, é uma forma de ajudar a população e de ajudar também o Governo a melhorar.

Ao contrário de experiências já relatadas em outros locais de trabalho no país, Thaís destaca que foi respeitada desde que chegou a Control. Os colegas sempre a chamaram pelo nome social que escolheu, mesmo antes do registro oficializado:

– Meus colegas de trabalho são verdadeiros irmãos, me tratam muito bem. Trabalhar fora sempre foi motivo de muito receio pra mim, porque a gente nunca sabe como será a acolhida das pessoas, mas tive sorte, graças a Deus.

O emprego é uma das áreas mais delicadas para pessoas trans no Brasil. Dados da Associação Nacional de Travestis e Transexuais divulgados em 2018 afirmam que 90% das pessoas trans utilizam a prostituição como uma das formas de sobrevivência.

Embora hoje esteja empregada, Thaís lembra que já perdeu oportunidades de trabalho por se revelar transexual:

– Lembro alguns anos atrás o quão difícil era (conseguir emprego). Muitas vezes tinha todos os pré-requisitos para assumir a vaga, até passava na entrevista, mas quando relatava que era transexual sempre davam uma desculpa esfarrapada para maquiar o fato de não poder me dar um emprego apenas por eu ser uma mulher trans. O mercado de trabalho não é acolhedor com as pessoas trans, atualmente cerca de 90% da população está na prostituição, claro que dentro desse percentual existem pessoas que estão satisfeitas em desempenhar tal atividade, mas a grande maioria está nessa por não ter outra opção, devido ao mercado não ter abertura para nós.

Apesar da estimada alta subnotificação, o Brasil é tido como um dos países que mais matam LGBTs no mundo. Há comparativos que apontam a morte de uma pessoa LGBT a cada 19 horas no país. Indagada sobre os direitos mais negados às transexuais e travestis, Thaís não tem dúvidas em apontar o principal deles: a vida.

– O principal deles é a vida. Muitos de nós, em especial mulheres trans e travestis, são mortas apenas por ser quem são. Na Educação, a maioria das escolas não tem preparo algum para lidar com pessoas transexuais, somos deslegitimadas quase que o tempo inteiro, não temos nosso nome respeitado, muitas de nós sofre agressão física e psicológica e isso acaba causando um desgaste. E a pessoa, se não tiver muita força, acaba sendo obrigada a evadir-se do ambiente escolar. A questão da saúde também vejo como um direito que é negado, temos necessidade de políticas voltadas para nossa população. A gente toma hormônio, temos necessidade de acompanhamento com determinados profissionais e isso nos é negado.

Lei anti-homofobia existe há 11 anos e nunca foi regulamentada no RN

A ausência de políticas públicas voltadas para a população trans revela, sobretudo, o boicote e a falta de vontade dos gestores no caso, por exemplo, do Rio Grande do Norte.

Desde 2007, a lei que criminaliza a LGBTFobia, de autoria do deputado estadual Fernando Mineiro (PT), foi aprovada pela Assembleia Legislativa, mas nunca foi regulamentada pelos governadores que se sucederam no comando do Estado. Casos assim, avalia Thaís, são um misto de omissão e conivência:

“O nosso Estado, assim como a maioria dos Estados brasileiros, é omisso e conivente com as violências que são praticadas contra nós. Somos minoria, e quem tem interesse em garantir direitos e respeito à minorias? Quase ninguém”, afirma.

Imprensa cretina

Outro ator dessa violência política contra transexuais e travestis é a imprensa. Embora Thaís enxergue uma mudança no modo de agir, falta respeito ao ser humano e à identidade, desabafa a servidora:

– A imprensa é muitas vezes cretina ao tratar de notícias sobre pessoas transexuais e travestis. Na maioria dos casos não nos respeitam, não respeitam nossa identidade de gênero, não respeitam nossos nomes. Esse tipo de acontecimento muitas vezes é uma espécie de contra maré no tocante à “desconstrução” de alguns estigmas criados pela sociedade que nos acompanham desde sempre. A mídia, a imprensa tem o papel de auxiliar as pessoas na construção de opinião e até de como devem agir, a partir do momento que a sociedade nos vê sendo desrespeitada em um veículo de comunicação as pessoas se sentem legitimadas a também não nos respeitar. Mas felizmente essa é uma realidade que vem mudando ultimamente e lentamente vemos alguns veículos tendo mais cuidado ao tratar de noticias relacionadas a pessoas transexuais e travestis, isso é bom.

Assim como milhares de travestis e transexuais brasileiros, Thaís Godeiro vive há um mês sob a sombra de um governo cujo presidente é um homofóbico autodeclarado. No entanto, mais até do que Jair Bolsonaro, os eleitores dele é que mais a assustam:

– Não (assusta) Bolsonaro em si, mas as pessoas que o elegeram. Foram muitas, e me deixa triste e apreensiva saber que uma pessoa próxima pode ter votado em um facínora desses, porque a pessoa que votou em um candidato despreparado como ele, só votou por comungar do mesmo discurso de ódio dele. Como todos sabemos ele não tinha nenhuma proposta decente, apenas o seu discurso de ódio.

Ser ou se reconhecer como transexual requer coragem. A fórmula para enfrentar os desafios passa também pelo amor próprio, avalia Thaís. Especialmente quando a morte é o principal desejo de quem não tolera a diferença:

– A palavra que melhor define uma pessoa trans é coragem. É preciso ser uma pessoa muito corajosa para enfrentar tudo o que enfrentamos, a vida não é fácil para ninguém, todos temos dificuldades, mas a vida de uma pessoa trans é sempre mais difícil do que a vida de uma pessoa Cisgenero. Em todos os aspectos as dificuldades são dobradas. Desafios a gente tem sempre, e é preciso muita força, coragem e amor próprio pra ser quem é, quando a maior parte das pessoas diz que gente como eu tem que morrer, que não deve existir. A sociedade nos nega educação, emprego, humanidade e amor.

Artigo anteriorPróximo artigo
Rafael Duarte
Jornalista e autor da biografia "O homem da Feiticeira: A história de Carlos Alexandre"

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *