OPINIÃO

A crescente presença das motocicletas no rural Nordestino

A imagem do vaqueiro montado em seu cavalo rebanhando o gado no meio da caatinga sempre foi representativa da paisagem do rural do Nordeste. O uso dos jumentos como meio de trabalho e transporte também era uma prática comum no sertão. No entanto, a partir do final do século XX, com a popularização das motocicletas, tem-se assistido um crescente processo de “motorização” do campo nordestino. É o que mostra os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), que passou a coletar informações sobre o assunto desde 2008.

Segundo a referida pesquisa, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as motos estão cada vez mais presentes no rural do Nordeste. E, o que mais chama atenção, é que o nível de acesso a esse tipo de veículo tem ganhado um impulso inédito recentemente. Em 2008, por exemplo, existiam 678.028 domicílios no meio rural da região com pelo menos uma moto. Sete anos depois, em 2015, o número havia saltado para 1.632.897, representando um crescimento significativo de 140,8%.

Entre os estados nordestinos, no mesmo período, os três que apresentaram as maiores taxas de crescimento de domicílios rurais com motocicletas foram: o Maranhão (286,9%), Sergipe (242,4%) e o Ceará (209,8%). O Rio Grande do Norte, onde o número de residências rurais com motos passou de 31.540, em 2008, para 86.185, em 2015, ficou em quarto lugar no ranking, com uma taxa de crescimento de 173,3%. Já os demais estados ficaram abaixo da média regional, ainda assim registrando taxas de expansão superiores a 80%.

Outra forma de visualizar a dimensão do fenômeno destacado é fazendo a comparação entre o número de domicílios rurais com motocicletas em relação ao total de domicílios rurais da região. Por meio dessa conta simples, constata-se que de cada 100 residências rurais do Nordeste 36 tinham ao menos uma moto em 2015. Entre os estados, merece destaque o caso do Piauí, onde mais da metade dos domicílios rurais possuía motos nesse mesmo ano. Quanto ao Ceará e ao Maranhão, a relação era de 41 a cada 100 domicílios. No Rio Grande do Norte, por sua vez, 38% das residências do campo tinham motos em 2015, representando um percentual bastante expressivo frente aos 13% registrados em 2008.

Há que se considerar, porém, que esse processo de crescente motorização vem registrando uma desaceleração ao longo dos últimos anos. Em 2009, por exemplo, o número de domicílios no Nordeste com posse de motocicleta subiu 23,1% em relação ao ano anterior. Em 2015 essa variação havia caído para apenas 5%. Provavelmente em 2016 e 2017, em virtude da crise econômica, esse percentual de crescimento tenha sido ainda menor. A deterioração do mercado de trabalho e as condições de créditos mais difíceis (oferta menor e juros mais elevados), provavelmente estão na raiz dessa desaceleração do crescimento da motorização.

Ainda assim, percebe-se que o rural do Nordeste se converteu em um mercado importante para o comércio de motocicletas em escala nacional. Mas não é só isso. A “motorização” tem tornado a vida da população rural nordestina mais rápida e mais dinâmica, com muitas implicações positivas. Com as motos, os moradores do campo podem morar no “sítio” ou em um assentamento de reforma agrária e trabalhar em atividades diversas no perímetro urbano das cidades próximas as suas comunidades de origem. Além disso, o acesso aos centros comerciais e aos serviços de saúde e educação fica mais facilitado, entre outras coisas. Essa melhoria na capacidade de mobilidade das pessoas pode, inclusive, ser uma das explicações para a redução do ritmo do êxodo rural na região, carecendo de uma análise mais aprofundada a respeito.

É bom lembrar, contudo, que também existe um lado negativo nessa história. Isso porque, paralelamente à expansão da quantidade de motocicletas, registra-se um crescimento preocupante do número de acidentes com vítimas fatais nas áreas rurais nordestinas. Uma parte desses acidentes, conforme noticiado pela imprensa, tem sido causada por colisões das motos em alta velocidade com aqueles mesmos jumentos que perderam a sua utilidade como meio de transporte e foram abandonados à própria sorte nas estradas da região. Uma triste ironia desse novo sertão moderno!

 

Joacir Rufino de Aquino é Economista, professor e pesquisador da UERN

José Aldemir Freire é Economista e Analista Socioeconômico do IBGE/RN

 

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Aldemir Freire
Aldemir Freire é economista