OPINIÃO

A crônica do feijão

Eu nunca cozinhei feijão até os 23 anos. Melhor. Eu nunca precisei. A gente se acostuma com a disposição materna (ou paterna!) e esquece que a comida não surge ali no prato. E mais, você descobre que a vida não é como nas novelas e pessoas pobres não podem comer fora todos os dias. Então, decidimos e precisamos cozinhar.

Foi assim comigo. Fui subindo degraus. Primeiro um ovo frito, depois um macarrão, o arroz, um franguinho. Durante um tempo, meus dotes culinários estacionaram no feijão. Não é que eu tentei e deu errado. É que eu nem tentei. Sempre soube que era muito difícil, portanto, nunca conseguiria. Isso chama-se auto-sabotagem, pessoal. Não façam com vocês.

Mas um dia no mercado me deparo com uma promoção. Sim, de feijão. Era o destino me dizendo: “Vai, enfrenta seus medos”. Enquanto pessoas se preocupavam com coisas como desemprego, amor não correspondido e horóscopo, eu estava intrigada com o famigerado alimento rico em ferro e proteínas e amado pelos brasileiros.

Primeira atitude: digito no Google “Rita Lobo Feijão”. Se a Rita Lobo ensinasse matemática, eu não teria feito humanas. Em cinco minutos aprendi que você não precisa mais do que cinco ingredientes pra fazer um feijão simples e honesto. Problema resolvido então? Não. Demorei um mês pra colocar em prática. Lembram da auto-sabotagem? É dose…

Numa sexta-feira eu estava entregue a tristeza depois de ser rejeitada em mais uma entrevista de emprego. Refleti sobre a vida, o cenário social, político e econômico do Brasil e… decidi fazer feijão. É mais barato que terapia.

E enquanto a panela de pressão trabalha, eu reencontro muito de mim naquele cheiro, vejo meu pai dizendo “Coloca feijão aí, menina”, e eu já sabia que aquilo era carinho em estado bruto. Toda cozinha tem um aroma muito próprio, na casa dos meus pais, a cozinha cheira a fogo de lenha. Por aqui a vida é tão apressada que eu esqueço de sentir os cheiros. Agora meu feijão toma conta da casa, sai pela rua, caminha pelo quarteirão, quer se jogar no mundo.

Cozinhar não é só sobrevivência. Talvez alguém se lembre do gosto desse feijão em um futuro distante. Não só do sabor, mas do cheiro. Gosto de pensar nessa possibilidade. Gosto de me imaginar numa cozinha enorme e brilhante com os mesmos cinco ingredientes e fazer o mesmo feijão.

Um segredo: seus pais sempre estiveram certos: é o feijão que dá força. Pra mim tem funcionado.

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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