OPINIÃO

A cultura e o amaciamento do inimigo

Na segunda metade do século passado, dentre os países ocidentais, os EUA experimentaram uma fase de crescimento econômico e prosperidade nacional histórico. A Guerra Fria criou uma narrativa de cosmopolitismo cultural fundamentado na irmandade da paz entre os povos. Mas o filósofo franco-argelino Albert Camus não acreditava nisso, aliás, para ele o futuro pacífico do imperialismo levaria mais cedo ou mais tarde ao choque entre as diferentes culturas.

Ao longo das décadas seguintes a cultura sempre foi um instrumento potente, mesmo sem guerra declarada. Hans Morghentau, um dos mais importantes pensadores das relações internacionais, classificou as ferramentas de dominação imperialista de um povo sobre o outro em três esferas: econômico, militar e cultural. O imperialismo cultural seria o mais sutil e bem-sucedido, pois objetiva o controle das mentes como instrumento para “amaciar” o inimigo.

Outro internacionalista, Hedley Bull, dizia que o poder da cultura estava atrelado ao próprio futuro da humanidade. A língua, a perspectiva filosófica, a tradição artística e literária, bem como a religião e o código moral de um povo, tudo isso poderia ser utilizado para favorecer e reforçar os interesses comuns que uniam os Estados como se uma obrigação cosmopolita coletiva. Eis que o delírio humanista é curiosamente etnocêntrico.

Por outro lado, enquanto as ex-colônias se esforçavam para criar a sua própria narrativa de autodeterminação política, administrativa, jurídica e cultural, mais organizado o poder de cooptação das antigas metrópoles. Ainda hoje a ligação pelo idioma ainda é muito forte na relação entre países anglo-saxões, francófonos, portugueses…

Na década de 1990, o historiador das relações internacionais Jean-Baptiste Duroselle destacava que o colonialismo fazia parte das relações culturais como parte do idioma, da alfabetização, dos meios de comunicação, das artes, da religião, dentre outros. Todavia, que os fenômenos sociais do campo privado começavam a aparecer nas políticas culturais entre os países, perigosamente inseridas no campo mais complexo. Duroselle alertava para a artificialidade de relações culturais baseadas em grandes desigualdades.

Naquela mesma década, o termo poder brando (soft power) foi criado pelo cientista político norte-americano Joseph S. Nye Jr. O poder brando é a cooptação. Para Nye Jr. a cooptação advém de um processo estratégico e demorado, em comparação ao uso da força. Dada a influência deste amaciamento, um Estado poderia alcançar seus objetivos sem utilizar a força. A política, a cultura e algumas regras internacionais também estão no campo do poder brando.

Fatalmente, o campo cultural é aquela dimensão tão abrangente que as pessoas se sentem perdidas e recalcadas diante de seus domínios tão labirínticos. O cosmopolitismo cultural é um artifício que esbarra em fatores como a diversidade das expressões culturais. O nacionalismo cultural é um artifício que sobrevive quando fundamentado em ideologias profundamente arraigadas.

Por exemplo, o nacionalismo cultural utiliza-se do poder da cultura no amaciamento do inimigo durante as crises políticas, econômicas e das convulsões sociais. Não à toa, é nesses momentos que as forças conservadoras atacam, lançando uma maioria contra um grupo minoritário ou marginalizado. Estes discursos direcionados, além de desmoralizar, ferir e desunir a comunidade atacada, é realizada de modo coordenado para minar a intenção desse grupo/indivíduos na defesa de seus direitos.

Hans Morghentau morreu antes de ver concretizadas as suas palavras, quando disse que o poder militar e o poder econômico cederiam cada vez mais lugar ao poder da cultura no cenário internacional. É desnecessário citar vários autores e teorias que explicam porque agora em 2020 há movimentos conservadores ocupando os meios de comunicação com uma paleta de temas tão impressionante.

Enquanto o uso do poder econômico e do poder militar são ostensivos, o uso do poder da cultura é inefável. Albert Camus já vislumbrava que o poder das diferenças nacionais estava acima dos ideais artificiais cosmopolitas. E hoje sabemos que há campanhas de ódio direcionadas a dois públicos distintos, perpetradores e vítimas, formuladas a partir de recortes culturais específicos.

[1] Doutora em direito, pesquisadora sobre relações culturais internacionais.

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Gilmara Benevides
Gilmara Benevides é doutora em Direito, interessada em história e relações culturais internacionais.

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