OPINIÃO

A disputa por Lula

Não se enganem. A grande responsável pela prisão iminente de Lula não foi a ministra Rosa Weber, que concordou e discordou ao mesmo tempo de si mesma, durante a sessão de mais de 11 horas em que o STF julgou o pedido de habeas corpus preventivo do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. A ministra Carmem Lúcia, que sentou em cima de duas ADCs que poderiam mudar o entendimento do colegiado sobre o tema, foi a grande vitoriosa nessa etapa da batalha jurídica que envolve Lula.

Como muito pouca gente, especialmente no tribunal da Internet, consegue compreender a diferença entre execução provisória da pena e prisão preventiva, é fácil manipular politicamente as opiniões em torno da questão jurídica central que envolve a concessão do Habeas Corpus para Lula. Por isso muita gente boa caiu facilmente na falácia que indica que um apocalipse zumbi de egressos do sistema carcerário ganhariam as ruas devastando a ordem social e comendo carne humana em plena luz do dia caso o HC tivesse sido concedido.

O fato é que, mesmo que os ditos operadores do Direito insistam na tese de que o processo contra o ex-presidente tramita na sua mais completa normalidade processual, a questão política é central e contamina o julgamento.

Na verdade, mesmo quando seu processo chegar ao fim, com o trânsito em julgado da sentença penal condenatória, como manda a Constituição Federal, ainda se passarão muitos anos para que a disputa pela figura de Lula e seu legado tenha um desfecho.

Para uns, Lula sempre será o chefe de uma organização criminosa. O maior corrupto da história do país. O gênio do mal por trás do maior escândalo de corrupção que a humanidade já viu.

Para outros, ele sempre será um mártir do povo brasileiro. O maior presidente da história do país, um líder político perseguido que fez emergir as massas da sua miserável sombra histórica de opressão e subserviência, tirando milhares de seres humanos da condição degradante de pobreza extrema.

O curioso é que tanto quem o idealiza, quanto quem o demoniza, contribui na mesma medida, para transformá-lo em um mito.

Sua narrativa épica pessoal, de retirante nordestino a presidente da maior nação da América do Sul, junto com a lembrança de bem-estar que seu governo deixou na memória de muitos brasileiros, faz com que amor e ódio se misturem de um modo tão violento, que em um contexto polarizado como o nosso, qualquer análise mais fria ou racional de seu papel oferece um alto risco de fuzilamento virtual imediato no paredão da internet.

As bolhas digitais não permitem equilíbrio diante de Lula: ou você baba de ódio por ele ou chora de emoção ao falar de seu legado. De um modo ou de outro, candidato ou não, livre ou na prisão, vivo ou morto, o ex-presidente não deixará de ser um personagem central na cena brasileira.

Na verdade Lula já deixou há muito tempo de ser apenas um ex-presidente e se transformou em um conteúdo psicossocial. Em um país marcado por uma desigualdade que parece intransponível, a imagem de Lula sempre vai estar visceralmente associada à luta pela superação da miséria e, de certa forma, sua condenação por corrupção é em um nível simbólico uma maneira de condenar também sua luta. Por isso a disputa por seu legado continuará cada vez mais feroz, em uma guerra sem trégua de narrativas, onde a verdade sobre sua vida e seus atos será sempre apenas um detalhe.

 

Assista o comentário do filósofo Pablo Capistrano em vídeo exibido pela TV Universitária:

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.