OPINIÃO

A dor e a delícia de ser mãe

Confesso: não sou aquele tipo de mãe que leu todas as instruções traçadas nas diferentes bíblias dedicadas a enlouquecer quem se aventura nessa difícil missão. Tampouco pude desfrutar por muito tempo das dicas da minha, para me ajudar a cumprir essa tarefa, já que em 2008 ela se encantou.

Avessa a manuais (e a regras, no geral), aprendi, aos poucos, a ler minha própria filha e a usar o velho empirismo, com tentativas e erros, para criá-la. Não que me achasse preparada para isso. Desde o início tremia só de pensar que a vida de um ser humano dependia totalmente de mim. Mesmo sob meus cuidados (e uns descuidos necessários), contra todas as expectativas, Marina sobreviveu, até o momento, por mais de 14 anos!

Apesar do orgulho que sinto em vê-la hoje crescida, e até 1,5 centímetros mais alta que eu, experimentando a inquietude da adolescência, aprendendo e dividindo tudo comigo, não posso deixar de dizer que ser mãe também dói. Volta e meia, digo pra ela: “eu te amo tanto, minha florzinha, que chega a doer”. Afinal, o mundo está aí, com suas garras de realidade que ameaçam até mesmo os filhos de mães super protetoras e mais incríveis que eu.

Esse ofício também requer uma capacidade infinita de acumular culpas, o que, no final das contas, é o resultado da dor. O pior é que não falta gente pra lhe apontar mais culpas ainda, não bastassem todas as que já temos. Elas se juntam às demais, num grande reservatório sem fundo, onde existem dores e culpas de todos os tamanhos e motivos. São tantas, que a gente aprende a não dar muita importância, porque, se as alimentarmos, é fatal: elas crescem e viram monstros terríveis, devoradores do nosso sono e do juízo.

Das culpas que me lembro, entre as que considero menores, estão a de não ter dado todas as vacinas, de não estar do lado todas as vezes que um dente caía e de não ter ajudado no dever de casa. Mas a maior culpa que carrego é a de ter passado cinco meses longe dela no ano passado, quando vim morar em Brasília e a deixei com os avós paternos, a quem aproveito para agradecer imensamente, pois sem eles Marina não teria concluído o ano letivo.

Nesses longos meses, minha dor de mãe só aumentou, especialmente quando as garras da realidade lhe machucavam o coração e eu, sem ter como dar o colo, tentava, sem muito sucesso, acalentá-la numa conversa demorada ao telefone. Distante, incapaz de usar a mágica da cura instantânea de um abraço, me sentia impotente, com uma angústia no peito que chegava a faltar o ar, o que depois descobri tratar-se de uma crise de pânico.

Finalmente, no dia 25 de dezembro de 2017, meu presente de Natal foi trazê-la de volta à Brasília, lugar onde ela nasceu em 7 de setembro de 2003 (portanto já independente), para tentar reparar 11 anos da distância física da convivência com o pai, que ainda mora aqui; e, de quebra, para tentar dividir também um pouco da culpa que certamente teremos ao encarar o desafio de criar uma adolescente.

E assim, abrimos as comemorações do primeiro dia das mães nesse novo lar que escolhi pra nossa família imensa, que inclui eu e ela, ela e eu, “quatro pessoas, isso tudinho”, como costumo brincar. Não sei se foi a decisão mais acertada. Não sei, na verdade, de nada. Sei que ela ainda vive, está feliz, e é, para sempre, a minha melhor parte.

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