OPINIÃO

A era da pós-verdade no mundo virtual

O mundo vive uma revolução digital, revolução contínua e rápida, que mudou o modo de vida do mundo, das coisas mais simples às mais complexas. Viramos escravos e dependentes da tecnologia. Se a internet cai, se um aplicativo deixa de funcionar, o mundo parece parar.

Como parte integrante desta revolução digital, surgiram as redes sociais, que se disseminaram no mundo. É difícil encontrar quem não participa de, pelo menos, uma delas.

As redes sociais foram concebidas com o escopo de conectar pessoas que partilham valores, pensamentos e objetivos comuns. Ou seja, a ideia central quando se fala em redes sociais é a aproximação de pessoas, seja porque motivo for.

Porém, a rápida disseminação e popularização mostraram, na prática, que, tal como um remédio, as redes sociais também apresentam efeitos colaterais sérios e perigosos.

Um desses efeitos deriva do fato de que as pessoas, em geral, tendem a acreditar em tudo que vêm na internet, o que torna as redes sociais terreno fértil para ações inescrupulosas, que terminam por prejudicar pessoas de forma intensa e as vezes irreversível. Passaram a ser comuns as fraudes financeiras, o ataque à reputação de pessoas, a incitação a diversas formas de violência e discriminação, apologia ao crime, etc.

No campo dos negócios, por exemplo, as fraudes virtuais causam prejuízos gigantescos. Segundo matéria publicada no jornal Estado de São Paulo, em 2016, 42,4 milhões de brasileiros foram vítimas de crimes virtuais, que causaram um prejuízo de US$ 10,3 bilhões.

Existem vários estudos que buscam perquirir o porquê das pessoas acreditarem em tudo que vêm na internet. Dentro da  psicologia cognitiva  temos o estudo do “pensamento crítico”, cujo desenvolvimento permite fazer o ser humano se tornar  capaz de fazer interpretações desapaixonadas, evitando conclusões falsas, o que faz com que o processo de leitura deixe de ser apenas uma postura mnemônica. O pensamento crítico permite a real compreensão do que se está lendo, com todas suas nuances, o leitor consegue separar o joio do trigo.

Além da ausência do pensamento crítico, as pessoas também tendem a compartilhar notícias que se assemelhem ao que pensam, aos seus valores, mesmo, muitas vezes, tendo a consciência de que aquela informação não é verdadeira.

Nesse contexto, os boatos e inverdades se proliferam em progressão geométrica nas redes sociais, causando transtornos e prejuízos, materiais e morais, a pessoas e instituições.  A inverdade é disseminada de forma rápida. Pessoas mais conhecidas, sobretudo as dos meios político, artístico e cultural, são as vítimas mais frequentes. Cito como exemplos os deputados Jean Willys e Maria do Rosário, que constantemente têm seus nomes envolvidos em notícias falsas. Já ao escritor Luiz Fernando Veríssimo é atribuída a paternidade de uma infinidade de textos, a maioria deles que nada têm a ver com seu estilo de escrever ou com os seus valores filosóficos.

Os boatos espalhados pelas redes sociais também atingem pessoas anônimas. Um dos exemplos mais trágicos das consequências de um boato, foi o caso ocorrido no Guarujá, litoral de São Paulo, no dia 03/05/2014, quando a dona de casa Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, foi linchada  por dezenas de moradores do local, em razão de um boato gerado por uma página em uma rede social, que afirmava que ela sequestrava crianças para utilizá-las em rituais de magia negra.

Um dos aspectos que facilita a disseminação de boatos e a prática de agressões virtuais nas redes sociais decorre do fato de que a interação neste caso é feita à distância. As pessoas se sentem anônimas  e com a sensação de que, na frente de um teclado, podem tudo, pensam possuir imunidade total. Pessoas que, no dia a dia, são pacatas, se transformam nas redes sociais, falando e comentando de uma maneira que jamais o fariam presencialmente, na frente do seu interlocutor. Nas redes sociais, perde-se a inibição, a timidez, as pessoas tornam-se corajosas, audaciosas.

O Whatsapp, aplicativo criado para aproximar pessoas, termina tendo, as vezes, função inversa, ou seja, separa pessoas. Tem sido comum ouvirmos falar ou presenciarmos em nossos grupos,  casos de desentendimentos, até em grupos de família. Briga-se por tudo: política, futebol, religião, sexualidade, etc. O que deveria unir, termina por separar. Estranho, não? Sem contar a falta de bom senso de alguns que desvirtuam os grupos temáticos para falar de tudo, menos do tema para o qual o grupo foi criado. O Whatsapp, como as demais redes sociais, também tem sido um forte meio de difusão de boatos.

Visando estancar a proliferação de inverdades na internet, alguns sites foram criados com o objetivo de conferir a veracidade das informações que são espalhadas por este meio,  destaco aqui o e-farsas e o boatos.org, muitos úteis para tirarmos nossas dúvidas quanto à veracidade  de notícias propagadas na net.

Boatos sempre existiram, é fato, mas com a popularização da internet eles tomaram proporções gigantescas e preocupantes, em razão da rapidez e da universalização como são reproduzidos. Em segundos, a falsa informação é espalhada, acarretando efeitos devastadores.

Este cenário fez nascer uma poderosa indústria criminosa, que, por poder, interesse financeiro ou outra vantagem qualquer, destrói o patrimônio, a honra, a reputação e a vida de pessoas. Um veneno letal, para o qual ainda não há um antídoto eficiente.

Não é sem razão que o termo “pós-verdade” foi eleito pela Universidade de Oxford como a palavra do ano de 2016. O termo se refere  as situações nas quais fatos objetivos e reais têm menos importância do que crenças pessoais.

É o mundo em que vivemos. O que fazer?

Artigo anteriorPróximo artigo
Avatar
Promotor de Justiça

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *