CIDADANIA

Primeira mulher a receber vacina no RN é cearense, enfrentou outras crises sanitárias e atesta: “A esperança que nós temos é a vacina”

“Eu entrava no hospital e pensava: será que eu ainda vou voltar? Meu Jesus, eu não vou mais voltar”, relembra emocionada a técnica em enfermagem Maria das Graças Pereira de Oliveira, que trabalha há 35 anos no Hospital Giselda Trigueiro, unidade de referência no tratamento de doenças infecto-contagiosas e toxicológicas do Rio Grande do Norte. 

Aos 57 anos, Maria entrou para a história como a primeira pessoa do Estado a receber a primeira dose da CoronaVac, vacina produzida pelo Instituto Butantã em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. A cerimônia simbólica ocorreu na última terça-feira (19). 

Enquanto recebia o medicamento, Maria disse ter visto um filme diante de seus olhos. Lembrou da angústia pelos muitos pacientes perdidos e da festa quando os recuperados conseguiam voltar para casa. 

A profissional de saúde já passou pelas crises de Aids, na década de 1980, surto de Hepatite B, cólera, sarampo e coqueluche. Mesmo assim, afirma nunca ter visto uma doença que levasse a óbito tantas pessoas ao mesmo tempo e sobre a qual se tinha tão pouco conhecimento:

Além de morrer muitos pacientes, um atrás do outro, a gente via que os médicos não estavam preparados para lidar com os doentes. Foi muito assustador”.

Mesmo feliz com a chegada da vacina, Maria da Graça ressalta que nada mudou sobre a gravidade da doença e necessidade de manutenção dos cuidados. Ainda é preciso usar máscara sempre, lavar bem as mãos e ficar em casa, explica. Principalmente porque agora há um agravamento na pandemia, tendo em vista que o RN já registra 136.131 mil contaminados, cerca de 3.240 mortos até a noite desta segunda-feira (23). O país já tem mais 8,7 milhões de casos e supera 215 mil mortos.

Ela admite que não estava confiante de que a vacina fosse distribuída tão cedo.

Eu via na televisão mas ainda assim achava que ia demorar muito. Foi uma alegria muito grande quando soube que seria vacinada”, diz a técnica em enfermagem.

A “escolhida”, Graça começou a trabalhar no hospital no setor de limpeza e se habilitou como técnica de enfermagem

Como profissional da saúde, Maria das Graças já passou pelas crises de Aids, Hepatite B, cólera, sarampo e coqueluche / foto: Elisa Elsie

Natural de Aracati, no Ceará, Maria das Graças foi levada para ser criada e trabalhar numa casa de outra família, aos 9 anos de idade. Foram essas pessoas que a trouxeram para Natal, quando Graça tinha 14 anos. Começou a trabalhar no hospital Giselda Trigueiro cuidando da limpeza. Depois disso, conseguiu habilitar-se para atuar como técnica em enfermagem, função que cumpre há quase 36 anos.

A profissional é mãe de uma jovem de 25 anos e mora na Zona Norte da capital potiguar. Graça é divorciada, mas divide casa com o ex-marido enquanto constrói a própria casa na região. No dia da cerimônia de vacinação, quase não foi possível localizá-la, conta, pois estava resolvendo pendências da construção da casa enquanto todos no hospital tentavam contato com ela:

“Recebi uma mensagem dizendo que todo mundo do hospital estava atrás de mim e ninguém conseguia contato. Estava me perguntando o que eu tinha feito, pois nunca havia sido chamada pela diretoria. Até que ouvi “você foi a escolhida entre nós para ser a primeira vacinada no RN”. Fiquei morta de feliz!”, relembra.

O evento de imunização

Maria das Graças foi uma das sete profissionais de saúde a receber a primeira dose da vacina / foto: Elisa Elsie

A cerimônia de início da vacinação no RN ocorreu na Escola de Governo, em Natal. Além de Maria das Graças, outros sete profissionais de saúde também receberam a primeira dose da vacina: Geny Souza De Santana, de 67 anos, médica obstetra do Hospital Maternidade Divino amor, em Parnamirim; Edilma Pereira Da Silva, de 49 anos, técnica de enfermagem no Hospital de Campanha em São Gonçalo do Amarante; Renata de Souza Carneiro Martins da Silva, de 29 anos, técnica de enfermagem no Centro Covid de Extremoz; Antônia Pinheiro da Silva Araújo, de 54 anos, enfermeira em Macaíba; Giorgione Guerra Cabral, de 31 anos, médico do Hospital de Campanha de Natal; Renato de Oliveira, do Samu; e Maria de Lourdes Nascimento De Morais, de 54 anos, enfermeira em Ceará-Mirim.  

A governadora Fátima Bezerra (PT) e prefeitos de cidades da região metropolitana participaram do ato.

Até a terça-feira, o Rio Grande do Norte havia recebido 82.440 doses da vacina. Com esse quantitativo, a expectativa do governo é imunizar 39.259 pessoas, considerando as duas doses para cada pessoa. 

A quantidade de doses ainda é insuficiente para atender a todo o grupo prioritária da fase 1. Por isso, o estado emitiu nota indicando os primeiros profissionais de saúde vacinados contra a Covid-19.

Uma série de “declarações infelizes” versus a única esperança

Na linha de frente do atendimento aos casos de Covid desde o início da pandemia no Brasil, em março de 2019, Maria das Graças avalia como “infelizes” as declarações do Presidente Jair Bolsonaro tanto enquanto defendia o uso da cloroquina como nos questionamentos sobre a qualidade das vacinas produzidas.

“É uma medicação muito perigosa [a cloroquina]. Não sei porquê ele fez esse comentário, mas foi infeliz. Acho que ele diz as coisas sem pensar”.

Tímida, ela lembra que segurou a alegria após ser vacinada, deu pulinhos na frente das câmeras e surpreendeu os colegas. Ela ainda não sabe quando receberá a segunda dose da imunização e continua trabalhando normalmente e tomando todos os cuidados necessários contra a doença.

Sobre a vacina, indica:

“Se chegar a sua vez, corra para vacinar, pois a esperança que nós temos é a vacina”.

 

 

 

 

 

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