OPINIÃO

A espiral do silêncio

Era uma criatura feia e empolgada. Falava sem parar. Citava pensadores clássicos e contemporâneos, gostava de alardear sua erudição. No entanto, quase sempre se colocava como defensor e integrante das classes mais desfavorecidas. Era sorrateiro, sabia chegar nos lugares e, principalmente, nas pessoas.

Não demorou e fizeram-lhe um líder, um conselheiro a quem recorrer. O que ninguém sabia é que ele tinha seus momentos de insegurança. Afinal, embora se julgasse importante e tivesse boas referências, era só uma criatura feia e empolgada, primária, sem nenhuma complexidade.

Por isso tentava ser discreto, mas seu instinto entregava sua essência. Deixava um rastro de gosma por onde passava. No começo, ninguém entendeu muito bem de onde vinha aquele muco. Alguns tratavam logo de varrer a sujeira, escondê-la em cantos de parede ou até mesmo embaixo do tapete.

Mas logo a situação se agravou. Quanto mais a criatura circulava entre os habitantes do país, mais sujeira alastrava. Aquela meleca fedida começou a inundar ruas, alagar casas, causar acidentes. A população, no entanto, permanecia em silêncio. E como ninguém falava, as palavras simplesmente sumiram. Rádios, TVs e jornais fecharam as portas. Agora não falavam porque não podiam, não tinham voz.

Só a tal criatura falava. Era ela que explicava o mundo e dava lições de ética para uma maioria de gente menor que tudo. Menor que o silêncio. De tão pequenos, aos poucos sumiram. A cidade tornou-se um breu inabitável.

Quando percebeu o vazio daquele lugar e o barulho do silêncio, a criatura sentiu no seio de sua primazia intelectual, um fiapo de culpa. Trancou-se num quarto tão fedido que o cheiro parecia esmurrá-lo. Logo percebeu que o fedor vinha de si. Sozinha, teve consciência de sua mediocridade e feiura. Sozinha, morreu sufocada na própria gosma. Então, ouviu-se um grito na cidade. Era uma sexta-feira.

 

 

 

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Ana Clara Dantas
Ana Clara Dantas é jornalista e escreve às sextas-feiras

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