OPINIÃO

A Esquerda continua sem fazer oposição eficiente a Bolsonaro

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A política brasileira tem nuances e particularidades diversas, que impedem qualquer tédio em análises sobre governos e posicionamentos políticos. 2019 consegue ser um ano ainda mais, digamos, instigante neste sentido.

Que qualquer pessoa lúcida e sem paixões maiores sabia que o Governo Bolsonaro dificilmente ia dar certo, é sabido. O que não sabíamos é o grau de despreparo não do presidente, este um abobalhado desde sempre, mas da equipe de pessoas ligadas a ele.

Também não poderíamos jamais prever que o Governo faria sua própria oposição, com ministros patetas, assessores incompetentes, filhos gerando crises e um “anuncia e recua” que já virou chacota.

Mas, também não sabíamos que a oposição propriamente dita, a Esquerda respaldada por 47 milhões de votos no segundo turno da eleição presidencial, se portaria de forma tão pouco prática, quase sonolenta mesmo.

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Comecemos por Fernando Haddad, o ex-ministro da Educação e ex-prefeito de São Paulo, mestre e doutor em Economia e Direito, que conseguiu ir para o segundo turno e mostrou que tinha aptidões de sobra para ser presidente. Teve no primeiro turno, a reboque da comoção com a prisão de Lula, e depois 47 no segundo turno. Números robustos que o credenciam a ser o nome maior da Esquerda neste início de 2019.

Mas, na prática o que aconteceu não foi isso. O que vimos foi Haddad investir em palestras fora do país para denunciar a prisão de Lula e criticar a postura fascista de Bolsonaro, duas coisas que boa parte da comunidade internacional já sabe e que poderiam ser feitas por Dilma Rousseff, como presidenta apeada do poder, por exemplo. Também vimos Haddad investir no Twitter, como maneira de mostrar que a ferramenta não era exclusividade dos Bolsofilhos. Mas, Haddad parece não ter nascido para o Twitter nem para o ritmo rápido das redes. Suas ironias soam estranhas em alguém tão preparado e seus bate-bocas com gente como Carlos Bolsonaro parecem remeter àquela máxima de que “é inútil debater com um imbecil, pois ele te reduz ao nível dele e ganha de você pela experiência”.

O que não vimos foi Haddad propor um pacto nacional com todos os segmentos. Nem vimos ele tentar diálogo com os evangélicos, perfil que votou maciçamente em Bolsonaro e que de certa maneira decidiu a eleição. Também não presenciamos Haddad viajando pelo país para dialogar com partidos (como PDT e PSB, ainda aberto a diálogos) ou com lideranças religiosas em geral, empresariais.

Mas, se Haddad teve votação que lhe capacitaria para ser líder da oposição, não se pode esquecer de sua candidata a vice, Manuela D´Ávila e do candidato do PSOL, Guilherme Boulos. Brilharam na campanha e eu esperava muito deles em 2019. Pode ser rigor meu, mas não os vejo pleiteando espaços de destaque nestes tempos. Boulos mantêm-se na sua bolha, em vez de ampliar seu raio de atuação, e Manu investe na militância corpo a corpo com o lançamento do seu livro “Revolução Laura”, sobre sua filha, tendo estado inclusive em Natal, em evento na UFRN. Apesar de louvável a maneira de fazer política da gaúcha, ela poderia tentar ações mais ambiciosas, principalmente aproveitando o desastre que é a política pública (?) do Governo Bolsonaro para mulheres.

As lideranças maiores do PT, e os puristas que me perdoem, me parecem cada vez mais anacrônicas. Não vejo como uma fala de Gleisi Hoffman ou Lindberg podem conquistar corações e mentes para além da militância petista. É necessário o petismo oferecer nomes novos e oxigenar o fazer político, coisa que o PSOL aos poucos vem fazendo com Marielle, Sâmia Bomfim e tantas outras.

Enfim, temos o internauta esquerdista. Este, da mesma forma que Bolsonaro, precisa urgentemente descer do palanque e perceber que a campanha terminou. Mais vale dialogar com um eleitor arrependido do “mito” do que o gozo interior de dizer “Eu avisei” e tripudiar dele nos grupos de Zap e almoços de família. Vinganças pessoas não geram bons resultados políticos, como já escrevi em mais de um texto neste espaço.

Bem, para finalizar a análise, sei que alguns leitores e leitoras hão se perguntar para si mesmos ou para mim: “Ah, e o Ciro?”. Bem, quando eu tiver certeza que Ciro é de Esquerda eu retorno aqui para analisar a postura dele, ok?

 

 

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1 Comment

  1. Análise interessante. E ótima a sugestão de que o diálogo é melhor do que tripudiar do “eleitor arrependido”. Mas aonde ele está? Dentre os meus conhecidos, ninguém ainda se declarou “arrependido”. No geral, parece que eles mesmos não esperam nada melhor desse governo do que ter “tirado o PT”.

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