OPINIÃO

A Esquerda e a História do RN: uma relação confusa

Eleições no Rio Grande do Norte são sempre um bom exercício para se ver como somos prisioneiros da nossa própria história. As conversões, traições, rompimentos e alianças estranhas, nunca foram novidades por estas paragens. A própria construção da nossa história política e econômica nos revela como e porque as coisas parecem mudar para continuar do mesmo jeito.

Num estado onde as “mudanças” nunca foram feitas de baixo para cima, sequer do meio para cima, querer que as estruturas sejam modificadas por raiva, desejos e delírios revolucionários é mais uma utopia festiva do que a realidade crua e bruta.

Ao não resgatarmos a história do nosso estado, escrita e descrita pelos intelectuais da velha ordem, aceitamos, por gravidade, a contribuição dessas elites na nossa história. Nomes de cidades, distritos, avenidas, ruas, ruelas, escolas, cemitérios, etc., mostram claramente o extenso domínio que as oligarquias, as grandes e as pequenas (sic), mantém sobre o nosso mundinho.

Nossa história republicana, é bom sempre lembrar, é um construto bem “pitoresco” de como nossas pequenas elites se mantiveram no poder. Será que esquecemos que os primeiros governos republicanos do RN eram formados, em boa medida, por monarquistas? Esquecemos o quanto a família Maranhão exerceu o poder de maneira quase imperial no RN, mudando a Constituição para alocar seus familiares em cargos públicos; ocupando todo espaço público, cedendo e concedendo favores a empresários ligados à sua família?

Calma. Não estamos aqui fazendo um “julgamento da história”. Não nos cabe reconstruir o que aconteceu no passado para taxá-lo conforme as premissas aceitas socialmente nos dias de hoje. Trata-se apenas e tão somente de lembrar aos que querem mudanças radicais na política do RN, que quebrar uma estrutura fossilizada exige um trabalho duro e, nas atuais condições, longo e penoso.

Não se pode esquecer que as “mudanças” mais importantes no RN, tiveram como pano de fundo as transformações na sua base econômica, afinal a queda dos Maranhão, “traídos” por aquele que fora sua “cria”, Joaquim Ferreira Chaves, que abriu as portas para os oligarcas do algodão e ascensão do Seridó como centro da riqueza potiguar. O poder do açúcar foi substituído pelo algodão, que dominou a economia do RN em pelo menos sete décadas do século XX.

A rigidez das nossas estruturas econômicas tiveram como consequência a fossilização da esfera política, com pouca ou nenhuma grande mudança na política local. O próprio “terremoto” de 1960, quando Aluízio Alves venceu as eleições para o governo estadual, derrotando o candidato do poderoso chefe seridoense Dinarte Mariz, nada teve de radical, dado que o próprio Aluízio, sempre conservador, nascera do grupo oligárquico do próprio Mariz.

E a eleição de Djalma Maranhão, egresso do Partido Comunista do Brasil (PCB), para prefeito de Natal foi fruto de um acordo entre ele e o próprio Alves o trairia miseravelmente em 1964, aliando-se aos militares. O próprio Djalma Maranhão fora prefeito indicado por Dinarte Mariz em 1956. É verdade que Djalma Maranhão fez um governo que pode sim ser considerado um momento em que Natal viu efetivamente um governo de natureza progressista ter uma proximidade com o povo.

A longa noite dos generais tratou de bloquear qualquer ameaça ao status quo, com a consolidação da “peleja” Maia e Alves, principalmente depois da “neutralização” de Dinarte, feita pela famosa “paz pública” de 1978.

De lá para cá o que mudou efetivamente na política do RN? Mesmo com a chegada do petróleo, nos anos 80, tornando a região mossoroense um polo de crescimento bastante assertivo e a ascensão de Parnamirim como um dos municípios mais dinâmicos do RN, cujo centro dessa ascensão foi um Alves, Agnelo, ele próprio uma raposa esperta da política do RN?

Será que esquecemos de como a Esquerda tem se comportado eleitoralmente desde a redemocratização? Das grandes dificuldades de se organizar, sobreviver e chegar as câmaras de vereadores, Assembleia Legislativa, Câmara de Deputados e Senado Federal?

Se a Esquerda Racional se debruçar um pouco sobre a história do RN, verá que para derrotar e desmontar uma estrutura tão sólida quanto a que temos, exige que o estado se fortaleça por dentro e que permita que a sociedade civil organizada, e progressista, seja um ancoradouro para a implementação de políticas públicas que beneficiem a população de maneira geral.

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