OPINIÃO

 A essencial arte de viver desconectado

Algumas pessoas têm a intrigante capacidade de estar no mundo em completo alheiamento aos acontecimentos ao seu redor. Algumas se orgulham de não ter televisão em casa, outras sequer notam que podem usar o rádio no carro ou no celular. Outras, ainda, parecem não fazer ideia de que podem conseguir notícias e informações na internet e até no próprio telefone celular.

E ainda assim, elas acordam e metem a cara limpa na rua e vivem a vida de forma mais ou menos tranquila. Um ato da mais absoluta coragem, ainda mais nos tempos em que vivemos.

Viver em um mundo complexo exige dos cidadãos habilidades para a a compreensão da vida que acontece à sua volta e dos direitos que detém, como o direito à saúde, à educação, ao trabalho, à educação. O direito à informação ganha cada vez mais relevância à medida que a mídia ocupa camadas cada vez mais densas nas nossas vidas. Ter acesso à informações garante que possamos desempenhar melhor a busca por todos os outros direitos.

E como os direitos são interdependentes, o sistema educacional precisa contribuir para que o cidadão consiga materializar seu direito à informação. Alfabetização, interpretação de textos, conhecimento de mundo, tudo isso garantiria um acesso mais crítico aos meios de comunicação. Também é preciso ter saúde para garantir que a ansiedade, a depressão ou outros transtornos mentais não comprometam nossas capacidades de interpretação.

Só que, quando o sistema de mídias não garante equilíbrio no acesso à informação, de nada adianta saúde e/ou capacidade crítica.

A guerra da Globo contra o governo Bolsonaro – que era muito mais uma guerrilha para reconquistar a verba de publicidade – acabou de forma inusitada quando o The Intercept publicou os vazamentos de conversas entre os membros da Lava Jato e o juiz Sérgio Moro que, junto com Neymar, é um dos queridinhos do Jornal Nacional.

O fato de a Globo não ter aceito o material do The Intercept para fazer reportagens é bem sintomático do novo momento da linha editorial da emissora. A Globo deve logo aparecer nas reportagens da #VazaJato e vê que está mais do que na hora de desqualificar o portal antes que a hora chegue. O momento perfeito para olhar nos olhos do governo federal e pleitear uma fatia ainda maior do bolo publicitário para si própria.

A Record já estava perdida para o governo há muito tempo. Tudo parte do projeto que pretende transformar a República Federativa do Brasil em um evangelistão talibã. E, claro, a promessa cumprida de aumentar o tamanho da fatura de publicidade dedicada às emissoras do grupo na conta do Governo.

Aí, chegamos ao domingo em que os cidadãos de bem, brancos, aposentados e saudosos da ditadura militar saem às ruas para defender Sérgio Moro, Bolsonaro e as reformas destruidoras de direitos. E terminamos o dia sem qualquer informação confiável na constelação midiática brasileira. Não adiantava pesquisar na internet, trocar de canal na TV, ouvir todas as emissoras de rádio. Não havia informação disponível para compreender o que aconteceu nas ruas. Não seremos capazes de, a partir das informações concretas na mídia, entender a quantas anda o apoio da parcela que elegeu Bolsonaro às medidas do governo nos primeiros seis meses.

Nas redes sociais, a guerra de robôs também deturpa qualquer dado da realidade e amplifica artificialmente os discursos da extrema direita.

Nessas horas, talvez o mais sábio seja seguir os desconectados, abrir mão das informações e garantir um pouco de saúde mental para enfrentar o desconhecido.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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