OPINIÃO

A foice contra o martelo

Vou confessar a vocês que jamais esperaria chegar as portas da terceira década do século XXI tendo de escrever uma série de crônicas (ou artigos de opinião, se achar melhor) para tentar lançar luz sobre o que significava viver em um mundo bipolar.

Na verdade, desde que assisti pela TV no Jornal Nacional, lá pelos meus 15 anos, as imagens que mostravam a queda do muro de Berlim, e depois acompanhei em tempo real o colapso do bloco soviético, jamais imaginaria que em minha vida ainda iria voltar a presenciar a paranoia anticomunista que vivenciei na infância, durante a ditadura militar.

Afinal, havia muita gente boa, poetas, músicos, filósofos, jornalistas e cientistas políticos de toda sorte tentando me convencer de que estaríamos entrando em um novo mundo, onde as dicotomias ideológicas que moveram o século XX teriam sido deixadas para trás em nome de uma “nova ordem mundial”. Uma nova arquitetura geopolítica que viria a consolidar a vitória absoluta do liberalismo político anglo-americano, após o seu confronto épico contra as hostes do comunismo marxista-leninista de base soviética.

Vocês não imaginam como é estranho para um sujeito que viveu 25 anos no século XX, perceber, depois dos 45, que usar uma camisa com o símbolo da Foice e do Martelo ainda é motivo de risco em um Brasil que pareceu ter retrocedido “cinquenta anos em cinco”.

Parece que vivemos em meio a um grande anacronismo historiográfico, onde Lênin, Marx e Simon Bolivar são imaginados juntos, tomando um café em Caracas, enquanto maquinam estratégias para subverter a ordem social, destruir a família cristã, convencer as pessoas a trocar de sexo e tomar o poder político no Brasil; tudo isso com o apoio incontestável do Foro de São Paulo, da Rede Globo e do Papa Francisco.

Em certo sentido, nessa encruzilhada de narrativas delirantes, também os símbolos e suas histórias, acabam por ganhar significados completamente inusitados.

O fato é que na verdade, o símbolo mais icônico do comunismo, a foice e o martelo, não tem nada a ver com Marx e foi pensado muito depois da sua morte.

A história é a seguinte… em 1917 foi realizado um concurso entre artistas bolcheviques para se buscar um símbolo que poderia sintetizar pictoricamente a revolução que se descortinava na Rússia. A imagem vencedora foi a da foice e do martelo cruzados com uma espada no centro (que simbolizaria o elemento militar).

Lênin, que na época havia lançado estrategicamente o lema “Paz, pão e terra” resolveu retirar a espada, para evitar conotações beligerantes, e colocou no lugar a estrela vermelha (a mesma da Heineken – aquela cervejaria comuna da Holanda), ideia que ele havia extraído do título de uma novela de ficção científica publicada em 1908 por Alexander Bogdanov.

O curioso é que nos cartazes soviéticos, as imagens da foice e do martelo tinham inusitadas conotações de gênero (coisa que pode deixar espantando os jovens ativistas do século XXI, acostumados a pensar a partir de pautas identitárias importadas dos liberais de esquerda norte americanos e não dos comunistas old school do soviete de Petrogrado).

Como mostra a estátua “O operário e a camponesa”, feita para abrir o pavilhão soviético na grande exposição mundial de Paris em 1937, pela artista plástica Vera Mukhina, assentada hoje em uma área próxima do museu espacial em Moscou, a figura masculina, na maioria das vezes, aparecia segurando o martelo ou mesmo batendo em uma bigorna, enquanto que a figura feminina segurava a foice.

Geralmente a foice sustentada pela figura feminina era um ancinho, usado para cortes mais precisos, e que usualmente era manuseada na lida da terra quando as camponesas se agachavam. Quase sempre, quando era o homem que segurava a foice, ela era de cabo longo, o “gadanho”, usada para ceifar altivamente o trigo.

Só por essa descrição icnográfica a gente pode logo notar que não é só a direita bolsonarista que tem essa compulsão por ícones fálicos, tipo fuzis de assalto e mamadeiras de piroca.

Curioso, não? É bem provável que isso possa soar estranho para você, amigo velho, que jura de pés juntos que o comunismo é um movimento “gayzista-feminaze” que visa destruir o “patriarcado” e transformar a vida nas pacatas famílias cristãs numa eterna noite de Walpurgis de sexo livre e consumo de drogas.

Na verdade a imagem da foice e do martelo cruzando-se sobre a estrela vermelha não escondia suas preferências de gênero, mantendo sempre as relações do masculino com a técnica, a ciência, a modernidade e o progresso industrial e o feminino com o natural, a terra, a vida camponesa e a passividade orgânica da atividade agrícola.

Como nada é ingênuo no campo da ideologia, essa articulação simbólica não tem nada de inocente.

Afinal, o pensamento de Marx é fruto da vida em cidades adensadas, apinhadas de gente. O mouro passou sua vida inteira em um espaço marcado pela presença de máquinas a vapor, estradas de ferro e casas empilhadas umas ao lado das outras em meio a fuligem das fábricas e ao esgoto que corria a céu aberto. O mundo cinza das cidades europeias do alvorecer da revolução industrial foi o ambiente no qual Marx começou a traçar a sua crítica ao capitalismo desde a época do Manifesto Comunista em 1848.

Essa perspectiva radicalmente urbana do capitalismo e da modernidade fez Marx tecer comentários sarcásticos acerca da “idiotice da vida rural” ou mesmo construir comparações pouco elogiosas dos camponeses franceses com sacos de batata.

Talvez tenha sido essa perspectiva radicalmente urbana do pensamento de Marx que tenha feito com que diversos governos comunistas durante o século XX tenham construído políticas agrícolas que não apenas desmantelavam as formas ancestrais de organização do campo, como também acabaram levando a grandes ondas de fome com milhares de mortos (nada que a mecanização da vida rural por parte do mercado também não tenha feito em países periféricos que não passaram por reformas agrarias estruturantes, como o Brasil, por exemplo).

O fato é que muitos dirigentes soviéticos mantiveram essa visão negativa, apresentada pelo Marx jovem, acerca do papel dos camponeses, encontrando em seus modos de vida agrários indícies de um conservadorismo retrógrado que atrapalharia a marcha da história em direção ao progresso.

Diferente do campesinato da Europa germânica, onde o indivíduo herda a própria terra, gerando disputas familiares, o conceito de herança não fazia sentido algum no universo da vida camponesa russa, porque a propriedade da terra era familiar, de modo que se adiava até a terceira geração o hábito de se viver em casas separadas dos pais e avós. Nesse universo camponês, toda a noção de sobrevivência do indivíduo dependia da manutenção da unidade familiar como uma unidade de produção, de modo que quando a propriedade familiar migrou pra propriedade comum, após a coletivização, o domínio dos pais sobre os filhos e do marido sobre a mulher arrefeceu, gerando a necessidade da criação de um código de leis da família (bem avançado para a época, diga-se de passagem) em que a ênfase se dava nos direitos individuais de escolha, na liberdade matrimonial, na garantia do divórcio e na pensão alimentícia para os filhos, acabando com séculos de casamentos arranjados e de negociações familiares envolvendo a troca de mulheres por gado.

Juntando isso a obsessão de Stálin com a industrialização rápida e radical da Rússia, marcada por uma visão positivista de progresso e por um marxismo contaminado pela desconfiança em relação ao mundo rural, é fácil compreender a base ideológica que alimentou a perseguição aos Kulaks (pequenos proprietários rurais) no fim dos anos de 1920.

Como todo símbolo ideológico, a Foice e o Martelo, tem uma função muito mais de ocultar do que revelar algo. O que parecia uma conciliação, uma aliança de gênero e de classe em prol da revolução, também marcava uma contradição em relação as relações entre camponeses e operários, assim como entre homens e mulheres numa Rússia soviética que não emergia despojada do resíduo de mil anos de cristianismo ortodoxo.

Em uma época como a nossa, em que se imaginam comunistas como hippies que distribuem LSD na porta das escolas e que ensinam aos jovens estudantes modalidades pouco ortodoxas de sexo oral, contar a história e as contradições por trás de símbolos como o da foice e o martelo, que até hoje espantosamente ainda aterrorizam senhoras devotas nos grupos de oração das igrejas, é uma aposta esperançosa.

Assim como a direita planetária se esforça em trazer de volta a cena do debate público a palavra “comunismo”, dando a esquerda uma oportunidade única de redimensionar o significado desse termo, a velha aposta da capacidade humana de construir novos significados para signos antigos, pode surpreender o mais desalentado nostálgico do tempo das revoluções.

Quem sabe, diante de um esforço tão descomunal da extrema direita global em ressuscitar o espectro do comunismo, o século XXI não possa redesenhar os signos de suas próprias utopias e talvez, voltar a sonhar que um mundo diferente é possível, afinal, ao contrário do que se costumava a dizer no fim do século passado, a história só acaba, quando termina.

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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