OPINIÃO

A fonte de Cascudinho

Por João Gothardo Dantas Emerenciano*

Há mais de uma década, adquiri no sebo Cata Livros de Jácio Torres, na época localizado à Rua Voluntários da Pátria, o “Livro de Registro dos Dados Biográficos de Brasileiros Ilustres”, de 1913.

Recebi-o como pagamento do comercial veiculado no jornal O Potiguar, que era dirigido por mim, editado pelo jornalista Moura Neto, com a participação de Carlos Frederico de O. Lucas da Câmara, gerente comercial do periódico.

A brochura foi localizada por Carlos Frederico, que o levou para a redação de O Potiguar, afirmando que continha informações sobre o poeta Gotardo Neto e seu avô, professor José Gotardo Emerenciano, meus antepassados.

Ao examinar o manuscrito, fiquei surpreso ao constatar que o trabalho tinha sido realizado pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, atendendo a uma solicitação do escritor Liberato Bittencourt, com introdução do presidente Vicente Simões Pereira de Lemos, datado de 16 de novembro de 1913, reunindo 112 perfis biográficos.

A pesquisa, que apresenta mais de uma caligrafia e diferentes tonalidades de tinta, resgata figuras representativas do período colonial, monárquico e da florescente república, iniciando com o capitão-mor Jerônimo de Albuquerque, considerado o fundador da cidade do Natal.

Nas páginas amareladas pelo tempo estão listados capitães-mores, presidentes da província, políticos de diversas facções, principalmente dos partidos Liberal e Conservador com integrantes dos Cantões da Gameleira e da Botica – Bonifácio Francisco Pinheiro da Câmara, Joaquim Guilherme de Souza Caldas, João Manuel de Carvalho, Francisco Amintas da Costa Barros.

Personagens da Revolução de 1817 – André de Albuquerque Maranhão, Clara de Castro, Feliciano José Dornelas, João Damasceno Xavier Carneiro, Gonçalo Borges de Andrade – e heróis da guerra do Paraguai como João da Fonseca Varela, Francisco de Paula Moreira Fernandes, José Pedro de Oliveira Galvão, Antônio da Rocha Bezerra Cavalcanti, Alexandre Baraúna Mossoró e os irmãos João Perceval Lins Caldas e Ulisses Olegário Lins Caldas são destacados.

Patriarcas de antigas famílias sertanejas, representados pelo capitão Tomás de Araújo Pereira, primeiro presidente nomeado para o Rio Grande do Norte, capitão-mor Cipriano Lopes Galvão, fundador do município de Currais Novos, Manuel Pereira Monteiro, fundador do município de Serra Negra do Norte, José Bernardo de Medeiros, senador do Império, e integrantes da Guarda Nacional, alguns com título nobiliárquico – coronel Manuel Varela do Nascimento, Barão de Ceará-Mirim e o conselheiro imperial Luís Gonzaga de Brito Guerra, Barão de Assu – convivem com personalidades de movimentos libertários como o baiano radicado em Natal Cipriano José Barata de Almeida e o potiguar Almino Alvares Afonso, Grande Tribuno da Abolição da Escravatura.

Ressalta-se no livro o pioneirismo de Dom Joaquim Antônio de Almeida, primeiro bispo do Natal, de Luís Carlos Lins Wanderley e Daniel Pedro Ferro Cardoso, primeiros norte-rio-grandenses a se formar, respectivamente, em medicina e engenharia, e o espírito empreendedor do comerciante Amaro Barreto de Albuquerque Maranhão é enfatizado, bem como a trajetória do padre João Maria Cavalcanti de Brito, considerado o Santo de Natal, do seu irmão Amaro Bezerra Cavalcanti, ministro do Supremo Tribunal Federal, e do bacharel e jornalista Braz Andrade de Melo, redator do jornal A República.

A literatura está representada por nomes como o da escritora Nísia Floresta Brasileira Augusta, do dramaturgo Luís Carlos Lins Wanderley, do crítico literário Antônio Marinho Pessoa, dos historiadores Luís Fernandes Sobrinho e Vicente Simões Pereira de Lemos, e dos poetas Alípio Bandeira, José Moreira Brandão Castelo Branco, Elias Antônio Ferreira Souto, José Leão Ferreira Souto, Miguel Arcanjo Lins de Albuquerque, Adalberto Peregrino da Rocha Fagundes, Joaquim Cândido da Costa Pereira, Joaquim Fagundes, José Teófilo Barbosa, Honório Carrilho da Fonseca e Silva, Cícero Virgílio Teixeira de Moura, José Gotardo Emerenciano Neto e a poetisa Auta de Souza, notando-se a ausência de Lourival Açucena, Manuel Segundo Wanderley e Manoel Virgílio Ferreira Itajubá.

Manuel Liberato Bittencourt (1869-1948) era general do Exército, jornalista, crítico literário, poeta, autor de várias obras, destacando-se Nova História da Literatura Brasileira, Duas Dezenas de Imortais, Flores e Mágoas, Academia Brasileira de Letras, em dois volumes, Ramos do Saber e Critica e Filosofia.

É patrono da cadeira 29 da Academia Catarinense de Letras, tendo sido sócio do Instituto de Geografia e História Militar e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, admitido com a obra Psicologia do Barão do Rio Branco, e sócio honorário do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe e correspondente dos Institutos da Paraíba e de Pernambuco. Foi sócio da Academia Petropolitana de Letras e da Paranaense José de Alencar, tendo sido membro da Federação das Academias e da Sociedade de Filosofia e da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro.

Foi condecorado com a Medalha de Mérito Científico da Academia de Palermo e com a de prata e de ouro de Mérito Militar. O objetivo do ilustre escritor era dar continuidade à obra Brasileiros Ilustres, para a qual vinha pedindo ajuda aos intelectuais e instituições estaduais desde 1912, sendo Homens do Brasil – Sergipe editado em 1913 pela Livraria Gomes Pereira e reeditado em 1917 pela Tipografia Mascote, o primeiro volume da série. Em 1914, foi publicado no Rio de Janeiro Homens do Brasil, vol. II – Paraibanos Ilustres pela mesma editora.

Tudo leva a crer que o estudo pioneiro e sistemático de personalidades do Rio Grande do Norte não foi enviado ao escritor catarinense para satisfação futura de Luís da Câmara Cascudo, que certamente a utilizou para a elaboração de sua admiráveis Actas Diurnas – berçário de O Livro das Velhas Figuras – encontrando-a provavelmente na década de 1930.

Referências

CÂMARA, Adauto da. Diversos & Dispersos. Rio de Janeiro: [s.n.], 1998
CASCUDO, Luís da Câmara. O Livro das Velhas Figuras. Pesquisas e Lembranças na História do Rio Grande do Norte, 1 o V.
Natal: FJA,1974. Edições do IHGRN.
EMERENCIANO, João Gothardo Dantas. Os Cantões. In: O Potiguar, Natal, ano I, n.5, abril / maio 1998
INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DO RIO GRANDE DO NORTE. Livro de Registro dos Dados Biográficos de
Brasileiros Ilustres. Natal, 1913
WANDERLEY, Rômulo. Panorama da Poesia Norte-Rio-Grandense. Rio de Janeiro: Edições do Val, 1965.
/http://www.poetaslivres.com.br/poeta.php?codigo=94
Clientes. Infonet.com.br/…Brasileiros % 20 – % Ilustres % 20 Sergipe.doc
*João Gothardo Dantas Emerenciano é pesquisador e jornalista

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