OPINIÃO

A força potiguar

A força do futebol potiguar. A força que os dirigentes insistem e persistem em não ver, ou fingir, não sei bem. Essa semana, na quinta-feira, na AABB, o jornalista Dionísio Outeda lançou o livro Almanaque da Redonda. Ele juntou uma turma de feras – Fábio Pacheco, Frankie Marcone, Marcos Trindade e Alex de Souza – para contar a história de nosso futebol dos anos 1990 até hoje por intermédio de “xerifes”, craques e goleadores.

Um trabalho impagável. Para mim, pelo menos, pois dele pude comprovar que minha luta, bandeira, barricada, meu principal motivo para resolver militar no jornalismo esportivo, longe de estar ganha, também não perdi totalmente. Em todos essas quase duas décadas de futebol, comprovado pelo livro os melhores jogadores desta história recente, os tops dos topes são potiguares.

Claro, que nunca vou deixar de prestar minha homenagem aos grandes nomes “estrangeiros” que desembarcaram em nosso rincão. Nunca poderíamos deixar de reverenciar craques como Moura, Paulinho Kobayashi, Sérgio Alves, Sérgio China, Leonardo, Roger, Artur Maia (falecido no desastre da Chape), Robgol e muitos outros, mas a turma revelada nas bases de nossos clubes são acima, muito, do que podemos chamar de média.

O maior de todos deste período. Será que alguém contestaria o nome do assuense José Ivanaldo de Souza? Duvido. Todo o Brasil conheceu e reverenciou o talento desse meia de ligação, do estilo que quase não mais existe – Gerson, Rivelino, Dirceu Lopes, Ademir da Guia, Pita. Esse craque, coroando seu talento e minha escolha, foi astro de Corinthians, São Paulo, Flamengo e campeão brasileiro pelo Atlético do Paraná, além de seleção. O nosso número 1.

E o número dois? Foi praticamente, ou quase, banido do futebol por calúnias orquestradas por pessoas do mal que tentaram acabar com a carreira do rapaz. Quem perdeu? O ABC e o futebol do Rio Grande do Norte. Rodriguinho, das Rocas, talvez por isso a discriminação doentia, está na lista de Tite, entre os 35, e é, hoje, um dos melhores jogadores atuando no Brasil neste momento no Corinthians Paulista. Na época, muitas vezes, teve quem chegasse para mim e dissesse que ele “não era tudo que eu dizia e escrevia”. Era mais.

O terceiro da minha lista dos melhores entre os melhores, não tem atravessando bons momentos nos últimos anos. Mas estamos falando de destaque, do que já fez, até porque  muitos já pararam. Esse camarada de Macaíba surgiu com um meteoro, mas continuou brilhando por muito tempo. Esteve para ser convocado por Mano Menezes quando, no Cruzeiro, havia se sagrado artilheiro da Libertadores em 2011. Wallyson, seu nome,  foi destaque em quase todos os clubes grandes que passou – Atlético/PR, Cruzeiro, São Paulo e Botafogo, hoje joga no Vitória/BA.

O quarto desta lista. Sei, sei, vão acontecer controvérsias. Esse cara, assim como Souza, não gosta de badalação. Tem meu apreço e admiração especial. Sandro, ala/meia/volante, um jogador acima da média, natural de Janduís e que, não fossem as diversas lesões sérias que teve durante sua carreira, certamente, teria sido seleção brasileira e muito mais do que foi. O melhor momento do galegão foi no Cruzeiro, em 2003, campeão brasileiro, campeão da Copa do Brasil e do Campeonato Mineiro. A tríplice coroa não para qualquer mortal.

Também foi campeão da Série B, em 2002, no Criciúma; 1998, 99 e 2000 pelo ABC, entre outras conquistas. Sandro sofreria com lesões de joelho e tornozelo, e teve que fazer repetidas cirurgias que encurtaram sua carreira.

Bom, taí meus quatro maiores nomes de duas décadas de futebol aqui em Natal. Como só quero destacar potiguares, posso citar coadjuvantes fantásticos desse mesmo período,  como Joãozinho, Carlos Mota, Biro-Biro, Pantera, Carioca, Tecy, Marcão, Adalberto (que chegou a integrar o Expressinho do São Paulo), Ivan, entre muitos outros. Sempre vamos cometer injustiças quando enumeramos destaques do futebol, por isso fiquem livres para elaborar as suas.

Interessante o futebol. Nos idos de 1960, final da década, posso falar somente a partir daí, antes não vi nada, os destaques eram só os nossos. ABC, América e Alecrim quase sempre formado por atletas da casa, quando muito vindo alguns reforços da vizinha Paraíba, como Burunga, Icário, Debinha e Tonho Zeca e no finalzinho, em 1969, um tal de Vasconcelos, que jogaria no Palmeiras e seleção chilena.

Década de 1970, talvez, a grande virada, ou começo, quando o empresário-treinador Célio de Souza veio para montar o ABC para o Nacional. Trouxe um time e até os reservas. Apenas Edson e Alberi continuaram titulares, era imexíveis. Curioso, os dois pernambucanos, já quase radicados por aqui.

Década de 1980, talvez a mais espetacular de nossa história. A mistura dos craques que foram ficando, outros que chegavam, pois não existia o apelo do mercado estrangeiro e o Nordeste era um oásis. Estádio cheios, quase todos os clubes com talentotosos futebolistas, duelos emocionantes e campeões alternados – ABC, América e Alecrim. E mesmo nestas décadas de “invasão estrangeira”, não se enganem, o futebol potiguar continuou produzinho joias como Djalma Linhares, Sérgio Poti, Nonato, Adalberto, Júnior Xavier, entre outros.

Apesar de todas as provas, cabais, documentais, testemunhais, alfarrabiais, com gols, títulos e histórias belíssimas de vencedores, nossos cartolas não mudam, infelizmente. Para encerrar, essa semana, o América emprestou Mayke Van Van para disputar o sub 20 pelo Bahia, não deve renovar com Anthony, nunca aproveitou Juninho, Jadson ou Marcelinho. E vai depender neste domingo de alguns jogadores que não amarram o cadarço das chuteiras desses garotos que citei.

O ABC, claro, para não ficar atrás, já é história antiga, realizou “negócios da China”, acham eles, com a venda de Matheus e depos Fessin, para o Corinthians Paulista. E olha que o Grêmio já está de olho em Tonhão.

Não deve mesmo valer a pena investir nas nossas bases…

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Edmo Sinedino
Edmo Sinedino é jornalista, ex-jogador de futebol e escreve aos domingos

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