OPINIÃO

A guerra da privacidade

Se tem alguém preocupado com a privacidade digital, esse alguém é Deltan Dallagnol. Ele certamente deve estar bastante arrependido de não ter criado uma senha para melhorar a segurança do seu aplicativo Telegram, ou mesmo de ter bloqueado a tela do seu computador antes de sair da mesa. Quem anda às voltas com o assunto, é o presidente estadunidense Donald Trump. Por lá, a preocupação é outra. Trump está preocupado com a espionagem de cidadãos americanos pelo governo chinês através de equipamentos de telecomunicações importados do oriente.

Segundo ele, a gigante chinesa estaria trabalhando junto com o exército e o governo para incluir camadas ocultas nos equipamentos para permitir a espionagem.

E foi com essa desculpa que Trump incluiu a Hwawei em uma lista de empresas proibidas de fazer comércio com os Estados Unidos – o que inclui empresas com a Apple, o Google e o Facebook.

Assim como Deltan e os procuradores da Lava Jato, Trump não apresentou provas, somente convicção.

A Hwawei – pronuncia correta é uá-uêi – ainda é pouco conhecida pelo público no Brasil. Seus primeiros smartphones só chegaram oficialmente por aqui no mês passado. A gigante chinesa fatura 93 bilhões de dólares por ano e faz sucesso na Europa e na própria China. Desde 2014, a empresa aumentou sua participação no mercado de Smartphones de 6% para 19% e ultrapassou a estanunidense Apple. No ano passado, quando as vendas de smartphones diminuíram pela primeira vez, as vendas da Hwawei cresceram 35%.

Mas não é só por causa do Iphone que Trump briga com a China. A Hwawei é uma das principais fornecedoras de equipamentos de redes de telecomunicações em todo o mundo. As chamadas e os dados que chegam e saem do seu smartphone certamente passam por vários equipamentos da companhia. Tem mais: ela domina a próxima tecnologia de telecomunicações – as internet 5G, que promete revolucionar a forma como nos relacionamos com a internet e garantir um salto no desenvolvimento de robôs, carros autônomos e equipamentos conectados.

Especialistas dizem que, sem a Hwawei, a implantação das novas redes deve sofrer um atraso de 3 anos. Trump resolveu arriscar. Em nome da segurança nacional, pode garantir prejuízos milionários para empresas americanas, caso a China decida bloquear o acesso aos mercados.

A Ásia e a América Latina já decidiram não seguir com Trump. México, Chile e Argentina já garantiram portas abertas para a Hwawei. Até o Brasil, que voltou a ser capacho do Tio Sam, decidiu continuar os negócios com a China – talvez por causa dos 100 bilhões de dólares que eles compram por ano. No sudeste asiático, e seus 600 milhões de habitantes, o sinal continua verde para a China e as redes 5G já estão em implantação em países como Tailândia, Camboja e Filipinas.

Parece que a jogada de Trump para manter o monopólio da espionagem não surtiu muito efeito no lado sul do mundo. Resta saber qual vai ser a posição da Europa na guerra fria repaginada para o século 21.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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