OPINIÃO

A história só acaba quando termina

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É inegável que a direita brasileira teve uma vitória na semana que passou.

Sem precisar botar na rua as forças armadas nem fechar o congresso, como fez outras vezes, a direita tupiniquim conseguiu retirar, ao menos por enquanto, a maior liderança de esquerda do país das ruas.

Em uma articulação muito bem construída, envolvendo a equipe da Lava Jato em Curitiba, o TRF 4 em Porto Alegre e o Supremo Tribunal Federal em Brasília, o juiz Sérgio Moro conseguiu satisfazer o sonho de consumo de muita gente e prendeu o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, mas apesar da euforia de uns e do desamparo de outros o jogo ainda continua sendo jogado e é provável que essa vitória parcial da direita possa se revelar, em breve, uma vitória de Pirro.

No cenário que se descortina a partir de agora (olhando a curtíssimo prazo, como parece ser a única forma de se avaliar o cenário político brazuca nesses tempos de crise infinita) a vitória da direita obriga o mesmo complexo jurídico policial que atuou fortemente para derrubar Dilma Rousseff em 2016 à entregar outra cabeça na bandeja das ilusões sanitárias da classe média afim de se livrar da acusação de parcialidade.

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Por outro lado, a prisão de Lula oferece à esquerda uma bandeira e uma possibilidade real de construção de uma unidade que fazia muito tempo não se via por esses litorais.

No primeiro caso, para entregar essa cabeça, que só pode ser a de Temer ou a de Aécio, a direita necessitaria jogar com mais intensidade o complexo jurídico-policial pra cima do sistema político, acirrando mais ainda a crise sistêmica em que a democracia brasileira caiu a partir de 2013. No segundo caso, com o clamor por um Lula livre ganhando força, e com a cristificação de uma liderança que tem um apoio inegável de uma parcela substancial da população, as possibilidades de um candidato de esquerda ir ao segundo turno ganham corpo, desmantelando o sonho do mercado financeiro e da mídia hegemônica de ter uma eleição decidida entre direita e direita.

O fato é que se, por um lado, o Juiz Sérgio Moro é um especialista em manejar a máquina jurídica, por outro, como agente político, ele é um excelente jogador de Vôlei. Com a rapidez de quem decretou a prisão de um ex presidente da República, apelando para uma ideia de “patologia jurídica” para justificar a não aplicação da lei processual penal, acabou, meio sem querer, levantando a bola para Lula cortar.

E o corte foi fundo porque a imagem de um Lula cristificado, cercado pela multidão inconformada, caminhando em direção ao calvário da prisão, acabou por evocar profundos conteúdos simbólicos no inconsciente de uma nação marcada por um catolicismo primal, que entrega uma cruz para cada ombro de pobre carregar nesse Brasil de desigualdades e injustiças.

Ainda que a prisão do homem que lidera as pesquisas para eleição desse ano tenha provocado em lulofobos e antipetistas de todas as cores e formatos uma sequência insuperável de orgasmos múltiplos, a cena da prisão do ex-presidente e o seu discurso messiânico, evocando a memória da carta testamento de um Vargas, também cristificado pelo seu sacrifício, jogou a Lava Jato contra a parede.

No fim das contas, tanto para quem riu quanto pra quem chorou com as cenas da prisão de Lula, fica a lembrança de que a história, em seu usual andar de bêbado, não caminha em linha reta e mesmo que nossa piscina pareça estar sempre cheia de ratos, o tempo não para. Isso porque, nunca é demais lembrar que, no tempo da política, a história só termina quando acaba.

Assista comentário de Pablo Capistrano em vídeo, exibido na TV Universitária

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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