OPINIÃO

A hora e a vez da privacidade

A boataria segue animada depois das eleições. Um dos boatos desses dias foi de que membros das equipes de transição estariam mapeando as ações de servidores públicos nas redes sociais. Ninguém confirma a informação e, dos objetivos, só podemos imaginar os piores possíveis. A notícia traz de volta um tema há muito esquecido: o direito à privacidade.

Há bem poucas semanas, era comum ouvir orgulhosos usuários de redes como o Facebook (e seus irmãos Instagram e Whatsapp), Twitter e Google garantindo que não tinham nada a esconder. Curtiam e compartilhavam tudo com amigos, familiares e com as grandes empresas de tecnologia que oferecem tantos serviços “gratuitamente”.

De quebra, compartilhavam cada um e todos os seus passos com as agências de segurança norte-americanas que, aproveitando o clamor dos ataques às torres gêmeas em 2001, e aprovaram um pacote de leis que permitem bisbilhotar cada e-mail, mensagem de texto e chamada telefônica para garantir a segurança nacional (dos cidadãos estadunidenses, claro!).

Pode ser mesmo difícil imaginar como essas empresas fazem dinheiro com nossas informações. Afinal, você só postou uma foto do seu almoço ou uma gracinha que seu filho pequeno fez. O que você não percebeu é que, junto com a foto, a empresa também armazenou sua localização no GPS, a hora que você postou e, algumas vezes, mapeou as pessoas que estavam ao seu redor, ou até mesmo de onde você veio antes e para onde você foi depois – é o caso do Uber, que segue monitorando seu GPS por cinco minutos depois que você sai do carro.

Tudo isso, tem enorme valor para o capitalismo. Antes, os publicitários precisavam de semanas para descobrir como se comportavam os consumidores em torno de um tema, ideia ou produto. Agora, alimentamos as redes instantaneamente com valiosas informações que podem ser usadas, não apenas para nos oferecer pequenos anúncios em nossas telas, mas para criar produtos e serviços específicos ou até mesmo para manipular o noticiário e promover candidatos e ideologias de extrema direita, por exemplo.

Se parecia tranquilo entregar de bandeja seus dados ao capital, pode não parecer tão tranquilo entregá-los ao futuro governo brasileiro.

Não seria novidade se, de fato, membros da equipe do presidente eleito Jair Bolsonaro estivessem buscando informações sobre servidores públicos nas redes sociais. Agentes de segurança estadunidenses já usam a técnica há alguns anos. Basta dar um google no seu próprio nome ou abrir seu perfil público no facebook para saber como é fácil saber o que você pensa, por onde e com quem anda, o que veste e até o que come. Todo mundo tem aquele amigo stalker de redes sociais e sabe o quanto eles são perigosos.

Pois os tempos são outros e talvez seja hora de mudar alguns dos seus hábitos.

Não adianta sair correndo para deletar seu perfil. Isso pode reduzir os danos, mas você vai descobrir que não foi só o direito à privacidade que você abriu mão. Nas letras pequenas dos Termos e Condições dos serviços que você aceitou sem ler, provavelmente constavam que suas informações não seria deletadas dos servidores da empresa – você também perdeu o direito ao esquecimento.

Agir sob o signo do medo e ficar calados diante de tantas ameaças aos direitos fundamentais e à própria democracia também não é o caminho. Talvez seja o caso de, finalmente, deixar de lado às redes virtuais das gigantes da tecnologia e passar a integrar iniciativas que privilegiem a solidariedade e a privacidade.

OK, não dá para deletar facebook e whatsapp de uma vez? Que tal deixá-los em segundo ou terceiro plano?

Um dos primeiros passos, e que muita gente já deu, é escolher um aplicativo de mensagens alternativo. Afinal, o Whatsapp – mesmo com a promessa da criptografia de ponta a ponta – tem o código fechado e compartilha dados com o facebook. Com o código fechado, os hackers não conseguem saber se a empresa deixou alguma porta aberta para que o FBI ou a Polícia Federal tenham acesso às nossas conversas.

Até agora, a empresa tem negado veementemente – até à justiça brasileira – que possa acessar as mensagens. Mas a empresa também anunciou recentemente que vai oferecer publicidade dentro do aplicativo o que, de alguma maneira, deve exigir que robôs tenham acesso às nossas mensagens para direcionar os anúncios.

Algumas alternativas já fazem bastante sucesso, como o Telegram ou o Signal. Ambas têm opção de conversas codificadas. No Telegram, é preciso ativar a privacidade em cada conversa. No Signal, a criptografia é padrão e o aplicativo já foi até mesmo recomendado por Edward Snowden, que denunciou os grampos em massa realizados pela CIA.

Medidas como essas tornam mais seguras nossas conversas, mas não garantem que seremos vigiados por empresas ou governos. A própria escolha de celulares ligados ao Google ou à Apple deixa algumas portas abertas aos espiões.

Mas nem só de hackers vive a espionagem. Muitas vezes, nem é preciso hackear a sua conta para roubar seus dados. Muita gente ainda mantém seus smartphones sem senha ou com códigos de acesso muito fáceis de descobrir. Aí, basta você deixar seu celular carregando no balcão do bar por cinco minutos para que alguém possa roubar alguma informação pessoal.

Também não adianta ter o celular mais seguro, se você continuar fazendo chamadas pela rede de celular (onde a privacidade não é garantida) para falar de assuntos sensíveis e decisões estratégicas. Se você é ativista político, não deveria mais marcar reuniões usando o telefone. Agora, precisamos planejar nossas comunicações e garantir que informações estratégicas só vão circular em canais seguros: com criptografia e também com confiança entre as partes. Afinal, não adianta usar a última tecnologia de privacidade se alguém no grupo estiver disposta a vazar a informação para alguém do outro lado. Em tempos de perseguição política, seu inimigo pode estar mais perto do que você imagina.

 

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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