OPINIÃO

A hora e a vez dos estilingues virarem vidraças

Quem mora no Rio Grande, verá e viverá a partir de 1º de janeiro de 2019 uma situação interessante. Terá em termos nacionais, um governo de Direita que rompe com quase uma década e meia de Governo progressista (com o hiato de Temer que não é progressista, mas também não é de Direita. Oportunista é como chama.) E terá em terras potiguares um governo progressista petista pela primeira vez na História após décadas de governos ligados à famílias poderosas (Sim, o PT esteve no início do Governo Robinson, mas rompeu logo e mesmo assim não estava na cabeça da chapa. E se você está pensando em Wilma de Faria, lembre que ela era sobrinha-neta de Dinarte Mariz e foi casada com Lavoisier Maia).

Será hora, portanto, de quem foi oposição ser Governo e quem se acostumou com o poder tanto tempo ter de ser “do contra”. Ou seja, estilingue vai virar vidraça. E vice-versa. Mas, há particularidades e nuances diversas nos casos nacional e local. E possibilidades muitas.

Em se tratando de Brasil, já temos evidências no pós-eleição e na transição de Governo, que Jair Bolsonaro, que fez campanha à base de fake news e aproveitando a indignação popular com a situação do País com um discurso vago e tosco de “tem que mudar isso aí”, vai percebendo que estar no Poder muitas vezes não significa ter condições de “mudar isso aí”, seja lá o que isso for. Já enfrenta desgastes internos em sua equipe de transição, é inábil em se posicionar sobre qualquer assunto (vide opiniões sobre Enem, China e embaixada brasileira em Israel) e muitas críticas em relação ao ministério que vem formando, bem diferente daquele de perfil técnico e “sem corruptos”, que tanto prometeu na campanha.

O “mito” ganhou esse apelido entre seus fãs pela forma contundente como criticava as políticas do PT ao longo de 13 anos no Governo Federal. Uma vez no Poder, excetuando o tosco argumento de que “o PT quebrou o País” para justificar falta de caixa e de investimentos, não terá mais como atribuir problemas crônicos do Brasil ou mesmo particularidades sócio-culturais à Esquerda. A expectativa é que no primeiro ano de Governo perca muitos dos seus eleitores/fãs quando estes perceberem que ele não poderá ou conseguirá, seja por força de lei, por conjuntura política ou por falta de necessidade, fazer ou mudar tudo que prometeu para “mudar o Brasil”.

NO RN

Já em plagas norte-riograndenses a situação é inversa. Da redemocratização do país para cá, o Estado sempre ficou nas mãos de grupos políticos familiares ou seus agregados. Enquanto em outros estados nordestinos forças progressistas conseguiram chegar ao Governo ainda nos anos 90 ou 2000, no Rio Grande do Norte o que se viu foi uma espiral dos mesmos sobrenomes e mesmas forças se alternando no poder de forma conveniente na qual, de uma forma ou de outra, todos saiam ganhando. Da eleição de José Agripino Maia em 1982, após décadas de governos biônicos, indicados pelos generais de plantão, tivemos uma sucessão cronológica de sobrenomes: Melo (Geraldo), novamente Maia (Agripino), Alves (Garibaldi), Faria (mas que fora Maia, Wilma), Rosado (Rosalba Ciarlini) e Faria (Robinson).

A eleição de Fátima Bezerra, professora oriunda do interior da Paraíba e sem parentes na política paraibana e muito menos potiguar, quebrou esse paradigma. Mas, colocará Fátima como vidraça após  produtivos mandatos como senadora e deputada federal. E gerir um Estado com 167 municípios, problemas crônicos e idiossincrasias, são outros quinhentos.

Fátima  assume com um desafio triplo, já explorado aqui neste espaço: colocar em dia a folha de pagamento do funcionalismo, minimizar o quadro de violência e equacionar o caos na saúde pública nos principais municípios. Resolvendo esse tripé, blindará a vidraça na qual se colocará a partir de janeiro.

Desafios que não serão fáceis, claro. Robinson Faria apesar de colaborar na transição de Governo dá sinais que não pagará o funcionalismo (muito menos o décimo-terceiro salário) em dezembro, a não ser que seja obrigado judicialmente a tal. Na segurança, Fátima terá de dar respostas imediatas, muito, mas muito antes da tradicional trégua de 100 dias dadas aos governantes que iniciam mandatos. E na saúde, basta uma reportagem sobre “o caos e a morte nos corredores do Walfredo” para implodir a pasta e colocar o Governo em xeque.

Enfim, é esperar para ver. A transição do conforto do Legislativo, onde se é um entre dezenas, centenas e não há o que gerir a não ser um gabinete, nem sempre é fácil.

Mas, o desafio está lançado. Vamos ver quem vai atirar as primeiras pedras.

 

 

 

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