OPINIÃO

A idolatria do absurdo

A necessidade de se cultuar alguém, alguma entidade divina, ou mesmo uma imagem qualquer, está incrustada na nossa cultura como uma herança do caldeirão das misturas que nos compõem brasileiros.

A nossa sociedade está repleta de divindades, mitos e figuras que se tornaram, de alguma maneira, ao longo da história, caminho para a adoração e depósito de confiança e esperança para a solução dos nossos mais diversos problemas.

Bandidos viraram santos, loucos se tornaram objetos de adoração, fortalecendo a máxima de que é preciso se segurar em algo superior para poder enfrentar com mais tranquilidade e até sobreviver aos dias turbulentos que a vida nos apresenta.

No Brasil contemporâneo, em tempos de divisão política mais exacerbada, de paixão alucinada pelo futebol, de desesperança, e povoada pela nova cultura da internet, uma “invenção dos tempos modernos”, a proliferação de ídolos e mitos – ainda que de papel – se tornou oportunidade para muitos construírem imagens associadas a redentores dos novos tempos e condutores para a salvação: do que exatamente, ninguém sabe dizer.

As redes sociais estão entupidas de profetas, filósofos de ocasião, orientadores para todo e qualquer tipo de problema a ser resolvido. Se aproveitam da fragilidade, da boa fé dos incautos, que na expectativa de encontrarem o caminho para a felicidade, simplesmente acreditam no que chegam aos seus smartphones em forma de mensagens, posts e palavras de auto ajuda, e passam a compartilhar desenfreadamente verdades construídas nos laboratórios e gabinetes estruturados com um fim bem determinado: escamotear a verdade, como explicita o jornalista americano Michiko Kakutanti em seu “A morte da Verdade”. Um livro que desvenda como a mentira se sobrepôs aos fatos verdadeiros, tornando mais fácil a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos.

Por essas terras tupiniquins não tem sido diferente. A política, que sempre foi território fértil para a construção de verdades, resultantes em muitas situações, de pesquisas de opinião, ganhou ainda mais impulso com a internet e as diversas redes sociais que povoam o ambiente virtual, num modelo mais moderno da aldeia global, preconizada por Mc Luhan nos idos de 1962 em seu a “Galáxia de Gutenberg”.

A idolatria do absurdo ganha corpo com o advento das mensagens massivas, normalmente programadas e distribuídas por robôs, desvirtuando fatos e literalmente esfacelando a verdade, levando multidões a cultuar a mentira, ou meias verdades como valor absoluto do que é certo naquilo em que dizem acreditar. É como afirmou Hannah Arendt ,a filosofa alemã, em “Origens do Totalitarismo”:

“O Súdito ideal do governo totalitário não é o nazista convicto nem o comunista convicto, mas aquele para quem já não existe a diferença entre fato e a ficção (a realidade da experiência) e a diferença entre o verdadeiro e o falso (os critérios do pensamento)”.

Dos ídolos, das falsas divindades e dos mitos de papel, trataremos em outra oportunidade.

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