OPINIÃO

“A Invenção do Nordeste” combate xenofobia e bairrismo ao mesmo tempo

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Quem é você no Nordeste? A grandiosa Bahia? O empoderado Pernambuco? O paradisíaco Rio Grande do Norte? O exótico Maranhão? Vou mais além um pouquinho, tá? Quem disse para você que você é isso ou aquilo? Que você é assim ou assado? Quantas vezes você realmente disse “ôxi mainha” e torceu a boca num gesto histriônico para fazer todos rirem? Que Nordeste é você?

Todas essas perguntas dançaram coco de roda na minha cabeça depois que assisti à mais recente obra do grupo potiguar Carmin, o espetáculo “A Invenção do Nordeste”. E não tem como chamar de peça. O que assisti foi mesmo um espetáculo. O grupo se apresentou na semana passada em Recife, dentro da programação do Festival Trema, num Teatro Apolo completamente lotado e ávido por ser surpreendido. E foi.

Baseado no livro “A Invenção do Nordeste e Outras Artes”, do historiador paraibano Durval Muniz de Albuquerque Jr., o espetáculo do Grupo Carmin consegue a façanha de questionar a xenofobia do Sudeste e o bairrismo do Nordeste numa só feliz tacada. E tome riso.

O enredo é simples e engenhoso, daqueles que já preparam você para uma grande história. Um diretor de elenco (defendido com elegância quase shakespeareana pelo ator Henrique Fontes) é contratado por uma grande produtora do Sudeste para uma missão surreal: preparar dois atores nordestinos para interpretar um personagem nordestino. Sim, isso: preparar atores nordestinos para interpretar um personagem nordestino.

É através dessa provocação que a dramaturgia do próprio Henrique Fontes em parceria com o escritor potiguar Pablo Capistrano nos cutuca o tempo todo sobre o que é ser nordestino. Temos todos cabeças chatas? Padecemos todos nós da fome e da seca? Vivemos todos nós num compasso de tempo diferente do resto do país? Estamos assim tão desconectado do que é ser paulista, ou mineiro, ou gaúcho?

O espetáculo utiliza como fio condutor a oficina de preparação de elenco para responder e questionar. Os finalistas (interpretados com uma química saborosa pelos atores Robson Medeiros e Mateus Cardoso) destilam seus pontos de vista divergentes, por vezes completamente inversos, enquanto o diretor arbitra as disputas das certezas. Enquanto o personagem de Medeiros acredita no ideal do sertanejo, e em todas as raízes que vêm do sertão, o personagem de Cardoso é mais iconoclasta: não vê o porquê da imposição de certos símbolos, como o forró e o bolo de rolo, e até faz piadas mordazes com esteriótipos que nós mesmos, os nordestinos, construímos para nossos Estados.

O absurdo do enredo nos incomoda justamente porque plausível: quantos atores cariocas ou paulistas você já não viu interpretarem personagens nordestinos? Certamente, muito mais do que o inverso. Um nordestino, em certa medida, precisa provar que é nordestino para não ser tratado como nordestino. E essa frase tem tantas interpretações pelo país (“ser nordestino”) que é até perigoso não questionar a importância dela. É nesse caldeirão de perguntas incômodas que o espetáculo subverte expectativas e abusa da comédia para levantar uma discussão atualíssima: afinal, para que servem os esteriótipos?

Um dos maiores acertos de “A Invenção do Nordeste”, porém, é apresentar tudo isso com uma roupagem que foge completamente do que se espera de um espetáculo sobre a região. A dramaturgia audiovisual construída por Pedro Fiuza confere à história um ar contemporâneo e, contraditoriamente, nostálgico. O cenário minimalista, contando basicamente com uma mesa, um tablado e um telão, dão conta de se transformar nas mais grandiosas paisagens com pouquíssimas interferências de luz e som. Passeamos por Canudos, pelo São Francisco, por Recife, por Natal, e tudo de uma maneira tão consistente e fluida que nem parece que está mesmo acontecendo. Parece sonho.

O telão é quase um quarto personagem em cena, transmitindo trechos de discursos, miniclipes, memes e até mesmo imagens ao vivo dos atores, captadas ali mesmo no palco. Um verdadeiro deleite. Quando um trecho de “Deus e o diabo na terra do sol” de Glauber Rocha pousa no telão ao mesmo tempo em que é interpretado ao vivo no palco (mas com sotaques e movimentações, digamos assim, menos caricatas) minha cabeça explodiu. Era a junção perfeita da tecnologia, da tradição e da ousadia. Deu aquele orgulho de ser potiguar.

Tudo isso foi costurado pela direção certeira de Quitéria Kelly. Atriz e fundadora do Carmin, ela dirige um espetáculo da trupe pela primeira. E tudo isso surgiu de algo inesperado: a xenofobia escancarada que tomou conta das redes sociais nas Eleições 2014. Chocada com o avanço do preconceito com o Nordeste, Quitéria Kelly transformou o incômodo em arte. Ao longo de 2 anos, o grupo se debruçou sobre o tema num processo de pesquisa que passou por Lampião e o cangaço, Euclides da Cunha e seus sertões, Padre Cícero e a cultura da seca, até desembocar no livro de Durval Muniz de Albuquerque Jr. Segundo Henrique Fontes me contou logo após a sessão, ao se encontrarem com esse livro foi como ver o espetáculo pronto.

A crítica política está, obviamente, contida em todas as falas do espetáculo. Mas é interessante notar que o Carmin não se detém a criticar os políticos de agora — esses facínoras que, de tão facínoras, são tão facilmente criticáveis. O Carmin vai além, e cria ilações muito inteligentes entre os discursos de antes e os de agora — mostrando a verdade incômoda da qual insistimos em fugir: não há, afinal, muita diferença entre Padre Cícero e Renan Calheiros; ou entre Dom Pedro II e Michel Temer. Todos estão unidos pela necessidade de alimentar a cultura do flagelo para manter o povo sob seu julgo. O ilegítimo, inclusive, faz uma polêmica participação especial na peça. Só assistindo pra saber.

A parte mais delicada do espetáculo, entretanto, foi quando os personagens se sentaram ao redor do mapa do Brasil para discutir a separação do Nordeste do resto do país. Ao isolar a área da região, cada um foi elecando os motivos pelos quais determinados estados não poderiam fazer parte da nova nação. Bahia, por exemplo, sequer se considera Nordeste. Maranhão tem mais a ver com o Norte do que com a gente. Ceará não dá. Piauí tá fora. Sergipe nem pensar. E cada vez que o mapa ia diminuindo, minha tensão crescia com a aproximação de Pernambuco.

Aqui cabe um parêntese: não há Estado brasileiro que valorize mais suas tradições do que Pernambuco. Porque aqui não apenas se valoriza: aqui se ama, se exalta e se deifica. O mapa projetado ao vivo no telão, mostrando o Nordeste reduzido a Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, já era uma imagem afrontosa. Quando os atores retiraram Pernambuco sob a justificativa de que “eles vão querer ser o Nordeste” ou algo assim, vaias até foram ensaiadas. Mas as palmas se sobrepuseram. A plateia entendeu que Pernambuco só é Pernambuco porque assim foi inventado. O espetáculo triunfou sobre o bairrismo.

Ao final, “A Invenção do Nordeste” foi aplaudida de pé por mais de cinco minutos. Por uma plateia que gargalhou, se emocionou, refletiu e questionou tudo que sabe acerca da própria terra. Mas antes de tudo: uma plateia nordestina. O que quer que isso signifique.

Espetáculo “A invenção do Nordeste”. (crédito da foto: Karen Lima).

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A Invenção do Nordeste
Grupo Carmin, 2017 / 60min.

Inspirado no livro “A Invenção do Nordeste e Outras Artes“, de Durval Muniz de Albuquerque Jr.

Elenco: Henrique Fontes, Mateus Cardoso e Robson Medeiros / Direção e figurino: Quitéria Kelly / Assistência de direção, dramaturgia audiovisual e desenho de luz: Pedro Fiuza / Dramaturgia: Henrique Fontes e Pablo Capistrano

Consultoria histórica e de roteiro: Durval Muniz de Albuquerque Jr / Direção de arte e cenografia: Mathieu Duvignaud / Preparação corporal: Ana Claudia Albano Viana / Preparação vocal: Gilmar Bedaque / Produção executiva: Mariana Hard i/ Trilha original: Gabriel Souto e Toni Gregório / Design gráfico: Teo Viana / Xilogravura: Erick Lima / Costureira: Kátia Danta s/ Cenotécnico: Irapuã Junior / Edição de vídeo: Juliano Barreto / Locução: Daniele Avila Small / Assistência técnica: Anderson Galdino.

 

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Patrício Júnior
Patrício Jr. é escritor, publicitário e jornalista. Escreve às quartas-feiras.

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