CULTURA

A Invenção do Nordeste na direção de Quitéria

Estreando como diretora, a atriz Quitéria Kelly reflete sobre autoridade, invisibilidade da mulher e os papéis de gênero no teatro. Enfrenta, com serenidade, diversas nuances do machismo e da xenofobia a que está exposta quando apresenta pelo país o espetáculo “A Invenção do Nordeste”. E assim se firma no caminho que abriu há mais de dez anos, quando fundou o grupo Carmin, em Natal (RN).

O espetáculo que trata da imagem e do preconceito contra a região Nordeste, em especial os nordestinos, foi idealizado, pesquisado e é dirigido por Quitéria, embora às vezes não receba os créditos. O texto é inspirado no livro “A invenção do Nordeste e outras artes”, do historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr., e assinado por Pablo Capistrano e Henrique Fontes, que atua em cena junto com Mateus Cardoso e Robson Medeiros.

Além de Quitéria Kelly, o espetáculo conta com apenas outras duas mulheres: a iluminadora Pamola Cidrac, em São Paulo, e a produtora potiguar Mariana Hardi.

“Três matérias que saíram da estreia creditaram a direção a Henrique e Pedro Fiuza [assistente de direção], não falaram meu nome em nenhum momento. Eu fiquei chocada. Falam o nome de Durval, Pablo, Henrique, Pedro e não falam o da diretora”, desabafa.

Por causa desse tipo de episódio, afirma que mesmo sem discutir temas do feminino na peça, encenada por três homens, ela percebe a força e a potência do feminismo. E também do machismo, principalmente pela dificuldade em ser ouvida, às vezes até mesmo pelos colegas que estão no palco.

Com os espaços de liderança ocupados historicamente por homens, Quitéria aponta que na dramaturgia os nomes que prevalecem não são os de mulheres:

“Conversando com outras diretoras, é a mesma coisa. É difícil estar nesse lugar, porque a história do teatro mundial é de homens. A gente conhece os pais do teatro. Tem livros dos mestres do teatro. A gente não fala das mulheres. As mulheres do teatro são sempre as atrizes, que não pensam, que apenas executam. Isso vem mudando, claro”, pondera, ao lembrar uma dica da iluminadora Pamola para lidar com a equipe da caixa cênica. Segundo ela, os homens deveriam ser tratados no trabalho como eles próprios são, com um tom de grosseria, falando “coisa de macho”:

“Eu digo ‘Pamola, eu não vou fazer isso nunca na minha vida’: assumir um personagem pra que as pessoas me respeitem na minha função”.

Por manter a identidade de mulher, Quitéria acaba tendo atritos com os homens, embora evite isso. Tenta falar com jeito, às vezes doce, como aprendeu com os cuidados da mãe e como aplica também hoje na educação das duas filhas:

“Eles não me escutam”, reclama. “Primeiro porque eu sou jovem. Geralmente as diretoras são senhoras, com óculos na ponta do nariz. Aí eu chego, de tênis, e eles não me respeitam”, conta.

Ela acredita que o patriarcado relacionou a autoridade à imagem violenta da masculinidade. “A gente precisa ouvir grito. Gosta de ser humilhado. Só respeita quando leva um grito, uma comida de rabo. Mas é uma educação que tem que ser feita. Essa geração precisa aprender”, explica seu ponto de vista, resistindo à arrogância de ter que se afirmar em um cargo diante dos outros, mas reconhecendo que é uma atitude política cada vez que diz “eu sou”.

Mas a função onde Quitéria Kelly ainda se identifica mais é como atriz. No final de semana antes do Natal, o grupo Carmin apresentou duas sessões do já veterano espetáculo  “Jacy”, na Casa da Ribeira. E lembra dos desafio em atuar em “Pobres de Marré” como moradora de rua:

“A minha vaidade primeiro está na função de atriz e nos desafios. Quando consigo fazer uma coisa que surpreendeu. Não passa por esse lugar de dizer ‘sou a diretora, me respeite’. A minha vaidade está em outro lugar”, deixa claro.

A Invenção do Nordeste

A estética da fome árida do Nordeste, o chão rachado, os tons terrosos tão velhos quanto presentes no imaginário popular há décadas não representam a diversidade cultural e artística dos nove estados desse lado do país. Contra esse estereótipo se levanta o espetáculo A Invenção do Nordeste, que estreou em 2017, vem sendo aclamado pelo público e pela crítica, pela qual foi indicado aos prêmios Shell, Cesgranrio, Prêmio do Humor, o local Troféu Cultura e é ganhador o Prêmio Cenym:

“Temos características completamente distintas. Maranhão não tem nada a ver com Natal. E Natal não tem nada a ver com Salvador. Só que a galera coloca categoria ‘Teatro Nordestino’, mas a partir de onde?”, questiona Quitéria Kelly, apontando que as novelas, a literatura e as artes plásticas se apropriam de um Nordeste generalista, que também é usado para dominação política.

Saiba Mais: A Invenção do Nordeste concorre ao prêmio Shell de Teatro

Mateus Cardoso, Henrique Fontes e Robson Medeiros em cena

O espetáculo começou a ser concebido em 2014, quando em turnê do espetáculo Jacy, o grupo ouvia constantes ameaças a nordestinos diante da reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT), que teve expressiva votação na região.

“Nas eleições de 2014, Minas Gerais é que foi decisivo na reeleição de Dilma. Outro dado que colhi depois é que o estado que mais solicita Bolsa Família é São Paulo, mas dizem que é o Nordeste quem vota com a barriga”, conta a diretora.

Quatro anos depois, o cenário de xenofobia aumentou. Em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro, as reações contra os nordestinos por parte da extrema-direita foram ainda mais desequilibradas. Morando há oito meses no Rio de Janeiro, Quitéria conta que após as eleições se surpreendeu positivamente com as apresentações na cidade.

“Apresentamos segundas e terças durante cinco semanas. Na primeira segunda depois da eleição, as pessoas lotaram o teatro e saíram tão em polvorosa, vieram falar com a gente. Não fazemos nada partidário na peça, mas falamos de um tema que aborda essa divisão política-social que o país tem hoje”, pontua.

O preconceito encontrado na estrada pelo coletivo teatral vai do grotesco ao sutil, velado em elogios. “Nossa que peça boa, não parece que é nordestina”, lembra que ouviu a atriz Quitéria Kelly sobre Jacy.

Nesse contexto, Quitéria conheceu o livro “A invenção do Nordeste e outras artes”, do historiador Durval Muniz, e leu junto com o filósofo Pablo Capistrano para construir a nova trama. A ideia era desconstruir a ideia que se tem do Nordeste e que geram sentimentos que vão da hostilidade ao orgulho.

O orgulho de ser nordestino tão pregado pelos conterrâneos é visto agora como uma afirmação compensatória, por estar ligado à pobreza e ao mesmo tempo à satisfação em fazer parte disso:

“A gente estava preso a uma estética que não é nossa, regionalista. Eu, por exemplo, fui criada na Ribeira ouvindo rock na Rua Chile, assistindo Emir Kusturica, com referências da Europa. Quando eu lia Euclides da Cunha na escola não me reconhecia como parte daqueles personagens”, relata Quitéria, explicando de que forma aplicou no teatro a tese de doutorado defendida por Durval Muniz defendida em 1994.

Calça balonê inspirada no cangaço é um dos únicos elementos regionalistas que entram em cena. O figurino escolhido para o grupo Carmin inclui jeans, e peças em verde, cinza, um pouco de vermelho – longe do tradicional ocre sertanejo.

No enredo, dois atores fazem testes para uma super série e têm que mostrar qual deles é “mais nordestino” – situação por que muitos atores passam, já que no eixo Rio-São Paulo geralmente são procurados para fazer papéis caricatos. “É o que vende”, lamenta. E de acordo com a atriz, há dois extremos na contratação desses profissionais: de um lado precisam enfatizar sotaque, se atuam como nordestinos; do outro, é preciso “neutralizar” a fala, do ponto de vista de quem contrata.

“A gente também sabe usar isso, de transformar características da nossa cultura em autenticidade. Nosso sotaque, nossa musicalidade, e não precisa. A maior produção cultural vem do Nordeste”, assinala, indicando que as principais referências de cinema são Ceará e Pernambuco; de movimentos musicais, Bahia, com o tropicalismo, e Pernambuco, com o manguebeat.

“A Invenção do Nordeste” vai virar filme, adianta Durval Muniz

Por Rafael Duarte

O escritor Durval Muniz e parte do grupo Carmin em confraternização de fim de ano

Depois de migrar da academia para as prateleiras das livrarias e, pelas mãos do grupo Carmin, voar da literatura para os palcos do teatro, a “Invenção do Nordeste” ganhará uma versão audiovisual. O projeto, já batizado de “A Edição do Nordeste”, também baseado no livro, ficará sob a responsabilidade de Pedro Fiúza, do mesmo Carmin, e tem previsão de lançamento em 2019.

Para o escritor e historiador Durval Muniz de Albuquerque Jr., o livro criou as asas que, de certo modo, já estavam presentes como referência no título original da obra:

“Quando coloco o nome do livro de “A Invenção do Nordeste e outras artes” é porque as artes tiveram uma importância grande na construção do imaginário sobre o Nordeste”, diz.

Muniz comemora junto com o grupo Carmin as conquistas de A Invenção do Nordeste pelo país. Ele também passou a ser mais solicitado para dar entrevistas e falar sobre o livro nas cidades por onde o espetáculo vem sendo apresentado:

– A repercussão é muito boa. O espetáculo provocou uma jornalista de Cubatão, no interior de São Paulo, a falar sobre o preconceito contra os nordestinos. Depois da apresentação no Recife, o Diário de Pernambuco também me procurou pra falar sobre a relação do preconceito contra o nordestino nas eleições. A obra vai tendo repercussão. Acho que o trabalho acadêmico é um pouco limitado, um pouco diferente. Quando vai para o jornal, acaba impactando públicos diferentes. Nessa reportagem do Diário de Pernambuco pediram para eu fazer um áudio, ou seja, vai ganhando outras linguagens”, reflete

O historiador, que defendeu “A Invenção do Nordeste e outras Artes” como tese de doutorado em 1994, destaca que o ódio contra os nordestinos seguem em níveis elevados, especialmente após as eleições de 2018, quando a região Nordeste foi o contraponto à eleição de Jair Bolsonaro (PSL), optando por outro projeto de desenvolvimento para o país:

– “O ódio contra o nordestino está altíssimo. Aquele movimento “O Sul é o meu país”, externando a xenofobia em relação ao nordestino, é um exemplo. O que aconteceu nos últimos anos não foi apenas a redução da desigualdade social, mas das desigualdades regionais, e isso mexe com as hierarquias. E (o preconceito) avança com a ideia de que os governos do PT privilegiaram o Nordeste e, ao mesmo tempo, que os nordestinos votam pelo Bolsa Família, que não são politizados. Mas quem acaba elegendo os Alexandres Frotas ou as Joices Hasselmann são eles”, ironiza.

Sobre o sucesso do espetáculo, Durval Muniz acredita que o objetivo da obra está sendo cumprido:

– “Estou muito satisfeito, feliz. Esse é o objetivo. A arte é o lugar de reformular o imaginário que temos em torno do Nordeste. E isso tem repercussão e retorna em relação ao próprio livro, vira um círculo virtuoso”, diz.

Artigo anteriorPróximo artigo
Isabela Santos
Isabela Santos é jornalista e repórter da agência Saiba Mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *