OPINIÃO

A luta de classes e a vacinação tupiniquim

Ao passar em frente ao shopping Via Direta, aqui na zona sul de Natal, chamado pejorativamente de “shopping dos pobres”, vi claramente como uma sociedade que se baseia na divisão (e segregação) de classes se mostra. Uma fila com centenas de pessoas, sem distanciamento correto, muitas delas sem máscara, se acotovelando para ter acesso a vacinação, enquanto a menos de 50 metros dali tinha outra fila, só que de carros, bem organizada e tendo, também acesso a mesma vacina que a outra multidão aguardava.

A vacinação, feita aos trancos e barrancos, tem produzido uma disputa macabra, fazendo surgir os “prioritários”, “os mais prioritários” e os “mais prioritários que os prioritários”, novo segmento, formado pelos que utilizam atestados falsos e que, por vias tortas, se vacinam, enquanto os pobres buscam, de ponto em ponto de vacinação, ver se tem direito ao “ouro sanitário”.

Triste país, onde as vacinas se tornaram objeto de disputa política, em que o presidente, por razões obscuras, parece ter tomado ódio por uma preparação biológica que fornece imunidade adquirida ativa para uma doença particular. Trata-se de algo inédito na história recente, onde um Chefe de Estado, eleito, decidiu travar uma batalha, de negação, contra um vírus e contra o agente que o combate.

Imagino o que o cientista francês, Louis Pasteur, se vivo estivesse, diria sobre essa patética figura que, no auge do seu delírio, decidiu perseguir uma ema com uma caixa de remédio nas mãos e antes de ontem (16), bradou que fica em casa, por causa da pandemia, é “otário”.

O Brasil atingiu uma sinistra marca. Somos o país com o maior número de mortes relativas ocasionadas pela Covid de todo o mundo. Passamos a Itália, proporcionalmente falando, já que nenhum país com mais de 10 milhões de habitantes (excetuando a República Checa), tem mais mortos que a gente.

De acordo com pesquisadores norte-americanos da Universidade de Washington, pessoas sérias, e não esses ridículos que fizeram recentemente uma carreata em Natal, a favor do tratamento precoce, se não vacinarmos de hoje (20), até 5 de julho, um milhão e duzentos mil brasileiros POR DIA, chegaremos, em agosto, a 570 mil óbitos em meio a terceira onda com a variedade indiana.

Nesse cenário sombrio, a sociedade, que nunca chegou a cumprir nenhuma etapa de proteção sanitária a contento, pois o distanciamento social foi feito atabalhoadamente; e a pressão pelo retorno tem sido a marca registrada dos debates e discussões que vem acontecendo desde o início da pandemia, vê-se que a luta de classes, aquela mesma que muitos, inclusive da esquerda, consideravam um conceito ultrapassado, mostra sua face com toda a força e vigor.

A forma como os diversos segmentos se comporta diante da falta de vacina é reveladora e a procura por atestados e laudos falsos; introdução do patético “drive-thru de vacinação”; e a disputa para saber quem é prioritário ou não, deixando de lado os milhões de pobres, esquecidos e deserdados, que, sem poder de pressão, vivem sob um risco cotidiano e se equilibra na “balança da escolha” entre morrer de fome, morrer de COVID ou viver como morto, um caminhante sem destino e futuro.

 

 

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