OPINIÃO

A luta é na urna, a luta é na rua

Publicado no jornal Pravda, no dia 28 de Abril de 1918, logo após a paz de Brest-Litovski, que retirou a Rússia da primeira Guerra Mundial, o texto As tarefas imediatas do poder dos sovietes, assinado por Vladimir Lênin, termina de maneira impactante: “Só pode dirigir as massas trabalhadoras e exploradas uma classe que segue seu caminho sem hesitar, sem se desencorajar, sem cair no desespero nas horas mais difíceis, mais duras e mais perigosas. Não temos a necessidade de entusiasmos histéricos. O que precisamos é da marcha cadenciada dos batalhões de ferro do proletariado”.

Anacronismos à parte (levando em consideração que o texto tem mais de cem anos e precisa ser lido em suas circunstâncias) é interessante imaginar, no quadro atual da encruzilhada política brasileira, o que aconteceria se a esquerda brazuca, lá pelos anos 90, não tivesse trocado a leitura da obra de Lênin pela fé na inevitabilidade histórica do modelo de democracia liberal nos moldes ocidentais.

Se há alguma coisa positiva no bolsonarismo (difícil imaginar algo mas é possível que haja) é que ele nos ajudou a acordar de nosso sono dogmático.

Acreditar que a democracia liberal esteja consolidada no Brasil ou que ela, por si só, com suas institucionalidades pensadas em gabinetes de filósofos lá no século XVII e XVIII, vá oferecer ao país uma saída para sua longa tradição de genocídio, escravidão e miséria, parece hoje um sonho romântico que minha geração cultivou por três décadas.

Desde a chamada “redemocratização” (um termo problemático para um país que nunca conheceu uma democracia genuína) vendeu-se, junto ao mito da neutralidade política das forças armadas, a ideia de que as “sólidas instituições” de um suposto Brasil liberal nos protegeriam de qualquer retrocesso autoritário que ameaçasse nos levar de volta para os anos de genocídio sanitário, violência racial e miséria social que sempre foram a constante tediosa em nossa história de brutalidade e descompromisso com o povo.

Em uma década essa fantasia ruiu.

Nesse cenário, parece ser chegada a hora das forças que se situam à esquerda do campo político e que se identificam sob a vaga alcunha de “progressistas”, assumir esse dado emancipatório da realidade e entender que as instituições da tal “democracia brasileira”, sozinhas, não vão nos salvar da catástrofe bolsonarista.

Está mais do que evidente (isso ninguém em seu perfeito juízo pode negar) que os resultados da eleição do ano que vem não serão respeitados no caso de uma derrota do grupo militar que ocupa hoje o poder.

Se o autogolpe, cantado e decantado por Bolsonaro desde que venceu a eleição de 2018, vai ou não se efetivar, ainda não é possível saber. Agora, que ele tentará virar a mesa, como já vem tentando, já está mais do que evidente.

O dado novo desse inverno (que ainda não aportou aqui pelo protetorado de Nova Parnamirim, diga-se de passagem) é que a extrema-direita, finalmente, parece ter perdido o protagonismo da rua.

A opção do bolsonarismo de investir em atos cenográficos como as “motociatas”, em que gente de vários lugares do país migram até uma cidade para protagonizar marchas fascistas motorizadas e fazer imagens para as redes sociais, indica que não há mais fôlego para que a militância de direita ocupe as ruas do país, como vinha fazendo desde que conseguiram “sequestrar a pauta” dos movimentos de 2013.

Por isso, o imperativo de urgência do agora aponta para uma dupla tarefa por parte dos grupos que querem interromper a marcha da nação em direção a um desastre social cada vez maior: preparar a urna e ocupar a rua.

As duas tarefas são irmãs siamesas, porque diante de um poder armado é um erro primário a confiança na normalidade de um calendário eleitoral rasurado por gambiarras como a do “golpeacheament” que derrubou Dilma ou da lava jato que tirou Lula da urna em 2018 e elegeu Bolsonaro.

Sem um amplo movimento de massas que ocupe a rua e dê o recado claro ao sistema político, as tais “instituições” não terão força no ano que vem, nem para garantir as eleições, nem para validar seu resultado em caso de derrota do consórcio miliciano-militar-fundamentalista que ocupa hoje o Palácio do Planalto.

É por isso que eu, um intelectual pequeno burguês cheio de purismos liberais, faço aqui meu mea culpa histórico e capitulo diante da dureza do Brasil desses tempos sombrios, assumindo publicamente minha autocrítica: a direita ocidental deve todos os dias agradecer de joelhos o fato da esquerda ter deixado de ler Lênin.

Se tivessem continuado a estudar a experiência dos construtores das velhas revoluções, causas perdidas em um passado interditado por uma proibição de pensamento, os grupos postos à esquerda saberiam que diante de um poder militar só é possível resistir com estratégias militares e que “é preciso saber mudar os métodos de luta contra o inimigo à medida que mudam as circunstâncias”.

Sim… eles tem as armas e é certo que não terão pudor de usá-las.

Para quem normaliza quinhentos mil mortos em uma pandemia, sujar as mãos com o sangue de outros quinhentos mil para defender seu “mito” não parece ser algo muito problemático.

Por isso, que, na atual circunstância, as únicas armas que nós temos precisam ser mais contundentes que as balas de seus fuzis: uma urna cheia de votos e uma rua plena de gente, gritando junta em uníssono um ensurdecedor #ForaBolsonaro.

 

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Pablo Capistrano
Pablo Capistrano é professor, escritor e filósofo. Escreve às quintas-feiras.

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