OPINIÃO

A Marcha da maconha de Natal 2018 

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É hoje! Chegou o dia de todos aqueles que acreditam numa sociedade mais justa, mais inclusiva, menos racista e lgbtfobica irem para as ruas de Ponta Negra manifestar-se a favor da legalização de todas as drogas. Repito e com ênfase: LEGALIZAR TODAS AS DROGAS. Ao leitor desavisado que por ventura não conheça nada acerca da problemática posta, pode parecer um absurdo a minha proposição. Já para ativistas, intelectuais e pessoas do senso comum, porém bem informadas, que leram e pesquisaram minimamente a questão, sem dúvida estão a favor dessa proposição, pois entendem que legalizar todas as drogas é o caminho para uma sociedade mais pacífica, democrática, segura e inclusiva. Como se realiza isso?

Não é milagre nem demagogia, é o que a ciência tem mostrado, das questões medicinais e religiosas, chegando às problemáticas de raça, gênero e classe, todos os grandes problemas que afligem as sociedades contemporâneas passam pela legalização como solução, e não como problema. Afinal, como dizemos no ativismo: “A proibição mata, o cultivo salva”. É muito importante que a sociedade entenda finalmente que a luta pela legalização das drogas não é só minha porque eu fumo maconha, é de todas as pessoas que querem um mundo melhor, pois o que a literatura científica especializada no tema tem mostrado, o que os ativistas tem denunciado, é que a proibição da maconha, em particular, e das drogas, em geral, não tem função de proteger a saúde da população de modo algum, visto que existem legislações que permitem que drogas mais potentes e perigosas sejam não só permitidas como prescritas no contexto atual com absoluta normalidade. Me arriscaria a dizer que  90% do que se vende dentro de uma farmácia é mais nocivo do que fumar maconha e mesmo que algumas outras drogas. Como diria um ativista numa marcha da maconha em algum lugar do passado: “Maconha medicinal, eu fumo meu hospital”.

Nos últimos anos, deixamos de ser vozes isoladas na multidão. Estudos cada vez mais contundentes, bem como a pressão política cada vez maior dos ativistas, tem imposto a realidade do uso medicinal da maconha como um arauto, um bálsamo na vida de muitas pessoas e que pode e deve ter essa função na vida de outras tantas pessoas também, pois a fronteira entre uso medicinal e recreativo é tênue demais. A maconha tem ação reguladora  sobre todo o corpo como não cansa de repetir meu caro professor Elisaldo Carlini, de modo que a luta jamais pode restringir-se à conquista o uso medicinal e já foi…

A problemática social envolvida é complexa demais. Fumar maconha ou crak ainda é um forte pretexto para aprisionar multidões cada vez maiores de jovens, especialmente negros, da periferia. Mulheres e lgbts, milhares deles, que tiveram suas vidas destruídas, alguns irrecuperavelmente, pelo modelo racista e classista de proibição das drogas, produzindo uma cultura de ódio ao suposto bandido que achamos que seja o “traficante”, mas que é na verdade apenas um jovem pobre tentando sustentar seus filhos nesse deserto de oportunidades que é a periferia de qualquer grande cidade brasileira, e diria mesmo do mundo. Essa é a tese clássica do meu querido Edward MacRae, professor da UFBA, no campo da Antropologia, a mais antiga e importante referência do Brasil e um dos mais influentes do mundo na discussão sobre drogas: de que a proibição das drogas é somente uma fachada para cumprir metas e ideais de uma sociedade racista, que odeia a diversidade étnica que é a característica mais decisiva do nosso país.

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Legalizar significaria também tributar, regular o comércio, protegendo dessa maneira de fato a saúde das pessoas, e a tributação proveniente deste que é considerado o comércio mais lucrativo do mundo hoje, poderia ser revertido em benefícios sociais para todos. Mais saúde, mais educação e mais segurança, que é o que todo mundo deseja no “Brasil do futuro” da Globo né? Então, você meu leitor, que chegou até aqui mais continua achando um absurdo a existência de uma marcha da maconha, lhe faço um apelo para se aprofundar na temática.

Pesquise os nomes, por exemplo, dos autores que aqui citei só para começar e descobrirá a respeitabilidade e credibilidade de suas biografias e carreiras profissionais. Dois profissionais comprometidos com o aprimoramento da humanidade, em suas áreas referências mundiais. Não dá pra nivelar pessoas como eles com qualquer opinião chula, rasteira, ancorada em preconceito e senso comum. Chegou a hora de sair da zona de conforto, estudar de verdade uma questão que se deseja debater e não ficar se informando com memes e autores desqualificados, que devido à interesses políticos (e religiosos muitas vezes) escusos fazem questão de distorcer, falsear dados, para tentar toscamente que seja justificar sua argumentação em prol da proibição.

Recomendo a todos assistirem o documentário Cortina de fumaça do meu amigo Rodrigo MacNiven, um clássico de quase uma década, mas que preserva, infelizmente, toda sua atualidade ao denunciar a problemática da proibição das drogas no Brasil e no mundo.

Por fim, deixo  o convite, a Marcha da Maconha de Natal 2018 volta a Ponta Negra depois de 7 anos nos quais rodamos a cidade, absorvendo a crítica da necessidade de circular a marcha por outros espaços que não somente a Universidade e a zona sul, o que nos levou a produzir anualmente a marcha da maconha de Natal sucessivamente na Praia do Meio (2012), Alecrim-centro (2013), Redinha (2014), Arena das Dunas (2015), Praça das Flores e Zona Norte (2016)  Zona Oeste (2017) – as duas regiões mais populosas e com maior incidência de criminalidade em Natal, de modo que esperamos vocês hoje a partir das 12h, no Ponto 7, de onde marcharemos por Ponta Negra rumo ao mar às 16h, onde contaremos com roda de ciranda e coco no encerramento da marcha, sem falar no Pau e Lata que vai arrasando conosco em todo o percurso.

Vamos fazer dessa edição a maior marcha da maconha da história de Natal? É o que espero debater na minha coluna de quinta feira da próxima semana nesse espaço. Até mais

 

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Historiadora e Militante LGBT

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