OPINIÃO

A melhora na economia

Não se fala em outra coisa no rádio, na TV, nos jornais e na internet. A economia voltou a se recuperar. Em todas as mídias, destacam os resultados do último trimestre: melhorou a ocupação, alguns setores da indústria começaram a crescer sutilmente, o dólar caiu “expressivamente” de R$4,20 para R$4,14. Até a popularidade do presidente parou de cair com a “melhora” dos números. Alguns ainda reconhecem que é pouco, mas todos comemoram muito os últimos resultados.

Na vida real, o desemprego e o emprego precário seguem alarmantes, a miséria se mostra a cada esquina, a fome pede comida na porta do supermercado, o pós-doutor dirige o uber, o ex-gerente vende brigadeiro na porta do shopping, na black fraude, os cidadãos investem o dinheiro do FGTS no consumo e aproveitam para acumular mais uma dívida que, certamente, vai movimentar o balanço de final de ano dos bancos.

– Mas será que dá pra confiar na mídia brasileira quando o assunto é dinheiro?

Basta ver os anunciantes nos intervalos do noticiário da TV, ou os banners e pop-ups que aparecem nos portais da internet. Bancos, financeiras, empréstimos pessoais e as novas startups de investimentos.

A menos que você seja banqueiro ou grande investidor, não dá pra confiar nessa gente.

E isso não é só discurso militante e panfletário contra os donos da mídia. É também, pois o nosso cenário midiático é nocivo a qualquer construção democrática. Mas há provas de que não podemos sequer imaginar qualquer ponta de equilíbrio na cobertura econômica da mídia brasileira.

Vamos relembrar um pouco a cobertura sobre a reforma da previdência, se é que não deveríamos falar da extinção da previdência.

O estudo “Vozes Silenciadas – Reforma da Previdência e Mídia”, do Coletivo Brasil de Comunicação Social – Intervozes, apontou que, entre 1º de janeiro e 30 de junho, os três grandes jornais impressos (Folha, Estadão e O Globo) apresentaram 64% de fontes favoráveis à reforma da previdência, apenas 19% eram expressamente contra a proposta. Ganhava mais espaço se os argumentos contrários à proposta fossem argumentos jurídicos específicos ou a ausência de militares na proposta.

Na televisão, foram analisadas quatro semanas de telejornais, sempre que a proposta de reforma ganhava destaque no noticiário. O jornalismo televisivo preferiu explicar os pontos do projeto e dar voz aos técnicos do Ministério da Economia, poucos foram os especialistas que apareceram para analisar a proposta. Dos poucos que foram ao ar, 90% – isso mesmo – eram favoráveis à reforma. Aí vem aqueles 10% contrários para tentar dar um ar de realidade ao noticiário. Outro detalhe importante, as mulheres, que seriam muito mais afetadas pelas reformas, mal deram as caras na mídia. Dos especialistas ouvidos nos jornais impressos, 88% eram homens. Na TV foi ainda pior, 89%.

2019 e a gente ainda tem que pedir pra mídia ouvir os “dois” lados e os “dois” gêneros.

O fato é que não dá para confiar nos consensos midiáticos, especialmente quando o tema é economia. Mas não somente. Os levantamentos da série “Vozes Silenciadas” já mostraram como a mídia cala ativamente as vozes dissonantes da realidade. É assim com os trabalhadores sem terra, foi assim com as jornadas de junho de 2013.

Aí, eu lembro de um professor que recomendava assistir as novelas e seriados da Globo, já que eles reproduziam melhor diversos aspectos da realidade do que o próprio jornalismo.

Parece que essa ideia ainda está valendo.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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