ENTREVISTA

“Ver o outro como concorrente é a mentalidade do patrão, a mídia independente é colaborativa”, afirma Carolina Oms, da AzMina

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“A mídia alternativa surge para suprir uma falta deixada pelos veículos tradicionais”. A frase é de Carolina Oms, diretora executiva da revista AzMina, veículo fundado e chefiado por mulheres há 5 anos inicialmente sem muito planejamento, mas com a vontade de fazer um jornalismo mais aprofundado, diverso, representativo e combater os mais variados tipos de violência contra a mulher. A conversa virtual desta terça (1) foi a segunda da semana “Manual de sobrevivência da mídia independente e alternativa”, evento que vai até o sábado (6), com participação de jornalistas de veículos referências para a agência Saiba Mais.

Além de Carolina Oms, o debate virtual bate-papo também contou com a participação da jornalista Lara Paiva, fundadora do site Brechando, que traz histórias curiosas sobre a cidade de Natal. Levando sempre uma pegada de humor às publicações, Lara contou que “entrou” no jornalismo alternativo diante da falta de perspectiva no mercado local. “Não fui contratada no meu antigo estágio, os jornais estavam em crise e o Diário de Natal já tinha fechado. Não sabia o que fazer e decidi montar o site enquanto não era contratada por alguma empresa para exercer o meu jornalismo”, disse.

As angústias sofridas pelos jornalistas não são poucas, vão desde as difíceis condições de trabalho com a pressão da chefia, assédio moral nas redações, baixa remuneração e a eterna pressa para publicar o “furo”, até o desejo de fazer um bom jornalismo, algo em que acredita. Foi esse ambiente, um tanto inóspito, que abriu os olhos de alguns profissionais que passaram a enxergar esse novo caminho.

“A mídia independente traz algo interessante que é o oposto do que a mídia tradicional faz. Ela é colaborativa. Ela dá o crédito, age junto, atua em parceria, em rede. Somos ensinados pelo mercado a ver o outro como concorrente, rival, mas essa é a mentalidade do patrão, nunca foi do jornalista. Estabelecemos isso como estratégia de sobrevivência e de produção de um jornalismo cada vez melhor”, avaliou Carolina.

Além do projeto gráfico bem interessante, AzMina também tem uma pauta marcante e voltada para o feminismo, quando o assunto ainda nem estava na moda. E é claro que a temática desperta a raiva dos mais conservadores.

Falamos de pautas feministas como aborto, sexo ou violência sexual, sem subterfúgios. Quando algo viraliza, já sabemos que os ataques vão acontecer. O maior foi da ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos Damares Alves, quando fizemos uma reportagem explicando como funciona o aborto legal. A coisa foi parar até nas redes da direita e, apesar da reportagem trazer apenas informações da Organização Mundial da Saúde, a ministra denunciou o caso ao Ministério Público de SP, que poderia não ter dado encaminhamento a uma denúncia tão absurda. Mas, a investigação continua até hoje, já são quase dois anos, a jornalista já prestou depoimento, mas o processo não tem fim. É um assédio por sermos de mídia independente, jornalista e mulher”, critica.

A busca por um ambiente de trabalho onde a mulher se sinta representada também foi um dos motivos que originou AzMina, que leva em conta alguns princípios na hora de avaliar as possíveis pautas:

“Mesmo quando o jornalista sai de um veículo tradicional para a mídia independente, ele leva consigo alguns vícios, como a busca pela hardnews, aquela notícia quente, o furo, a pressa em publicar primeiro. É preciso ter humildade pra entender quando algo não dá pra gente ou não faz parte das nossas prioridades. O que importa é a notícia sair bem feita, nos lembramos disso o tempo todo. É preciso fazer algo diferente e melhor do que a mídia tradicional faz, até para valorizar o esforço de quem nos patrocina”, aconselha.

Apesar do engajamento e dos anos de experiência como jornalista, Carolina Oms conta que já passou por situações em que não soube como reagir. Como no caso de um seguidor que enviou um vídeo de uma arma como resposta a uma publicação sobre aborto:

“O twitter não derrubou o vídeo, se isso não é uma ameaça, eu já não sei mais o que é. Na época eu não sabia que tinha que dar print, salvar link. Hoje, sei que há canais que podem ajudar, como organizações de direitos humanos. Isso é importante porque as mulheres são silenciadas nas redes”.

Manual de sobrevivência 

Pra quem nada contra a corrente, o começo é sempre difícil. Sem dinheiro para pagar salários, AzMina iniciou o projeto com trabalho voluntário de meio período até conseguirem financiamento e equipes fixas. O projeto surgiu 2015 e elas ficaram como voluntárias até o final de 2017. Pra criar uma estrutura mais profissional, as jornalistas estabeleceram prazos e organizaram parcerias com outros veículos. Outra orientação para os “focas” do setor é agir sempre próximo aos movimentos sociais pra sentir o que está acontecendo nas ruas e aprender com organizações e pessoas que estão na jornada há mais tempo.

Assista na íntegra a entrevista com a jornalista Carolina Oms, diretora-executiva da AzMina:

Fundadora do Jornalistas Livres é a entrevistada desta quarta

Até o sábado, sempre a partir das 17h, a Agência Saiba Mais traz dois convidados da mídia independente pra falar sobre suas experiências e estratégias de sobrevivência no mercado. Nessa quarta (2), será a vez de Laura Capriglione, co-fundadora dos Jornalistas Livres.  Participa do bate-papo ainda o jornalista Willian Robson, da Agência Moscow. 

Confira a programação completa aqui

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