OPINIÃO

A mídia e o novo presidente

O tuiter do presidente não sai das capas dos portais da internet. Na televisão, a frase mais comum é o “anunciou pelo tuiter”. Reclamam até que o discurso segue o mesmo tom da campanha e que o Jair precisa, agora, falar como um estadista.

Videos divulgados nas redes sociais pelos ministros provocam enxurradas de memes e desviam o foco do que é realmente importante.

Nos últimos dias, o presidente até ensaiou provocar Fernando Haddad nas redes sociais – o que também virou notícia. Haddad alfinetou de volta e perguntou se o presidente já estava disposto a um debate.

Até a nova marca do governo federal foi lançada apenas na internet, com uma suposta economia de veiculação na televisão.

Parece que o tal novo Brazil vai ser mesmo difícil para a velha imprensa e para os jornalistas.

O cartão de boas vindas veio com o ano novo, já na solenidade de posse. Jornalistas foram confinados e impedidos de circular durante a solenidade de posse, além de se submeterem a horas de espera e a serem revistados até no lanche. Aos fotógrafos, foi recomendado que evitassem movimentos bruscos, sob pena de serem alvejados por franco-atiradores.

Somente alguns jornalistas de veículos amistosos com o presidente foram escolhidos para receber uma credencial VIP e que os permitia de circular nos espaços da posse.

Ai de quem não foi escolhido. A Globo, por exemplo. A Folha, sem chances – parece que o nosso mandatário imitador de Trump já escolheu a quem vai levar a pecha de Fake News cada vez que publicar matéria questionando as medidas anunciadas pelo tuiter.

Como jornalista que sou, fico solidário aos meus colegas. Acho que tempos muitos difíceis estão começando para os profissionais da comunicação. É fundamental melhorar a organização da categoria para enfrentar as ameaças que serão impostas, de forma concreta ou abstrata, às nossas condições de trabalho. É bom até pensar em quem você, jornalista, vai eleger para seu sindicato e para a Federação Nacional dos Jornalistas, entidades que precisam atuar diretamente sobre essas ameaças.

Os tempos também serão muito difíceis para os grupos midiáticos que não se alinharem à nova gestão. Com estes, como militante da comunicação democrática, não posso me solidarizar.

E aqui cabe lembrar um pouco da trajetória dos grandes magnatas da comunicação brasileira. Foram fieis aos poderosos, mesmo durante a ditadura militar. Foram diretamente beneficiados por recursos públicos ao longo de toda sua história e são os guardiões da verdade imposta pelo mercado – aqui, leia-se, não têm qualquer compromisso com a democracia, com os direitos dos cidadãos, nem muito menos isenção política.

Foi a grande mídia tradicional quem inflou a bola do Jair, quem cultivou um antipetismo irracional, quem mobilizou campanhas contra muitas ações do governo Lula, incluindo a criação do Conselho Federal de Jornalismo, a criação da Ancinav ou qualquer proposta de regulamentação da mídia que pudesse ser ventilada.

São esses grupos midiáticos, ligados a grupos políticos, que estimulam, na ficção e no jornalismo, que o melhor é ter menos direitos, que a política é trabalho de bandido, que o Estado gasta muito e que o Brasil cobra muitos impostos. Não há espaço para o pensamento contraditório, para o contraponto, para o diálogo e para o respeito às diferenças.

O Jair está creditando sua vitória exclusivamente às redes sociais, mas não dá para negar que a grande imprensa é acionista marjoritária de tudo isso. Resta saber quanto tempo Globo e Folha vão aguentar sem as verbas de publicidade do governo.

E para quem espera discurso de estadista no tuiter, é melhor deixar de seguir o Jair de vez.

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Jornalista, produtor e aprendiz de fotógrafo

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