OPINIÃO

A “moça da padaria” ataca outra vez (e cada vez mais arrependida do voto, sim!)

Durante a campanha eleitoral de 2018 e nos primeiros meses do (des)governo Bolsonaro escrevi mais de um texto aqui neste espaço no Saiba Mais e nas minhas redes sociais sobre a a moça que trabalha na padaria aqui na rua onde moro. Eleitora de Bolsonaro por mera circunstância, desgostosa com os políticos e o país, sonhando com “o fim da corrupção”, com “um Brasil melhor” e, claro, mais segurança, ela que teve a mãe assaltada meses antes do primeiro turno.

Com este mix de desejos e decepções, nada mais natural que o voto dela fosse em um candidato que, afinal de contas, evocava justamente esse país melhor, sem corrupção e mais seguro, por bem ou por mal.

Não me arvoro mais em julgar as pessoas, muito menos em quem votam na solidão da urna. E passado na casca do alho de tantas eleições, meramente votando ou trabalhando em campanhas, sei que eleitores não são iguais uns aos outros. Nem todo eleitor de Bolsonaro é fascista, como nem todo eleitor de Lula ou Dilma era progressista ou “comunista”.

Mas, voltemos à moça da padaria. Lá estou comprando pão e manteiga quando a vejo no caixa, na hora de pagar. Talvez aproveitando que eu era o único cliente naquele momento, ela comenta:

– E o Brasil, hein?

– O que tem o Brasil? – sorrio.

– Está pior do que antes…

– Do que antes quando? Do tempo de nossas avós? – divirto-me.

– Pior do que estava com Dilma.

Bingo! Sem ter acesso aos índices sócio-econômicos, sem ler análises complexas, sem ter acesso aos textos da Carta capital e da BBC Brasil, ela parece ter percebido, por sentir na carne (e no bolso) que em 2016 a vida no Brasil era menos difícil.

Não precisei estender a conversa nem exercer um desnecessário sadismo (representado pelo famigerado Eu avisei) para detectar que ela está arrependida de ter votado em Bolsonaro. Como possivelmente boa parte da família dela e considerável parte dos brasileiros, pelo que mostram as pesquisas.

E entre os arrependidos, gente ilustre. Como o jornalista Reinaldo Azevedo, este criador do termo jocoso “petralha”, hoje já incorporado e mesmo admirado pela Esquerda. Temos também Alexandre Frota, que atualmente se dedica com mais afinco em criticar Bolsonaro do que os próprios parlamentares de PT, PSOL e PC do B. Entre outros. O time dos arrependidos (e/ou decepcionados) cada vez aumenta mais.

Por que insistir tanto neste aspecto? Pela razão simples de que só se tira um governo tendo entre as fileiras de combate arrependidos de ter eleito aquele governo. Como foi com Collor. Inclusive como aconteceu com a própria Dilma, já que entre os votantes do impeachment muita gente que fazia parte do Governo dela, inclusive ex-esquerdistas respeitados como Martha Suplicy e Cristóvão Buarque. Que, à época, estavam arrependidos de terem votado em Dilma. E não havia dedo em risco na Direita a tripudiar deles, que seja dito.

Quando falo em eleitores circunstanciais de Bolsonaro ou em manter diálogo, não falo jamais nos chamados “bolsominions”, aqueles (entre 10% e 15%) que são agressivos, haters mesmo, e defendem ideologicamente bandeiras como sexismo, homofobia e racismo. Como estes, claro, não tem diálogo.

Com a moça da padaria que, da maneira alienada e influenciável dela, só queria um país melhor, tem diálogo, sim. É com este diálogo que se pode fazer uma frente política para 2020 e a partir daí 2022. Sem incorporar os arrependidos, a Esquerda apenas vai quixotescamente lutar contra os moinhos de vento bolsonaristas para entregar a eleição a outro projeto de Direita (Luciano Huck? João Dória?) menos alucinado e mais envernizado.

 

 

 

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