OPINIÃO

A morte da história

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Ficamos todos consternados no último fim de semana com a irreparável destruição do Museu Nacional, algo que jamais poderá ser plenamente compensado nem mesmo pelas melhores restaurações que se façam no prédio. Afinal, a questão não é somente arquitetônica. 

Foi, acima de tudo, a documentação, o acervo em geral que se perdeu de maneira definitiva. Até o documento da independência assinado pela então regente imperial D. Leopoldina foi perdido, sem falar no mobiliário da época do Império, bem como coleções de imensurável valor etnográfico, antropológico, botânico, zoológico, paleontológico etc. Nada disso se recupera mais. 

O governo federal está na ofensiva contra a UFRJ, no sentido de culpá-la pela tragédia, ao afirmar que os repasses para a universidade carioca aumentaram nesses últimos anos, ao passo que os repasses que a UFRJ fazia desse orçamento para o museu vem caindo drasticamente, chegando a cortes de quase 70% em 2018. A universidade alega que apesar dos aumentos nos repasses, o aumento do custeio das despesas da própria instituição teria dificultado que mesmo com mais dinheiro, se fizesse o tipo de manutenção que o Museu Nacional demandava. 

Reformar prédios históricos não é simples. Sabemos disso. Não é como chegar lá com os pedreiros e dizer: “reboca essa parede,  pinta essa outra, troca essa instalação”. Além de todos os licenciamentos e autorizações de órgãos como IPHAN e ministérios da cultura e educação, por exemplo, tem o fato de que graças ao caráter histórico do prédio, alguns materiais teriam que vir de fora, do exterior, para não comprometer a originalidade do espaço, condição inegociável em qualquer projeto restaurador. 

Sabemos do projeto de desmonte das universidades federais perpetrado por esse governo golpista e ninguém vai negar que isso teve influência na tragédia anunciada do último fim de semana. Mas me pergunto até que ponto também não houve, se não ingerência, no mínimo imprudência, da própria UFRJ nesse caso. Afinal, como pode um prédio de 200 anos não ter alvará dos bombeiros? É de um amadorismo dos gestores… Como esse prédio está funcionando há tantos anos sem um plano de combate a incêndios? Desde 2004 segundo gestores do Museu, temos uma situação crítica. O que faltou então pra que tais condições fossem ostensivamente denunciadas? Tipo, por que a Universidade não interditou o espaço ao público como um protesto pela falta de manutenção? Me parece que os gestores foram aceitando, fechando uma sala aqui, outra ali, revestindo o teto com plástico pra evitar infiltrações (o que aumentou o potencial inflamável do incêndio, sem dúvidas) até chegar ao ponto que chegou. 

Se eu sou uma gestora de um espaço como aquele, trabalho nele e vejo que ele está precário e pode pegar fogo a qualquer momento, não seria mais prudente remover preventivamente parte do acervo? Será que uma atitude como essa não teria finalmente chamado atenção dos poderes de Brasília e sensibilizado o público? 

Se na minha casa percebo que deu cupim na minha estante de livros, o que eu faço? Deixo meu acervo ser devorado, ou tomo uma atitude preventiva? Me parece que essa atitude de prudência, essa falta de prevenção, é o que de fato se pode colocar como culpa na conta dos gestores da Universidade e do Museu.  

Agora iremos assistir a um festival de instituições querendo ajudar o museu, cuja restauração custará muito mais do que custaria ter feito sua manutenção. Sem falar, claro, como já foi dito, no acervo que não se restaura nem se reproduz, simplesmente se perdeu para sempre. Daí eu falar no título dessa coluna em “morte da história”, uma vez que a condição de irrecuperabilidade desse acervo, sua irremediável destruição, simbolicamente, tem essa equivalência, é como se a própria Clio (deusa greco-romana que simboliza a ciência da História) houvesse sido assassinada, e é mais ou menos assim que nos sentimos todos nós cientistas humanos, sociais, e povo brasileiro em geral: como se houvessem matado algum parente nosso, alguém muito próximo, familiar, como aqueles avós que nos acostumamos a ver a vida inteira e de repente não estão mais lá. É um sentimento muito duro. 

Espero que tal tragédia, às vésperas da eleição, possa finalmente conscientizar parte do nosso eleitorado, que não dá pra votar em candidato que afirma que vai acabar com Ministério da Cultura. Foi uma visão estreita como essa, que acha que cultura não gera renda, emprego e inclusão social, que nos trouxe à atual situação. Precisamos urgente de uma política cultural de prevenção e preservação do nosso acervo histórico-museológico, antes que seja tarde demais para outras importantes instituições, tais como Arquivo Nacional, Biblioteca Nacional, Museu da República e muitas outras. 

Com isso me despeço, de coração na mão. Como historiadora, creio que jamais me recuperarei dessa perda. E clamando por um país que seja da prevenção, e não da remediação, pois existem coisas que não se remediam, apenas se lamentam. Choro todas as vezes que vejo as imagens do museu na TV, me indigno, e escrevo essas linhas na esperança que as lições da história sejam, em todos os níveis, finalmente, aprendidas. 

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Historiadora e Militante LGBT

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