OPINIÃO

A morte da política e a política da morte

O processo instaurado pelas oposições, pela grande mídia, pelos grandes grupos económicos nacionais e internacionais, por setores do Judiciário e do Ministério Público, para desconstruir o Partido dos Trabalhadores e sua principal liderança, o presidente Lula, retirar a presidenta Dilma do poder e dar o golpe para implementar uma agenda neoliberal, reprovada nos últimos anos nas eleições, teve como consequência a criminalização da vida política e a associação imediata entre política e corrupção. Como o principal instrumento utilizado foi a operação Lava Jato, e a espetacularização das prisões, conduções coercitivas, julgamentos, criou-se um clima de descrédito e de hostilidade em relação à classe política, abrindo o caminho para aventureiros que se dizem apenas gestores e não políticos, como João Dória Jr e para membros de corporações, pretensamente não políticas e vistas como agentes da ordem e da moralização, como militares, religiosos, jornalistas ligados a programas policiais, etc. A descrença na vida pública, afastou progressivamente a juventude e pessoas de bem do exercício da política, considerada imoral e oportunista.

O fato de que o PT no poder não tenha investido na politização da população, muito pelo contrário, a medida que cooptou e instrumentalizou a maioria dos movimentos sociais, populares e sindicais. A ideia de que a esquerda estava no poder e o investimento exclusivo em se manter no governo federal, sacrificando, inclusive a militância de base do partido e submetendo seus núcleos locais a alianças políticas que desmoralizaram o partido, também contribuiu para a maioria da população descrer da política e achar que todos os políticos são farinha do mesmo saco. Uma boa parcela da população, desiludida com a militância na vida política, se dirigiu para a militância no campo religioso, que passou a se misturar e se imiscuir cada vez mais na atividade política. A perseguição feita pelos dois últimos papados aos setores progressistas da Igreja Católica e a proliferação de igrejas pentecostais e neopentencostais com perfil muito conservador foi um caldo de cultura para o crescimento de uma visão negativa e moralizante da atividade pública.

A obsessão do PSDB em desconstruir o PT, notadamente a partir da irresponsável liderança de Aécio Neves fez com que esse partido fosse se alinhando cada vez mais à direita do espectro político e, o mais grave, apostando em atitudes e procedimentos fragilizadores do regime democrático e republicano para alcançar seus objetivos: o apoio as pautas bombas no Congresso, votando contra seus próprios projetos e convicções políticas, o exercício de uma oposição destrutiva, que não pensava no país, na população e na democracia, se aliando e estimulando forças políticas bastante retrogradas, inclusive em termos civilizacionais. Por outro lado, o PMDB sob a liderança de Temer e Eduardo Cunha foi sendo levado às custas, inclusive, da oferta de recursos irregulares para a realização de campanhas políticas e baixo a ameaça a muitas de suas lideranças por parte da operação Lava Jato, a também ir se deslocando para a direita, esvaziando o centro político, rompendo a aliança com o PT que dava estabilidade política ao país e permitia a governabilidade. Desde então o país passou a viver uma crise política que somada a crise económica internacional colocou a própria democracia em perigo.

Para agravar a situação, o poder Judiciário, que poderia ter agido como garantidor da Constituição e do Estado de direito, viu setores se engajarem na militância política clara, fazendo com que o sistema de contrapeso dos poderes tenha se desmantelado. A parcialidade das decisões de membros de todas as instâncias do aparelho judiciário, criou um clima de insegurança, criatividade e discricionariedade jurídica, fragilizando a credibilidade no próprio sistema de justiça. Deixando-se, ao mesmo tempo, fascinar pelos holofotes da mídia e a ela se submetendo, em suas decisões mais polêmicas, acabou por desacreditar mais um dos poderes da República e criando o clima propicio àqueles que se propõem a agir ao arrepio da legislação e do Estado democrático de direito. A perseguição descarada e implacável ao presidente Lula, sua condenação sem provas, o uso constante de dois pesos e duas medidas, criando quase que uma jurisprudência só aplicada a ele, levam a que se abra margem para que candidatos a presidente defendam abertamente o desrespeito a legislação e o golpe contra as instituições democráticas. A politização do Judiciário tem como consequência uma crise da própria atividade política que se vê acoelhada por um poder que dela não deveria fazer parte.

A morte da política abre espaço para que uma política de morte tome seu lugar. A emergência do fascismo, o crescimento da popularidade de uma figura como Jair Bolsonaro, se dá no vácuo dessa desmoralização da atividade política. Ele é o monstro que surgiu e ganhou forma nesse processo de criminalização da atividade política e de tentativa de desconstrução da maior liderança popular e política do país. A criminalização da atividade política abre espaço para que aventureiros emerjam como messias prometendo a limpeza e a moralização da vida pública. Promete, para tanto, agir ao arrepio da lei, fazendo suas próprias regras e códigos, o que não causa espanto ou reação já que as leis já veem sendo desrespeitadas e relativizadas pelo próprio poder Judiciário, quando não oferece como solução o uso da violência sanguinária e aberta, o que representa o fracasso do próprio Estado em controlar a violência. A proposta estapafúrdia de se armar a população, de fazer de cada pai de família uma espécie de miliciano, não significa apenas a admissão da falência do Estado em oferecer segurança, mas a falência do próprio processo civilizatório, pois voltaremos a resolução pela bala das diferenças e conflitos. O candidato a vice-presidente brandindo um chicote, é a mais patente tradução dessa morte da política e sua substituição por uma política de morte. Se a vida política é o exercício da negociação, do contraditório, do diálogo, das dissensões dentro de regras e procedimentos, o abandono da política é o retorno à guerra de todos contra todos. Nesse estado de guerra declarado, os mais fracos e vulneráveis é que ficarão com o pior quinhão. Nesse bangue-bangue morrerão preferencialmente os pobres, os negros, as mulheres, a população LGBTI, as crianças, as pessoas portadoras de necessidades especiais. Em cada casa em que exista uma arma, eles serão as vitimas preferenciais.

A incapacidade de um pessoa autoritária como Bolsonaro em ouvir as outras pessoas faz dele um agente da morte da política. Ele quer que suas teses e ideias prevaleçam nem que para isso tenha que violentar os adversários. A forma como desrespeita os colegas, os jornalistas, todos aqueles que dele discorda deixa claro porque ele é um produto de sucesso nesses tempos de enterro da politica onde se prefere enterrar pessoas a com elas debater e dialogar.

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Durval Muniz de Albuquerque Jr. é professor, historiador e escreve aos domingos

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