CIDADANIA

A mulher que abriu a porta da própria casa para acolher moradores de rua em Natal

A porta está sempre aberta e, apesar do vai e vem de gente, o lugar simples é mantido sempre limpo e organizado. A casa de que falamos aqui é de Cida Melo, uma moradora do centro de Natal que recentemente deixou o apartamento em que vivia no Edifício 21 de Março, em frente à praça Padre João Maria, para um espaço maior, uma casa na esquina das ruas Professor Zuza com a Santo Antônio, na Cidade Alta.

A mudança não tem relação com a busca por conforto, mas com a capacidade do imóvel em abrigar mais pessoas, já que Cida decidiu abrir a própria residência para receber moradores de rua. Esse processo de despego começou há alguns anos, quando na hora do almoço, ao invés de cozinhar só para os de casa, começou a botar comida a mais na panela para fazer quentinhas com o que sobrava e entregar nas ruas.

“Na época eu morava na Zona Norte, que não tem tanto morador de rua como aqui na [Cidade Alta]. Eu sempre tive esse sonho de fazer algo pelos moradores de rua, mas não sabia como. Sou uma pessoa de família pobre, do interior. Sempre trabalhei para ajudar meus pais. Quando via as pessoas na rua catando lixo pra comer, aquilo me doía. Eu deixava de comer a comida que levava pro trabalho, pra dar ao morador de rua”, conta.

Casa de Cida, na esquina das ruas Professor Zuza com Santo Antônio, na Cidade Alta

Cida é casada, tem três filhos, sendo dois biológicos que não moram mais com ela e uma bebê de cinco meses, adotada recentemente. No entanto, na casa dela moram cerca de 18 pessoas, são moradores de rua que, pelos mais diversos motivos, se afastaram de suas famílias e perderam o lastro mínimo de sentido para manter a rotina de uma vida “padrão”. É na casa de Cida que, sem julgamentos, eles são acolhidos, recebem refeições, conselhos, dormem, tomam banho e têm um respiro para repensar a própria vida.

Apesar da acolhida, a casa também tem regras. Cada um ajuda como pode, uns lavam a louça, outros enxugam, um varre o outro passa o pano e assim as tarefas da casa são divididas por escala. A entrada só é permitida até as 22 horas, é proibido o uso de drogas e pode-se fumar cigarro comum, desde que do lado de fora da casa.

“Eu sento e converso. Se precisar, eu puxo a orelha e eles me obedecem, viu? Pedem desculpa… aqui é todo mundo unido, se um tá brigado com o outro, eu converso. Mas, quando a coisa é feia, chamo a atenção na frente de todos, pra que eles vejam e não repitam”, revela Cida, que só estudou até a 8ª série.

Apesar das 18 pessoas com dormida fixa, Cida já chegou a distribuir refeição para até 30 pessoas.

“Teve um dia que botei as mãos na cabeça quando vi a quantidade de gente querendo comer. A história vai se espalhando de boca em boca, até a Igreja Shalom trouxe duas pessoas que não são mais dependentes químicos, mas tinham problemas em casa e não queriam ficar na rua e eu recebi. Pelo meu projeto, eles também não pagam para se internar na Fazenda Esperança, uma clínica de reabilitação para dependentes químicos”, detalha Cida que batizou o trabalho voluntário que faz como o Projeto Alimentando Com Amor.

Para quem possa duvidar de sua boa vontade, Cida faz questão de esclarecer que não ganha nada com a iniciativa. A dona da casa nº 731 (alugada) veio morar em Natal aos 8 anos de idade com o irmão. Começou a trabalhar bem cedo em casas de família e foi ASG por alguns anos, até perder o emprego e começar com o trabalho voluntário.

A casa é mantida com o salário do marido e com doações, como a da Ceasa, que cede frutas e verduras para ajudar nas refeições. Cida conheceu o companheiro no Beco da Lama, quando ele pagou uma refeição para um morador de rua. Foi essa atitude que conquistou o coração dela.

“Eu estava saindo de uma depressão. Estava sentada com os amigos quando essa pessoa apareceu e mandou o dono do bar colocar uma refeição para o morador de rua. Aquilo me tocou assim, sabe? Pensei: Jesus, essa pessoa é igual a mim”, conta.

Receber estranhos em casa?

Apesar do medo que muitos possam ter ao pensar em dividir a casa com pessoas estranhas, o ambiente no lugar é bem familiar. Durante a tarde que passei com Cida para fazer esta reportagem, todos a tratavam por Dona Cida e pareciam agradecidos pelo acolhimento que não encontraram em outros lugares.

A gente não deve ter preconceito com nada, somos todos seres humanos. Muitos não tiveram oportunidade na vida, outros querem sair da droga. Mas, e os que não querem? Não vou deixar de ajudar uma pessoa que está precisando de mim porque ele é viciado ou bebe. Jamais! Somos todos iguais. A comida que faço pra mim é a comida que eles comem, ninguém esconde nada de ninguém”, defende.

“Eu só queria que se alguém visse essa matéria me ajudasse. Não tô pedindo dinheiro, nada pra mim, mas para eles, que precisam de um lençol, roupa, sabonete, um botijão de gás para fazer a comida deles. Ainda mais agora, que o botijão aumentou e eu gasto dois por mês. Outra coisa que precisamos é de um freezer para guardar as coisas que precisam de conservação, como as mortadelas e frangos que algumas pessoas doam pra gente”, conta Cida, que começou a ter contato com os moradores de rua organizando a fila quando alguns grupos voluntários faziam distribuição de comida. Depois de anos entre eles, fez amizades e começou a ser reconhecida, também, por outros voluntários.

Alimentos doados I Foto: Mirella Lopes
Homem que veio do Mato Grosso resolver problemas em Natal e está abrigado na casa de Cida I Foto: Mirella Lopes
Um dos quartos da casa I Foto: Mirella Lopes
Sala de jantar I Foto: Mirella Lopes

Melhor churrasqueiro na rua

Nem sempre a gente consegue alcançar aquela vida imaginada na infância ou adolescência. As decepções podem ser as mais diversas: sociais, profissionais, financeiras ou amorosas. No caso de José Humberto Moreira da Silva Filho, de 31 anos, o fim do casamento foi uma experiência tão traumática que ele deixou tudo e foi morar na rua.

José Humberto já recebeu troféu e medalha como melhor churrasqueiro do Rio Grande do Norte, em 2018, pela Escola Agrícola de Jundiaí. Ele já trabalhou em grandes restaurantes, como Sal e Brasa, Fogo e Chama e Tábua de Carne.

“Hoje eu estaria dormindo na rua, se não fosse essa senhora e o esposo dela, que me abrigaram aqui”, agradece Humberto, que se separou há cerca de um mês.

Essa é a segunda vez que ele passa por esse tipo de situação. Em sua primeira separação, Humberto também foi parar na rua por não aguentar morar na mesma cidade que a mulher. Ele tinha vindo do Maranhão para Macaíba por causa de uma paixão que conheceu pela internet através do Orkut (antiga rede social semelhante ao Facebook) e que viria a ser sua esposa.

Como tinha uma boa relação com o patrão no Maranhão, onde já trabalhava como churrasqueiro, Humberto chegou em terras potiguares em 2004 com uma recomendação do antigo trabalho. Se casou, teve uma filha, que hoje tem seis anos, e fixou residência em Macaíba. Mas, ao se separar, ele deixou o emprego que tinha no Restaurante e Pizzaria No Mangue e foi parar na rua.

“Saí do restaurante sem ter outro emprego e passei de 15 a 20 dias na rua, até que decidi que aquilo não era pra mim. Não é discriminando ninguém, mas tinha vergonha quando chegava pra receber uma doação e tinha alguém que me conhecia. Uma vez vi meu patrão lá e saí com a cabeça baixa, sem nem receber nada. Não era vergonha de ser morador de rua, mas dele me ver naquela situação”, confessa.

Depois de se recuperar da primeira separação, o maranhense voltou ao trabalho, se casou novamente, mas agora enfrenta uma nova crise pessoal depois de sete meses de casamento com um novo divórcio. Por causa do bom histórico profissional e do esforço pelos locais por onde passou, Humberto voltou a trabalhar, mas acha que ainda não tem estabilidade emocional para morar sozinho em uma casa.

Até tenho condições de ir para um canto, mas quando a gente está nessa situação, não sei nem como dizer. Aqui é bom porque tem mais pessoas, não uso drogas, nem bebo, graças a Deus”, conta Humberto.

José Humberto, de 31 anos, foi morar na rua depois da separação I Foto: Mirella Lopes

Como ajudar?

Como todo o trabalho que faz é voluntário, a única forma de ajudar é entrando em contato com Cida pelo telefone: 9 8713-6833.

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